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Foram mais de cinco horas de espera do 33º DP, mesmo com testemunhas e com a faca usada pela agressora; jovem de 27 anos não teve seus direitos garantidos e nem foi ouvida sobre o caso

Texto: Juca Guimarães I Edição: Pedro Borges I Imagem: reprodução internet

Um caso de injúria racial e tentativa de homicídio contra uma jovem negra na saída da estação de trem de Pirituba levou mais de cinco horas para ser atendido na delegacia e mesmo com testemunhas, a arma do crime e vídeos, o delegado de plantão não ouviu o depoimento da vítima e liberou a agressora.

Uma mulher disse a uma jovem negra, de 27 anos, que o lugar dela era na “senzala”. Antes, a mulher fez comentários ofensivos sobre o penteado afro moça. As duas mulheres não se conheciam e a injúria racial aconteceu por volta das 20h30, da sexta-feira, 8 de janeiro, nas escadarias da estação Pirituba da CPTM, na zona Oeste da capital.

A acusada se chama Raquel Theodoro, 50 anos, que ainda ameaçou a moça com uma faca grande de cozinha, depois que a jovem se indignou e foi tomar satisfação por conta das ofensas.

A situação foi parcialmente contornada depois de um homem conseguir desarmar a mulher acusada. Outras pessoas que viram toda a cena gravaram vídeos mostrando a mulher e a faca que estava com ela.

Dois policiais militares que estavam trabalhando na CPTM foram chamados para controlar a confusão e chegaram minutos depois. Ainda estavam lá as testemunhas, o homem que desarmou a acusada e a vítima.

Os PMs Leonardo Mateus de Souza, 28 anos, e Flávia Rodrigues Rocha, 27 anos, acompanharam todos até o 33º DP, também em Pirituba. Os advogados da jovem negra, que foi ameaçada e ofendida por Raquel Theodoro, também foram até a delegacia.

“Os policiais tentaram amenizar a situação. Na delegacia, por várias vezes, disseram que ia demorar até oito horas para registrar a ocorrência e que eu ainda tinha um prazo de até seis meses para fazer a denúncia depois”, disse a jovem.

Quando chegaram na delegacia, Raquel Theodoro ficou rindo, provocando e tentando tirar fotos da jovem negra. Segundo a vítima, os policiais presenciaram isso e disseram que não podiam nem impedir e nem pegar o celular da mulher para apagar as fotos que ela estava fazendo.

Por conta da demora, as duas testemunhas foram embora. Depois de quase cinco horas de espera, foi feito o registro da ocorrência com o depoimento dos policiais militares e sem o testemunho da jovem. A faca foi apreendida.

Eles contam que estavam trabalhando e foram acionados por conta de uma briga entre duas mulheres. O relato dos PMs começa com a versão da mulher que fez as ofensas racistas e com a sinalização de que a jovem negra “começou a xingá-la, cuspiu na cara dela e tentou agredi-la”. Nisso, a mulher tentou se “defender com a faca que tinha comprado momentos antes”.

Na hora de relatar a história da Bruna, os policiais foram vagos no detalhamento dos fatos. Eles registraram que a jovem alegou que a mulher fez “piadas e ofensas raciais muito fortes”. Os dois policiais também destacaram que não presenciaram o que eles chamaram de “entrevero”.

Segundo a vítima, o delegado de plantão no 33º DP, Dejair Rodrigues, não ouviu o depoimento dela e não fez a acareação da acusada com as testemunhas. Os policiais militares disseram ainda que não conseguiram localizar o homem que desarmou a agressora.

“Ele [delegado] disse que o caso precisa ser registrado em outra delegacia, na 87 DP, que estava fechado. Eu fiquei lá, por quase cinco horas, com ela encarando, sentando do meu lado tentando criar uma situação, tirava fotos minhas e ninguém fez nada. E quando saiu o boletim de ocorrências não me ouviram, ficou só a opinião dos policiais, não ouviram o que eu tinha para contar, os detalhes do que aconteceu”, lamentou a jovem.

O fato

A jovem relembra que estava descendo a escada depois de sair do trem e espantou uma mariposa que estava voando em volta do seu cabelo. Raquel Theodoro viu a situação e começou a zombar dela e disse: “quem é que tem que ter medo é a mariposa dessa coisa preta”, referindo-se a jovem e aos dreadlocks.

“Continuei descendo a escada e ela disse que ‘o lugar dessa gente é na senzala'. Eu retruquei e questionei o que ela estava dizendo. Daí ela respondeu que ‘era isso mesmo que você entendeu e agora sai da minha frente’. A discussão aumentou e ela puxou uma faca, dessas de cortar carne, e partiu para cima de mim com a faca”, disse.

Nesse momento, um homem presente no local foi rápido e tirou a faca da mão da Raquel. As pessoas que estavam perto chamaram a polícia.

mulher racista na CPTM

Na delegacia, Raquel disse que mora no bairro Vila Barreto, região de Pirituba, nasceu no Rio de Janeiro e atualmente trabalha como faxineira.

A Alma Preta entrou em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo questionando sobre a demora e o modo como foi registrado o caso de injúria racial ocorrido na estação CPTM de Pirituba. Em nota o orgão explicou que o caso está sendo investigado e diligências estão em andamento para esclarecer todas as circunstâncias da ocorrência e individualizar a conduta de cada uma. A equipe notificará as partes envolvidas na ocorrência para prestarem depoimento e realiza buscas por imagens de câmeras de segurança da estação.

A mulher acusada pelo crime também foi procurada para comentar o caso, mas ela também não respondeu. A jovem vítima de injúria afirmou que é mentira que ela tenha dado socos e chutes na mulher.

O ouvidor das polícias do Estado de São Paulo, Elizeu Lopes, informou que vai apurar e acompanhar o caso. 

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