fbpx

Marcelo Carvalho salienta que tanto na Europa quanto no Brasil os atos racistas acontecem em campo, sem ações adequadas das autoridades envolvidas

Texto / Lucas Veloso | Edição / Pedro Borges | Imagem / Arquivo pessoal

No último sábado (3), o atacante Malcom, ex-Barcelona, estreou no Zenit, em jogo contra com o Krasnodar, pelo Campeonato Russo. No estádio, além do jogador, estava uma faixa, onde se lia ironicamente “Obrigado à direção por se manter leal às nossas tradições”.

A mensagem foi uma alusão ao fato do clube não ter hábito de contratar atletas negros. Segundo jornal francês "L'Equipe", foram os ultras - como são chamados os torcedores europeus fanáticos - do Zenit, responsáveis por estenderam a faixa em forma de protesto pela contratação do jogador.

Para o idealizador e diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, Marcelo Carvalho, o tratamento recebido por Malcom era previsto, já que a torcida do Zenit é conhecida por sua postura de não aceitar atletas negros.

“Temos muitos casos de racismo na Rússia e no leste europeu, mas com nota oficial dos torcedores nem tanto”, observa Carvalho.

O especialista se refere ao pronunciamento oficial, assinado por várias torcidas do clube. No texto, elencam critérios para contratações do clube, sendo que um deles é o de não aceitar jogadores negros ou de “minorias sexuais”.

“Agora, os jogadores negros de futebol estão sendo impostos quase pela força ao Zenit. E isso causa apenas uma reação adversa. Deixe-nos ser o que somos”, escreveram em determinado trecho.

A intenção deles foi deixar clara a "tradição" do clube em não contratar jogadores negros em seu elenco, prática que faz o time ser conhecido internacionalmente.

Segundo a “RIA Novosti”, agência de notícias russa, o clube considera rever a contratação, que custou por 40 milhões de euros, por conta das manifestações racistas sofridas por Malcom.

Por outro lado, o Zenit se manifestou em comunicado oficial com o argumento de que não compactua com atitudes racistas e colabora com iniciativas antirracistas.

“O Zenit tem uma longa tradição de convidar os melhores jogadores de todo o mundo para o clube, independentemente do seu passado, etnia ou nacionalidade. Há muito que o clube apoia e instiga iniciativas anti-racistas, inclusivas e de igualdade e continuará a fazê-lo agora e no futuro”, destacou o clube.

No texto, o clube ainda critica as notícias da mídia na cobertura do fato. O clube diz que veículos de mídia e times de futebol denunciaram de maneira equivocada o acontecido.

“Esperamos que o avanço dessas organizações possa verificar completamente os fatos antes de fazer quaisquer declarações depreciativas ou acusações”, critica o Zenit.

“A nota emitida pelo clube foi algo protocolar, muito comum quando os clubes são acusados de racismo. Ela sequer condenou a nota emitida pelos torcedores”, pontua Carvalho. “Há muitos casos durante as competições”, completa.

Ainda, de acordo com o especialista, a questão do racismo no esporte é algo comum, tanto na Rússia quanto no Brasil, por mais que os representantes digam o contrário.

“As autoridades teimam em afirmar que os casos são esporádicos, mas não são. Por exemplo, no Brasil até o presente momento, temos mais de 29 denúncias de incidentes racistas divulgados pela mídia esportiva neste ano”, defende.

Sobre o fato de vender Malcom, o clube negou. Em sua conta oficial no Twitter, o time rebateu a informação afirmando querer que o atleta "continue por muito tempo".

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com