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Tiago Dias viralizou ao abrir mão do salário de chefe do executivo da cidade no interior da Bahia para ganhar por mês o equivalente a um salário mínimo (R$ 1.100)

Texto: Victor Lacerda I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução/Facebook

Com a posse dos novos prefeitos brasileiros no início de janeiro, um fato surpreendeu a opinião pública, o de o prefeito eleito da cidade de Jacobina, localizada a 340 km de Salvador, na Bahia, assinar um decreto em que abria mão de 92% do salário mensal previsto para o cargo municipal. Natural do distrito de Cachoeira dos Alves, Tiago Dias (PCdoB) de 37 anos, receberá em seu primeiro ano de mandato um valor equivalente a um salário mínimo (R$ 1.100) por mês e é a primeira pessoa negra eleita para o cargo mais importante do Executivo da cidade.

Filho de uma merendeira e um agricultor, o novo gestor foi eleito com 19.207 votos, totalizando 45,82% das intenções de votos na cidade. Dias venceu outros dois candidatos, Luciano Pinheiro (DEM), com 405 votos (43,91%); e Mariana Oliveira (PT), com 4.306 votos (10,27%). Com o resultado, foi a primeira vez que um partido de esquerda chegou ao Poder Executivo no município, que no último censo levantado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), totalizou 80.365 habitantes.

Com a decisão de abdicar de seu salário, Dias retorna R$ 170 mil aos cofres públicos. O prefeito pretende substituir a finalidade do valor e repassá-lo para instituições de apoio à crianças em situação de vulnerabilidade social e aumentar os investimentos voltados para o desenvolvimento da Zona Rural da cidade. 

Via rede social, o novo prefeito informou que a decisão foi em prol de dias melhores para a população jacobinense. “Primeiro decreto assinado e o local escolhido foi o Construindo o Amanhã. Assumo o compromisso de reduzir o meu salário para um salário mínimo. Estamos em um momento de pandemia e quero fazer a minha parte para trazer Dias Melhores para nossa cidade”, escreveu. 

No dia 7 de janeiro, Dias realizou uma das primeiras ações da atual gestão e também chamou a atenção em sua página no Instagram ao vestir a farda dos funcionários de limpeza contratados pela prefeitura e participar de um mutirão de retiradas de lixos,  poda de árvores e campanha de conscientização com população local sobre cuidados e preservação com o meio ambiente. 

Sua alçada ao cargo pode ser lida como fruto de sua atuação como ex-vereador do município entre os anos de 2012 e 2020, em dois mandatos consecutivos.  Durante disputa eleitoral para a Prefeitura, o então candidato declarou três motocicletas, uma de 2004, outra de 2005 e, a mais nova, de 2013, como total de seus bens. Ao todo, o valor estimado chegava a R$ 11.500. 

Como plano de governo apresentado, ao lado de sua vice, Kátia da Saúde, pautou temas como agricultura familiar, educação, saúde, esporte, cultura, turismo, atenção aos povos tradicionais, políticas públicas para a população LGBTQI+, melhorias na infraestrutura da cidade, proteção aos animais, preservação do meio ambiente, segurança pública, transparência fiscal e participação popular.

Trajetória de trabalho desde a infância

Para ajudar na renda da família, entre os seis e nove anos de idade, Tiago Dias vendeu castanha nos arredores de casa e acompanhou o pai  na Feira Livre de Jacobina para vender frutas e verduras.  Depois, passou a entregar compras com carrinho de mão e a guardar dinheiro para alcançar a meta de comprar uma bicicleta para ajudar na sua locomoção entre o distrito em que morava e o centro do município. 

Aos 14 anos, trabalhou de ajudante em uma oficina de automóveis no centro da cidade e conciliava a atividade com o compromisso de tirar leite das vacas na roça da família.

Antes de entrar para a política, já adulto, ainda exerceu funções como vendedor de peças automotivas, motoboy, atendente da Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (COELBA) e agente de créditos. 

Aos 24 anos, assumiu o primeiro cargo de liderança, ao ser eleito como presidente da Associação de Moradores de Cachoeira dos Alves, sendo o porta-voz que cobrava dos órgãos públicos e secretarias municipais melhorias na qualidade de vida dos pequenos agricultores e da população da roça. Como ocupação registrada na Justiça Eleitoral, atualmente assume a posição de agricultor com ensino médio completo.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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