Vídeo de uma jovem branca que diz ter sido vítima de racismo tem circulado na internet e levantado o questionamento sobre a possibilidade de uma pessoa branca ser vítima de racismo

Texto / Pedro Borges
Imagem / twitter.com/KaitMarieox

A jovem em questão, Kaitlin Bennet, posou para fotos, no o dia da sua formatura, com uma metralhadora. Isso mesmo. Uma metralhadora. A ideia era protestar contra a proibição do porte de armas dentro do campus.

Pois bem, a instituição não só proibiu o uso de armas dentro da universidade, como a jovem também foi questionada por ativistas antirracistas sobre a sua postura. Em entrevista para a Fox, disse que não pode mais carregar uma arma na universidade por ser branca e pertencer a uma “minoria” social.

O caso, a maior familiaridade em presenciar pessoas negras fazendo denúncias de casos de racismo e em ver grupos sociais marginalizados serem descritos como minorias exigem uma breve descrição sobre o que são as “minorias” e o que é o racismo.

As minorias não são necessariamente os grupos de pessoas que, do ponto de vista populacional, estão em menor número em determinado espaço. Minoria é um conceito da sociologia que designa os grupos subalternos.

Nos EUA, a comunidade negra, além de representar cerca de 15% da população norte-americana, também é marginalizada. O conceito de minoria social, nesse caso, se encaixa muito bem.

Não acredito que isto faça tanto sentido para a população negra brasileira, mesmo ela sendo excluída de maneira cotidiana e histórica. As palavras são fortes e prefiro seguir aquilo que o movimento negro brasileiro aponta, de que somos marginalizados, mas a maioria.

O conceito, contudo, certamente não faz sentido algum quando aplicado à população branca norte-americana. Maioria da sociedade, com representação de aproximadamente 77%, a política de supremacia branca existente nos EUA é inquestionável.

O entendimento de quem é maioria ou minoria também perpassa pela compreensão das relações raciais, sociais e de gênero entre os grupos em questão.

Por isso, as reflexões desenvolvidas por intelectuais negros sobre as relações raciais existentes nos países da diáspora africana, como Brasil e EUA, nações que receberam um contingente significativo de seres humanos sequestrados durante o escravismo, são fundamentais para compreender as posições ocupadas pelos diferentes grupos raciais.

Kabengele Munanga, professor da USP (Universidade de São Paulo), e Nilma Lino Gomes, professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), apresentam três conceitos que nos ajudam a compreender as relações raciais nesses países: o preconceito, a discriminação e o racismo.

O preconceito é o pré-conceito, ideia que se constrói sobre outro grupo, seja ele racial, de gênero, classe, entre outros. A velocidade do cotidiano em que vivemos, as desigualdades existentes e os tensionamentos sociais são fatores que alimentam a construção de preconceitos.

Aqui vale uma descrição interessante. Os grupos tidos como minoritários também constroem imagens e ideias sobre os segmentos sociais dominantes. Fantasia-se sobre aquilo que pouco ou nada se conhece.

A discriminação, por outro lado, se expressa ou de maneira física, por meio de uma agressão, ou verbal, através de um xingamento, ou espacial, quando determinados locais são destinados para cada grupo racial.

A universidade, local onde a jovem branca queria expor sua arma, é um exemplo clássico sobre a discriminação racial, já que foi construída para ser ocupada majoritariamente por brancos e pouco, ou nada, por negros.

Os espaços superrepresentados por negros, reflexos de uma sociedade racialmente segregada, são exatamente aqueles marcados pelo sofrimento e a exclusão, como os presídios.

Grupos privilegiados racialmente não sofrem processos de discriminação e não são barrados ou proibidos de adentrar em qualquer espaço. Muito pelo contrário. A branquitude oferece às pessoas um cartão de entrada e um passe livre para ambientes que nem mesmo o dinheiro consegue garantir. Basta ver como homens negros, mesmo ricos, são parados pela polícia quando possuem carros de luxo.

Mas o elemento mais importante deste processo é a ideia de racismo. Em sociedades erguidas pela dominação de um grupo racial sobre o outro, é o racismo o elemento que permite e justifica a manutenção da população negra na base da sociedade, mesmo passadas décadas do fim da escravidão.

É o racismo que vai perpetuar e naturalizar todas as violências contra negras e negros, vítimas de um processo de genocídio, com inúmeras faces, seja por meio do encarceramento, do extermínio físico, ou mesmo através da morte simbólica.

É o racismo que permitirá um jovem negro de 12 anos, portando uma arma de brinquedo, ser confundido com um criminoso e ser assassinado por isso.

Sem qualquer possibilidade de serem discriminados ou mesmo apartados socialmente por serem brancos, fica impossível defender a existência do “racismo reverso”. Pessoas brancas, amparadas pela ideia da branquitude, têm passe livre para adentrar qualquer espaço, não serem diminuídas ou vistas como criminosas, mesmo quando carregam uma arma de guerra.

 

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