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Live no domingo (28) vai lançar evento digital, que acontece em agosto; organizadores buscam apoio

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Coletivo Estúdio Urbano

O movimento gay é dominado por homens cisgêneros brancos que buscam a adequação social por meio da normatização de seus corpos. A crítica é do Flip Couto, artista da dança e produtor cultural, idealizador do coletivo Amem e um dos idealizadores da Parada Preta. O evento pauta pessoas negras, trans, mulheres lésbicas e periféricas com o objetivo de ser um local onde esses corpos sintam-se à vontade.

O coletivo organiza uma live neste domingo (28), às 14h, no Instagram, com uma conversa com Jeferson Silva, professor História, e Félix Pimenta, artista da dança. Os organizadores preparam ainda uma edição digital do evento em agosto, que ainda não conta com apoiadores financeiros. “Traremos várias linguagens artísticas, como o bate-cabelo, vogue, poesia, dando voz para outras pessoas. Vamos aproveitar a edição digital para descentralizar o conhecimento, trazer artistas de diferentes regiões”, conta Flip Couto.

A Parada Preta surgiu junto como movimento da Festa Amem, que começou em 2016 com a realização de festas temáticas com pautas ligadas à Consciência Negra, ao Dia Mundial da Aids, entre outros. O coletivo passou a discutir o que significava o mês de junho, em que é lembrado o Dia do Orgulho LGBTIQI+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex), em 28 de junho, marcando um episódio ocorrido em Nova Iorque, em 1969. Naquele dia, as pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn reagiram à uma série de batidas policiais que eram realizadas ali com frequência.

Por conta da data, junho tornou-se o mês de visibilidade LGBTQI+ e quando ocorre a parada em São Paulo, o maior evento do país. “Pensamos o significado da diversidade para pessoas negras, trans. Não tínhamos orgulho dessa programação, por isso pensamos numa parada preta que desse ideia ao plural e não ao diverso”, afirma. A primeira edição ocorreu em 2017, um sábado antes da Parada LGTQI+ e teve como foco combater o padrão de corpo musculoso de homem branco cis. “Trouxemos drag queens, pessoas trans, periféricas. A ideia foi construir esse orgulho de pertencer e de falar de outras questões que são importantes”, afirma.

O evento também abordou questões ligadas à saúde mental e saúde integral, que passa pela construção de novos espaços em que esses corpos se sintam à vontade.Ainda em 2017, Flip participou de um encontro da black pride de Nova York, que pensa a programação a partir da cultura do ballroom, circuito de bailes da comunidade LGBTQI+ norte-americana que virou febre nos anos 80 e 90.

Além da cidade da América do Norte, há black prides em Paris e Londres. Em São Paulo, o evento sofreu com a falta de apoio e sustentabilidade financeira. A edição de 2017 deu prejuízo aos organizadores e não ocorreu em 2019. “Há sempre um questionamento por meio das marcas do porque dividir e porque não nos juntamos. Mas só houve uma sinalização da ‘parada oficial’ de fazermos um show sem remuneração e não rolou”, contextualiza Couto e emenda: “A Parada Preta tem um não-lugar. No setor de raça das marcas te mandam pro pride que também não recebe nossas demandas”.

Em 2019, o evento ocorreu na Z-Largo da Batata e levou diálogos que não costumam ocorrer dentro da parada tradicional. O evento contou com a participação da deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL/SP), além de apresentações de Dani Couwlt, Rico Dalasam, Luana Hanssen e discotecagem de Kiara Fellippe.

Flip lembra que o pink money é baseado na estética e viagens e exclui público que não é consumidor do capital. “A Parada LGBTQI+ é o evento de mais arrecadação da cidade”, ressalta. Ele lembra que o tema HIV/Aids é tratado de forma pontual e não costuma ser interssecionalizado, com recorte racial. “Quem mais morre e não tem acesso a tratamento são as pessoas negras. Ainda existe dentro do movimento muita misoginia, transfobia, racismo, classismo”, pontua. Diante da luta para pautar o tema, em 2021 a ‘parada oficial’ vai abordar o HIV/Aids.

O organizador da Parada Preta lembra, no entanto, que o evento costuma cometer deslizes, como o que ocorreu em 2020 em que youtubers tiveram destaque, deixando de lado atores que historicamente constroem o movimento. “Foi uma programação higienizada dos temas da comunidade. Quem tem mais espaço é quem tem mais seguidores. O processo de exclusão foi muito forte”, considera.

Em 2019, João Pessoa também realizou sua Parada Preta em novembro, após a cantora Linn da Quebrada ter tido um show cancelado na Parada LGBTQI+ da capital paraibana.

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