Enquete “Assistentes Sociais no Combate ao Racismo” ouviu profissionais da área entre novembro de 2018 e abril de 2019

Texto / Redação | Imagem / Rafael Lopes / CRESS-RJ / Edição / Simone Freire

“A paciente achou que a minha função e da outra colega que estava naquele plantão atendendo era de faxineira”, “a coordenadora do equipamento fez referências pejorativas ao meu cabelo”, “minha coordenadora fez um comentário (em tom de brincadeira) dizendo que jamais poderia ir numa reunião usando essas ‘coisas’ que eu uso, fazendo referência a tranças, faixas e lenços”, “pelo fato de ser indígena, alguns colegas de trabalho, técnicos de enfermagem, enfermeiros e outros me tratavam com indiferença, como se eu fosse inferior”.

Esta série de relatos exemplificam o resultado preliminar do levantamento “Assistentes Sociais no Combate ao Racismo”, que avaliou, entre outras coisas, as discriminações étnico-raciais sofridas por assistentes sociais no ambiente de trabalho.

Segundo a pesquisa, 34% dos assistentes sociais já passaram por situações que remetam a preconceito/discriminação racial no exercício profissional, sendo que 10% disseram já terem sido preteridas/os a cargos ou indicações para representações externas em razão de sua raça/cor.

O levantamento foi uma iniciativa do comitê da Campanha de Gestão do Conjunto CFESS/CRESS “Assistentes Sociais no Combate ao Racismo” do Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo — 9ª Região (CRESS-SP). Ao todo, 426 profissionais responderam à pesquisa.

Patrícia Maria da Silva, membro do Comitê da Campanha e do Grupo de Trabalho (GT) responsável pela enquete, explica que o material apurado é bastante vasto e as informações levantadas seguem em processo de depuração e análise.

Para ela, apresentar dados concretos sobre o racismo fortalece o combate ao problema. “Quando a gente estuda, pesquisa, apresenta números, a gente evidencia o racismo estrutural. E para combater o racismo estrutural e o racismo na sociedade, é só a partir do conhecimento”, diz.

Perfil dos profissionais

54% dos entrevistados identificaram-se como homens negros e mulheres negras — sendo 30% pretas/os e 24% pardas/os —, 44% como brancas/os, 1% como amarela/o e 1% como indígena.

A maioria atua nas áreas de assistência social (28,40%), saúde (23,94%) e sócio-jurídica (10,56%). Um número menor, mas ainda representativo, de respondentes trabalha na educação (4,23%) e na habitação (3,99%).

Também participaram da pesquisa assistentes sociais atuantes, entre outros, no serviço público, no setor de formação profissional, em Recursos Humanos de empresas, no atendimento a crianças e adolescentes, em organizações da sociedade civil (OSCs), não governamentais (ONGs) e/ou outras entidades, na Previdência Social, na área de esporte e cultura, em comunidade terapêutica, além de aposentadas/os e estudantes de Serviço Social.

Usuários

Em relação à população atendida, a pesquisa pontuou que 49% dos entrevistados disseram identificar a maioria dos usuários como negra / preta / parda e 49% responderam já ter presenciado situações que remetam a preconceito / discriminação racial contra os usuários assistidos na rotina profissional.

Foram vários os depoimentos levantados entre os entrevistados que expõem a realidade dos reflexos do racismo na relação com a população atendida: “Quando chegava um usuário branco de olhos claros era dito por algumas pessoas da equipe que ele nem tinha perfil de usuário de substâncias psicoativas”, “poder judiciário e os serviços de acolhimento institucional de crianças e adolescentes são os que mais manifestam esse racismo com as mulheres que atendo, desde a[s] desqualificarem enquanto mãe[s] até culpá-la[s] pela sua condição social e a de seus filhos”, “tentativa de bloquear a entrada de pessoas negras ou emigrantes por pessoas que não pertenciam ao grupo de profissionais ligados ao atendimento”.

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