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Empregadas domésticas afirmam perceber diferença de qualidade no sinal da internet nas casas dos contratantes e de suas casas. A pesquisa também expõe que a maioria acessa o serviço pelo celular e pesquisadora aponta como esse fator como obstáculo no acesso à sites que não são adaptados para mobile

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Entrevista / Alma Preta
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A pesquisa “Domésticas Conectadas”, feita pela Associação InternetLab de Pesquisa em Direito e Tecnologia, traçou o perfil de conexão à internet das empregadas domésticas de São Paulo. Em entrevista ao Alma Preta, Marisa Valente e Mariana Villi, coordenadoras da pesquisa, falam sobre o estudo.

Alma Preta: Quais resultados da pesquisa chamaram mais atenção?

Marisa Valente: Um resultado que chama atenção é a grande insegurança das trabalhadoras domésticas em relação à internet em vários aspectos. Por exemplo, algumas justificam que o hábito de comércio eletrônico é restrito principalmente à pesquisa de preço pois não confiam que aquilo que compram vai chegar corretamente em suas casas.

Mas o principal medo se dá em relação à própria profissão: 70% das domésticas sentem-se inseguras para procurar emprego pela internet e apenas 25% já usaram as redes para divulgar seu trabalho. Há relatos, inclusive, de trabalhos conseguidos por canais online, que foram realizados e não pagos, ou situações em que receberam cantadas logo na porta e foram embora.
E na vida privada, também preocupam-se com a privacidade em suas redes sociais: 49% pensam muito antes de aceitar e incluir alguém, já que acham perigoso aceitar sem conhecer e não querem que essas pessoas vejam suas publicações e sua vida pessoal.

Outra informação que nos surpreendeu foi o fato de que a maior parte dessas mulheres não identifica a internet como um instrumento para seu trabalho, ou como um espaço de debate sobre sua profissão. 57% discordam que a internet ajuda a valorizar a profissão de doméstica; 84% nunca pesquisaram, postaram ou discutiram sobre a profissão na Internet; 88% nunca participaram de grupos na Internet sobre serviços domésticos; e apenas 14% participam de grupos de WhatsApp com outras empregadas domésticas. No entanto, há espaço para o crescimento desse engajamento, já que 54% teriam interesse em participar de espaços de discussão ou informação sobre a profissão.

Mariana Villi: Um outro ponto de interesse é que 66% das trabalhadoras domésticas afirmam utilizar a internet para buscar informações sobre saúde, enquanto a média nacional é 42%, e a do sudeste é 45%. Nos grupos, foi afirmado que elas não confiam nas informações que lhes são prestadas pelos serviços de saúde, sobre diagnósticos e remédios; é o tipo de dado que diz mais sobre os serviços de saúde que sobre a internet.

Achamos bastante importante também os dados sobre uso da internet para entretenimento, que é bem menor do que tínhamos suposto. Para além disso, verificamos que as mulheres que têm filhos utilizam muito menos a internet para entretenimento, e identificamos que isso tem muito a ver com o tempo no cuidado com os filhos, o que é uma importante questão de gênero.

Por fim, questões de acesso também chamam muito atenção. Desde o fato de que elas identificam que a conexão na casa dos patrões é melhor que em suas casas, e sabemos que estamos falando de territórios periféricos e centrais, até o altíssimo acesso pelo celular, 98%, e baixo acesso pelo computador, 12%.
O celular vem sendo uma porta de entrada para muitas pessoas à internet, mas ao mesmo tempo o uso por esses aparelhos é limitado em relação ao uso pelo computador, há sites, inclusive de serviços públicos, que não são adaptados para mobile, etc. Os dados de acesso geral do Cetic (TIC Domicílios) mostram que há uma desigualdade de classe grande nesse aspecto, e, com a importância da internet nas nossas vidas, essa desigualdade no acesso aprofunda outras desigualdade.

AP: Os dados apontam para uma utilização da internet para a troca de mensagens, sem a exploração de outras ferramentas. Por quê?

MV: Não é exclusividade desse público que o uso de recursos digitais seja mais direcionado à comunicação. É importante lembrar que 98% das entrevistadas acessam a internet pelo aparelho celular, que é essencialmente um instrumento de comunicação e também tem recursos limitados se comparado a um computador. Apenas 12% declaram conectar-se por computador e 12% por notebook, que seriam aparelhos com mais recursos e com maiores possibilidades de diversificação do repertório de usos.

AP: Na pesquisa, é possível observar uma distribuição proporcional entre as mulheres nas diferentes faixas etárias. O que explica isso?

MV: Há uma variação de 10% a 15% de mulheres em cada faixa etária. A hipótese é de que essa distribuição semelhante entre as idades se dá porque a profissão está em constante renovação, mas que se dá, principalmente, por influência de contexto socioeconômico, como por exemplo, em períodos de instabilidade econômica.

Quando observamos o tempo de trabalho fica claro que houve uma recente entrada nesse campo de profissional, já que 47% das entrevistadas atuam há três anos ou menos como domésticas.

AP: Por que há uma predominância de mulheres negras?

MV: Não é por acaso que 66% das trabalhadoras domésticas na Grande São Paulo se declaram como negras. Esse dado é mais uma prova de que as relações de trabalho são totalmente permeadas pelas heranças da escravidão. São muitas as pesquisas que discutem como as populações negras, desprovidas de acesso à educação e com menos oportunidades sociais que a população branca, acabam ocupando até hoje, em consequência dessa dívida histórica, postos de trabalho subalternos e estigmatizados.

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