No país, 7% da população se autodeclara negra

 Texto / Lucas Veloso | Edição / Pedro Borges | Imagem / Associated Press

No dia 3 de outubro, as ruas do Equador viram nascer protestos liderados por indígenas. As manifestações começaram dois dias depois que o presidente Lenín Moreno implementou, por meio de decreto, algumas medidas econômicas e reformas trabalhistas do receituário do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o país conseguir empréstimos de mais de US$ 4 milhões.

Entre os pontos estava o que colocava fim aos subsídios dos combustíveis, e a consequente alta nos preços de até 123%. Os novos valores também teriam impacto no custo do transporte público.

“A medida do aumento do combustível significa aumentar o custo de vida da população que, em alguns setores mais precários continuam ou mantêm renda mensal muito baixa. Mais trabalho para os pobres e menos estudos”, definiu a presidenta do coletivo Mujeres de Asfalto, Juana Carol Francis Bone.

Segundo Juana, a crise foi social, econômica e política e evidenciou a falta de governabilidade no país. “ O Equador não está passando pelo seu melhor momento econômico. A crise persistente combinou com a ausência de política e com um retorno às medidas que muitos imaginavam como parte do passado”, definiu. “Essas medidas do FMI violaram princípios dos direitos humanos no país”.

Ela acredita no aumento da dívida externa do país, com impactos negativos na população. Frente ao que chama de ‘futuro complexo’, Juana defende uma reinvenção das esquerdas e dos movimentos sociais.

Os movimentos sociais equatorianos, principalmente os indígenas, mantêm a tradição em defesa dos subsídios aos combustíveis e ao gás de uso doméstico por meio de mobilização social. Os governantes que tentaram mudar essa política foram derrubados ou tiveram de enfrentar fortes protestos. ‘Paquetazo’ foi o nome dado ao pacote de medidas econômicas de Lenin.

Juana afirma que as medidas econômicas do ‘paquetazo’ fazem parte de uma política latino- americana. “A América Latina não gosta de mencionar o racismo, a xenofobia e o sexismo, por exemplo, mas nos discursos das autoridades o viés usado fortalece os preconceitos e racismos”, denuncia.

Os grupos eram contrários também à extração de petróleo e à mineração em terras indígenas.

A convocação inicial da greve foi liderada pelo Sindicato de Trabalhadores de Transportes. O movimento foi logo apoiado pelos indígenas, na imagem da Confederação Nacional de Indígenas do Equador, pelas organizações sindicais como a Frente Unida de Trabalhadores (FUT) e o Coletivo Unido de Trabalhadores.

Durante os protestos, o presidente chegou a mudar a sede do governo para o principal porto do Equador, Guayaquil. Tanques militares, cavalaria policial, disparo de bombas lacrimogêneas e balas de borracha contra manifestantes foram usados pelo governo. As medidas foram denunciadas por organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional.

No domingo passado (13), a greve completou 11 dias. Com isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Conferência Episcopal anunciaram uma rodada de negociações entre o movimento indígena e o governo.

No encontro, os indígenas argumentaram que o Decreto 883 afetava a renda dos mais pobres, pediram transparência sobre o acordo com o FMI e exigiram responsabilização acerca dos mortos e feridos nas manifestações no país. Por fim, o ‘paquetazo’ foi suspenso e uma comissão formada pelo movimento indígena e o governo vão elaborar um novo acordo.

Apesar das negociações, Juana pontua que há racismo no Executivo do país. “A gente vê isso no ataque às comunidades negras, na estigmatização desta população”.

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