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Inscrições para a premiação, que visa homenagear todos comunicadores não brancos que enviarem trabalhos produzidos em 2020, vão até o dia 24 de outubro

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Divulgação

Jornalistas negros, indígenas e pessoas trans podem concorrer ao I Prêmio Neusa Maria de Jornalismo, que nasce com a premissa de reconhecer o trabalho de profissionais que costumam ficar de fora de outras grandes premiações. O nome é uma homenagem à Neusa Maria Pereira (foto de capa), de 65 anos, jornalista formada pela Cásper Líbero e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU).

De acordo com os organizadores, “grandes prêmios de jornalismo brasileiro continuam premiando, em sua ampla maioria, brancos cisgênero, moradores de centros expandidos, que tiveram, na maior parte das vezes, condições de se dedicar a aprender a fazer jornalismo com tranquilidade. Enquanto negros, negras, pessoas trans e não brancas sempre tiveram tudo contra. E, mesmo assim, com todas as dificuldades, temos jornalismo profissional, de qualidade, feito pelos nossos”.

O prêmio leva o nome de uma jornalista que no período da Ditadura Militar, com outros militantes, organizou um protesto contra violência policial que já atingia principalmente a população negra. Além disso, Neusa foi a primeira mulher negra a publicar um texto sobre feminismo negro em um jornal brasileiro.

Inscrições

Cada repórter pode inscrever, em um formulário online, uma reportagem de sua autoria até às 18h do sábado, 24 de outubro. A reportagem deve ter sido publicada em qualquer data de 2020 e em qualquer veículo de comunicação. Entre as regras, está que as reportagens inscritas não podem ter sido produzidas por pessoas brancas cisgênero. Todos os inscritos serão considerados vencedores e, homenageados, na noite de 25 de outubro de 2020.

Matheus Moreira, 24 anos, repórter da Folha de S. Paulo e organizador do prêmio, diz que a iniciativa surgiu após um comentário em grupo que reúne jornalistas negros. “Todos temos nossos empregos e tudo que é relacionado ao prêmio precisava ser feito fora do expediente de cada um. O prêmio é um protesto contra a contínua supervalorização de repórteres brancos em detrimento dos não brancos”, ressalta.

Moreira afirma que o Prêmio Vladimir Herzog, por exemplo, indicou na categoria arte uma mulher branca que ilustrou uma reportagem sobre sistema socioeducativo. “Tanto a reportagem como a ilustração são incríveis, mas a reportagem, escrita por pelo menos oito pessoas negras, não foi finalista. A arte, feita por uma única mulher branca, foi”, aponta.

A valorização do trabalho de comunicadores não brancos (negros, pessoas trans, amarelos, indígenas), segundo o jornalista, é essencial. “Dá a essas pessoas algum grau de visibilidade e relevância, o que pode ajudar na conquista de um emprego bacana e ajuda na autoestima, uma vez que nós estamos sempre nos questionando se não conseguimos emprego x ou y porque não somos capazes ou porque não somos brancos. Infelizmente, muitas vezes, a resposta é porque não somos brancos”, considera.

Dessa forma, o objetivo da premiação é valorizar o caminho dos jornalistas negros e incentivá-los a não desistir, apesar de tudo que trabalha contra eles.

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1º Prêmio Neusa Maria de Jornalismo Pela valorização do jornalismo profissional feito por pessoas não-brancas e por pessoas trans Os Grandes prêmios de jornalismo brasileiro continuam premiando, em sua ampla maioria, pessoas brancas, cisgênero, moradoras de centros expandidos, que tiveram, na maior parte das vezes, condições de se dedicar a aprender a fazer jornalismo com tranquilidade. Um retrato da sociedade. Do lado de cá, a história sempre foi outra. Negros, negras, pessoas trans e não-brancas sempre tiveram tudo contra. E, mesmo assim, com todas as dificuldades, temos jornalismo profissional de qualidade feito pelos nossos. A cada dia somos maiores e melhores. Nós produzimos muito conteúdo de qualidade e vamos mostrar isso com o 1º Prêmio Neusa Maria de Jornalismo. Inscreva-se até às 18h do dia 24 de outubro (sábado) pelo link https://forms.gle/7QQhmuQ5TjeiBnGB6 Compartilhe com a hashtag #PremioNeusaMariaDeJornalismo e conta pra gente sobre as suas reportagens, suas entrevistas, documentários e projetos. Ilustração: @viniciusdearaujo65

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Prêmio Vladimir Herzog

Outro importante prêmio de jornalismo é o Vladimir Herzog, que presta homenagem e reconhece o trabalho de jornalistas, repórteres fotográficos e artistas do ramo que defendem a democracia, a cidadania e os direitos humanos. Na 41º edição há algumas pessoas negras entre os premiados.

O podcast Negra Voz, do jornalista Tiago Rogero, venceu na categoria produção jornalística em áudio. O episódio vencedor conta as histórias das bailarinas negras Mercedes Baptista, Consuelo Rios, Bethania Gomes e Ingrid Silva. “Sinto-me privilegiado por ver um resultado tão direto para um esforço tão grande. O Negra Voz é um propósito de vida. Levei mais de um ano produzindo, gravando, editando para depois ir ao ar. Foi muito trabalho e gratificante contar e ouvir essas histórias”, afirma Rogero.

O jornalista conta que o podcast surgiu do sentimento comum que as pessoas negras têm de que suas histórias não são contadas como deveria. “Ainda consumimos muito na escola e na mídia a história branca e eurocêntrica. Sou mais um a recontar nossa história, conseguir o prêmio me deixou muito feliz e dedico a quem topou compartilhar as histórias de suas vidas comigo”, diz.

Tábata Poline levou uma Menção Horosa em vídeo pela matéria “As faces do racismo” da Globo Minas, feita em parceria com Renata do Carmo, Saulo Luiz da Silva, Frederico D’Ávila, Saulo Vieira, Jackson Lobo, Marcelo Vianna, Thiago Silva, Valdimar Loiola e Welder Dias. Já Cecília Oliveira levou uma menção honrosa em multimídia pela matéria “arsenal global” em que ao lado Leandro Demori, rodou as ruas do Rio depois de tiroteios e achou bala fabricadas até na Europa da Guerra Fria. A matéria foi publicada no The Intercept Brasil

O Vladmir Herzog homenageia ainda personalidades ou jornalistas com atuação destacada nos direitos humanos. Em 2020 serão homenageados o advogado, jornalista e poeta Luiz Gama por sua atuação na libertação de pessoas escravizadas no século 19; a filósofa, educadora, escritora, fundadora do Geledes a ativista negra Sueli Carneiro e a cartunista, ilustradora, roteirista e jornalista Laerte.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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