De acordo com os dados do Atlas da Violência, com base em números da OMS (Organização Mundial da Saúde), países da América Latina, com presença significativa de negros, são os mais violentos do mundo

Texto / Pedro Borges
Imagem / Agência Brasil

Países com grande presença de negros na composição populacional estão entre os mais violentos da América Latina. As nações mais violentas da região são El Salvador, Bahamas, Belize, Colômbia e Brasil, de acordo com números da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre 2013.

Segundo o órgão internacional, as Américas têm as nações mais violentas do mundo, com número de aproximadamente 14 pessoas mortas para cada grupo de 100 mil habitantes, quantia mais de três vezes superior se comparada com com o continente africano, que registra quatro assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes. Esse indicador é sete vezes maior do que os demais continentes, que não chegam ao número de dois assassinatos para cada grupo de 100 mil pessoas.

Vale destacar que os números da OMS são mais precisos e muitos países, inclusive do continente africano, não têm carga precisa de dados para serem contabilizados, o que limita algumas comparações.

Quando os dados se voltam de maneira mais específica para a América Latina, o país com o maior indicador de assassinatos é El Salvador, cuja taxa de homicídio é de 34,4 pessoas para cada grupo de 100 mil habitantes, seguida de Bahamas, com 34,2, Belize, com 33,2, Colômbia, com 31,7, e Brasil, com 28,6.

Lourival Aguiar, doutorando em antropologia pela USP sobre as relações raciais na América Latina e no Caribe, afirma que esses países têm alguns traços em comum, para além da questão cultural, que é a permanência no cotidiano de um passado violento contra a população negra latino-americana.

“Quando pensamos a violência, precisamos pensar que esse países possuem uma marca, que é a da escravização negra, e um dos principais artifícios da escravização foi exatamente a violência”, afirma.

O antropólogo também acredita que a maior vulnerabilidade desses países seja reflexo da continuidade de uma política colonialista, que mantêm essas nações em lugares subalternos no mundo, e a ausência de políticas públicas direcionadas à comunidade negra.

“As políticas públicas para a população negra nesses locais são ineficazes, principalmente porque nós encontramos a população negra entre os marginalizados, entre os com maior dificuldade de acesso ao ensino, piores condições de moradia. É a continuidade de uma lógica colonialista, racista, que se perpetua nas políticas públicas desses países”, explica.

Apesar dos dados serem pouco precisos sobre a participação de negros na composição racial de cada país, Belize, Colômbia, Brasil e Bahamas receberam pessoas sequestradas do continente africano durante o período do escravismo e da dominação europeia.

Os dados de El Salvador, coletados pela CIA, mostram que 86,3% dos cidadãos são considerados mestiços de negros e indígenas com europeus, enquanto 12,7% da população se reivindica branco. O país tem 6,2 milhões de habitantes.

A presença negra nos demais países é de 54% no Brasil; 11% de negros e 49% de mestiços na Colômbia; 31% de crioulos e afro-ameríndios no Belize, que representam 97 mil pessoas; e 85% de afrodescendentes em Bahamas, que totalizam 341 mil pessoas.

Dennis de Oliveira, professor do CELACC-USP (Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação), acompanha de perto a condição social, política e econômica da América Latina, em especial da Colômbia, onde esteve em 2017.

De acordo com o docente, a população negra na Colômbia vive em posição deslocada de maneira forçada por causa da ação das forças armadas do país, de grupos paramilitares e, em alguns casos, em virtude das guerrilhas, que atuavam de maneira mais presente na década de 1990, como as FARC (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas) e o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional).

Deslocadas para as periferias de cidades como Medellín, Cali e Bogotá, Dennis de Oliveira cita os motivos da violência praticada contra os afro-colombianos no país.

“É importante perceber que esta violência contra os afro-colombianos, assim como a diáspora negra na América Latina, decorre de projetos de caráter higienista e de ocupação capitalista do espaço.”

O professor da USP diz que um dos procedimentos utilizados é a contenção populacional por meio da violência.

“Trata-se de uma política de "’contenção’ e ‘restrição’ de movimentos, impedindo que negras e negros saiam literalmente do seu devido lugar, a não ser para realizar trabalhos subalternos, para, a partir disto, estabelecer pleno controle territorial utilizando-o para os interesses do capital. Assim, a violência é uma ação instituída para possibilitar a reprodução do capital, em particular o capital transnacional”, completa.

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