Entre as entrevistadas, 66% são mulheres negras, o que para uma das coordenadoras da pesquisa é reflexo do sistema escravista no Brasil

Texto / Pedro Borges
Imagem / InternetLab

A pesquisa “Domésticas Conectadas”, feita pela Associação InternetLab de Pesquisa em Direito e Tecnologia, traçou o perfil de conexão à internet das empregadas domésticas de São Paulo. O estudo mostra que 66% se autodeclaram negras.

Elas também responderam que 72% não têm acesso à internet em casa. Entre as que tem, 73% tem wi-fi próprio, 17% tem uma rede compartilhada com outras pessoas, 11% utiliza o pacote de dados e 7% por rádio ou cabo.

Elza de Oliveira Teles, uma das trabalhadoras envolvidas na pesquisa, conta que a falta de acesso se torna um empecilho profissional.

“É por meio da internet que conseguimos manter o contato com os patrões, e até mesmo para divulgação do serviço. Na falta da internet, isso fica um pouco mais difícil.”

Questionada sobre a super-representação de negras nesse profissão, Marisa Villi, coordenadora do estudo, conta que o passo escravista ainda se reflete na divisão do trabalho na sociedade e empurra a mulher negra para o serviço doméstico.

“São muitas as pesquisas que discutem como as populações negras, desprovidas de acesso à educação e com menos oportunidades sociais do que a população branca, acabam ocupando até hoje postos de trabalho subalternos e estigmatizados em consequência desta dívida histórica”, pontua a coordenadora.

A pesquisa, feita em âmbitos quantitativo e qualitativo, optou por trabalhar com empregadas domésticas mulheres. De acordo com o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), em 2017, na cidade de São Paulo, 96,2% das pessoas que desenvolviam o serviço doméstico eram mulheres.

O método utilizado foi o da “PerguntAção”, técnica desenvolvida pela Rede Conhecimento Social, que envolve o público pesquisado em todas as etapas do processo, desde o levantamento das hipóteses até o desenho do questionário e a análise dos resultados.

Acesso à internet

A pesquisa mostra que 98% das empregadas domésticas acessam a internet pelo celular, enquanto somente 12% o fazem pelo laptop, 12% pelo computador de mesa e apenas 8% pelo tablet.

Mariana Valente, também coordenadora da pesquisa, chama a atenção para a limitação no uso do serviço de internet por parte das domésticas, que utilizam a plataforma no celular e pouco em outros equipamentos que permitem o contato com outras funcionalidades da rede.

“O celular vem sendo uma porta de entrada para muitas pessoas à internet, mas ao mesmo tempo, o uso por esses aparelhos é limitado em relação ao uso pelo computador - há sites, inclusive de serviços públicos, que não são adaptados para mobile, e assim por diante.”

A maior parte das atividades desenvolvidas na internet é para se comunicar com as pessoas. Cerca de 58% delas manda mais de uma mensagem de áudio por dia por meio de um aplicativo de conversa e 59% o fazem por escrito. Por outro lado, 21% nunca usaram e-mail.

Atividades como entretenimento e até mesmo informação são mais reduzidas. Cerca de 70% das entrevistadas nunca jogaram um game online; 83% nunca leram um livro; 85% nunca acompanharam um blogueiro e 60% nunca leram uma notícia.

Para a pesquisadora Marisa Villi, o acesso à internet por celular e por planos pré-pagos é uma das características que limita o exercício das funcionalidades em rede.

“Vale lembrar que os pacotes de dados predominantes são os pré-pagos (64%), que têm limites diários de navegação, e 46% declaram usar aplicativos que não gastam pacote de dados, que normalmente são aqueles de comunicação.”

A internet também não tem sido uma facilitadora profissional. A maior parte das entrevistadas (75%) nunca divulgou o trabalho em uma plataforma online.

As empregadas também não se sentem à vontade para expressar suas opiniões no ambiente virtual. Perguntadas se expressam as opiniões livremente, 61% delas disseram que não.

Perfil das participantes

A pesquisa mostrou que 74% das domésticas que trabalham em São Paulo vêm da região Sudeste, com destaque para o próprio estado, de onde vêm 68% delas. Chama a atenção o alto índice de funcionárias do Nordeste, com 24%, com maior presença dos estados da Bahia (9%) e Pernambuco (6%).

Foi possível também notar que há distribuição proporcional entre as empregadas domésticas nas diferentes faixa etárias. De acordo com o estudo, 14% têm entre 18 e 25 anos; 13% entre 26 e 30; 14% entre 31 e 35; 12% entre 36 e 40, 15% entre 41 e 45, 11% entre 46 e 50; 11% entre 51 e 55; e 10% entre 56 e 65 anos.

A variação entre 10% e 15% aponta para a continuidade do serviço, por parte das mulheres, segundo Marisa Villi.

“A hipótese é de que esta distribuição semelhante entre as idades se dá porque a profissão está em constante renovação, mas se dá principalmente por influência de contexto socioeconômico, como em períodos de instabilidade econômica.”

A escolaridade chama também a atenção, afinal, apenas 1% delas completou o ensino superior. Os demais números mostram que 47% têm o ensino médio completo ou superior incompleto; 21% têm o fundamental completo e médio incompleto; 26% o fundamental I completo e o fundamental II incompleto; e 5% têm o fundamental incompleto ou são analfabetas.

Foram realizadas 400 entrevistas na região metropolitana de São Paulo, divididas entre as principais áreas. Na Zona Norte foram ouvidas 41 pessoas; na Zona Sul, 84; na Zona Leste, 135; na Zona Oeste, 40; e nos municípios da Grande São Paulo, 100. A margem de erro para essa amostra é de cinco pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

O material foi organizado pela Associação InternetLab de Pesquisa em Direito e Tecnologia, Rede Conhecimento Social e pela Consult Pesquisa de Mercado.

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