Ana Flávia Magalhães, professora de história da Universidade de Brasília e integrante do movimento negro, concedeu entrevista ao Alma Preta sobre a realização do II Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico, encontro que reuniu uma maioria de historiadores negros e negras na FGV

Texto / Pedro Borges
Imagem / Divulgação

O II Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico “superou as nossas melhores expectativas”, conta Ana Flávia Magalhães, professora-ativista negra da Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora do GT Emancipações e Pós-Abolição, da Associação Nacional de História (Anpuh). O encontro, com mais de 500 inscritos, levou centenas de estudiosos a ocupar a Fundação Getúlio Vargas (FGV) no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, entre os dias 15 e 18 de maio.

O principal tema a ser debatido no seminário foi a produção historiográfica brasileira sobre as lutas e as experiências de liberdade de homens e mulheres negras no contexto dos 130 anos do fim do escravismo no país, completados no último 13 de maio.

Diante do tema, o objetivo do encontro era reunir historiadores e pesquisadores de diversas áreas, das diferentes regiões do país, para se fazer um balanço sobre como e em que direções o campo da historiografia avançou nos últimos anos.

“A realização do seminário está associada aos esforços para a consolidação de um campo de estudos históricos voltados às possibilidades e interdições à liberdade negra durante e após o fim da escravidão”, conta Ana Flávia Magalhães.

A pesquisadora ressalta a importância do racismo ser estudado em perspectiva histórica. Para ela, é preciso pensar para além da escravidão, considerando as várias práticas de manutenção da exclusão da população negra ao longo da história do Brasil e de outras sociedades no mundo.

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“Isso tem nos permitido enxergar uma série de experiências individuais e coletivas de homens e mulheres negras que acabavam sendo negligenciadas nas pesquisas estritamente focadas na escravidão”, conta.

Para além da presença maciça de pesquisadores, o evento teve todas as demais características de um grande seminário. Foram 3 mesas temáticas, 13 exibições de iniciação científica, e 27 painéis de apresentação sobre temas diversos, como intelectualidade negra, quilombos, imprensa negra, associativismos, educação, entre outros.

Ana Flávia explica que a diversidade de temas é fruto da organização do racismo no Brasil, que estrutura a sociedade e hierarquiza sujeitos em todas as esferas do cotidiano.

“Uma hierarquização tão complexa e eficiente que gerou uma das mais maiores desigualdades raciais do planeta”, afirma.

No momento em que muito discute sobre representatividade e os lugares de fala, o seminário demonstrou na prática a importância da diversidade de pessoas, não só de temas. Entre os inscritos, 65,4% eram negros (44,2% pretos e 21,2% pardos), 31,4% brancos, 0,8% indígenas, e 2,4% se identificavam como outros. As mulheres também foram a maioria, com 65% das inscrições, e 34% para os homens.

Outra informação que chamou atenção foi o perfil escolar dos participantes. Entre os inscritos, 52,4% fizeram a Educação Básica em escolas públicas, e 73,1% fizeram graduação em universidades federais ou estaduais.

“Esse perfil das/os participantes evidencia o quanto os debates sobre o pós-abolição têm sido garantidos por pessoas que representam uma possibilidade real de democratização da educação no Brasil e da escrita da História”, afirma Ana Flávia Magalhães.

Ela também ressalta alguns momentos marcantes durante o evento, como I Fórum “Microfone Aberto” de Ensino de História do Pós-Abolição no Mundo Atlântico, que tinha o objetivo de potencializar os diálogos, como, por exemplo, trocas de experiências sobre a implementação da Lei n. 10.639. O momento foi coordenado pelas professoras de história Janete dos Santos Ribeiro e Joyce Fernandes (Preta Rara), que também são ativistas.

Outro momento de destaque foi a participação do historiador afro-estadunidense Thomas Holt, da Universidade de Chicago, como conferencista de abertura. O encerramento não foi menos impactante, contando com a presença de lideranças quilombolas e jongueiras, como Luciene Estevão Nascimento, Quilombo de São José da , Maria de Fátima da Silveira Santos, Jongo de Pinheiral, Marilda de Souza Francisco, Quilombo do Bracuí, e Suellen Tavares, Jongo da Serrinha.

“Considerando ainda a grande quantidade de ouvintes presentes, quase sempre lotando as salas, podemos dizer que cumprimos bem os objetivos do seminário. Ainda mais porque tudo foi feito com um orçamento bastante limitado. Foi necessário juntar muita força para dar conta do desafio”, afirma Ana Flávia Magalhães.

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