Iniciativa resgata cantoras negras da Bahia e coloca nova safra em lugar de destaque

Texto / Guilherme Soares
Foto / Heitor Salatiel

As Aya Bass é a potência da mulher negra. Unindo a nova sofra da música baiana – Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França ¬– o projeto pretende resgatar cantoras negras da Bahia e ocupar o lugar de destaque relegado a elas historicamente. Com estilos distintos e carreiras ascendentes, as três cantoras despontam no cenário nacional fazendo um som diferente da axé music comercial, que tanto ressaltou a música negra, mas pouco contemplou as cantoras negras.

Carregando o nome dado às orixás do sexo feminino (yabás), o projeto foi idealizado para o verão de Salvador, o grande momento de efervescência da cidade, e teve estreia no último 26 de janeiro no Festival Sangue Novo, que traz shows de artistas em destaque na música do Nordeste.

Larissa, Luedji e Xênia preparam novo show de Aya Bass durante o carnaval soteropolitano, mas ainda não têm intenção de executá-lo em outras cidades ou ao longo do ano. “Vamos digerir tudo que aconteceu aqui ainda”, disse Xênia ao fim do show.

Se depender do público, as três devem fazer muitas apresentações do projeto. Afinal, a plateia assistiu extasiada, ora boquiaberta com o que via, ora cantando as músicas mais conhecidas. Enquanto, as três pareciam se divertir no palco, conscientes da força do que estavam produzindo.

Afrontosas. Idealizado por Larissa Luz, diretora artística e coreógrafa do projeto, Aya Bass faz resgaste de cantoras negras e manda um recado para a branquitude e seus privilégios: “a cor dessa cidade sou eu, e vamos ocupar os espaços que nos foram relegados”, como bradou Larissa durante o show. “Querem a música negra, mas não querem os pretos; querem a dança negra, mas não querem os pretos; querem o cabelo dos negros, mas não querem os pretos. Está na hora de fazer concessões, de parar de usar um lugar de fala que não é seu”. E emendou: “preto de alma não existe. Quem é preto é, quem não é, não é. A música preta é nossa, Wakanda é nossa”.

O recado parece servir para diversos destinatários, mas também tinha endereço certo: a cantora Daniela Mercury, que não foi citada no discurso, mas lançou a música “Pantera negra deusa”, em que fala de Wakanda e da força da África. Daniela é considera a rainha da axé music e sempre cantou músicas de valorização da negritude, o que não a torna negra, apesar de dar declarações dizendo que é... Luedji Luna acrescentou dentro dos versos de “Um corpo no mundo”, em que canta “Cada rua dessa cidade cinza, sou eu”, um verso da música mais famosa de Daniela, como resposta: “a cor dessa cidade sou eu”. Já Larissa inseriu uma frase ao fim de sua canção “meu sexo” pedindo “respeita as pretas”. E é melhor mesmo todos entenderem que elas são a revolução em curso.

Guilherme Soares Corpo editada

Apresentação de Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França movimentou o público em show em Salvador (Foto: Heitor Salatiel)

Apresentação. O show começou com uma música leve e que lembra um som de terreiros intitulada “Aya bass” que traz versos “para todas as moças”. Vestidas de branco e acompanhadas por mulheres instrumentistas, Xênia, Luedi e Larissa cantaram também duas músicas de maior destaque de suas respectivas carreiras e entoaram canções de Margareth Menezes, Ilê Aiyê e Timbalada.

Do repertório internacional, fizeram uma referência à Destiny’s Child, grupo dos anos 90 composto por Beyoncé, Kelly Rowland e Michelle Williams, em que elas se autodenominaram Nordeste’s Child ao cantar Survivor, “I'm a survivor”, em que pediram para as mulheres negras que estivessem sobrevivendo a alguma situação difícil para ter força, pois o momento passaria.

Além das músicas, o show teve um viés político forte. Uma fala de Tia Má, como a jornalista Maíra Azevedo é conhecida, foi usada para falar da força da mulher negra. Luedji ressaltou a importância do momento em que três mulheres negras compõem, cantam e vivem da sua arte mesmo com todo o apagamento histórico e lembrou de outras cantoras como Mariene de Castro e Márcia Short. “Temos sonoridade e percepção conjunto pelo amor”.

Xênia pediu para as mulheres negras não deixarem de ser o que são: “foda”. O adjetivo foi o mesmo usado por Duda Beach, que cantou no mesmo festival, e pelo ator global Fabrício Boliveira, para definir a apresentação. Já Loo Nascimento, fashionista e digital influencer, definiu o grupo: “um show da nossa cor”, disse passando o dedo nos longos braços.

A proposta do show nasceu depois que Xênia e Luedji se encontraram em Brasília e pensaram em fazer algo juntas. No dia seguinte, Xênia foi ao Rio assistir Larissa Luz no musical Elza, sobre Elza Soares, e saiu impactada. “Precisamos fazer um projeto conjunto”, profetizou. Foi quando Larissa tirou da manga as Aya Bass, que já tinha idealizou e em menos de um mês, aproveitando as férias das três na Bahia tudo se concretizou.

E quem ainda duvida da força da mulher negra?

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