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Criada em outubro de 1966, organização virou referência de luta pelos direitos civis em todo o mundo e de resistência negra contra regimes ditatoriais

Texto: Juca Guimarães | Edição: Nataly Simões | Imagem: Stephen Shames

Entre 1966 e 1982, o Partido dos Panteras Negras Para Auto Defesa foi uma organização negra com viés socialista e forte impacto de intervenção na sociedade. A luta dos Panteras Negras, nos seus 16 anos de existência, foi importante na agenda da política norte-americana de consolidação dos direitos civis para a população negra.

A organização surgiu em Oakland, na Califórnia, em resposta a violência policial contra jovens negros. Os fundadores foram os estudantes Bobby Seale e Huey P. Newton, em 15 de outubro de 1966. Huey tinha 24 anos de idade e Bobby iria completar 30 uma semana depois.

O partido foi inspirado nas ideias, livros e discursos do ativista Malcolm X, assassinado dois anos antes, em fevereiro de 1965. Um dos primeiros lemas do grupo foi “Freedom by any means necessary” (Liberdade a qualquer custo, em tradução livre), para incentivar a integração da comunidade negra.

Os Panteras Negras seguiam uma corrente política socialista e se uniram a grupos anticapitalistas, anti-imperialistas e antirracistas em diversas regiões dos EUA e em outros países como Cuba e França.

A primeira diretriz dos Panteras Negras exigia poder e liberdade para que a comunidade negra pudesse decidir o próprio destino. Seguindo as garantias da segunda emenda da Constituição americana, os membros do partido apoiaram o porte de armas de fogo para a autodefesa.

Reflexo no Brasil

Na década de 1970, os Panteras serviram de exemplo para movimentos de luta contra ditaduras e pela valorização da cultura negra em vários países, inclusive no Brasil, como lembra o escritor Oswaldo Faustino.

“As informações que chegavam eram truncadas e clandestinas. Mas sabíamos que jovens parecidos conosco enfrentavam um sistema opressivo nos EUA com muita coragem, a ponto de fundar um partido político dando de ombros às perseguições do FBI e desprezando o espírito conciliador de outras tendências do movimento de luta pelos direitos civis”, conta.

A atuação dos Panteras Negras foi muito além da resistência armada contra o racismo. Eles criaram programas de suporte a comunidade com café da manhã gratuito, eventos culturais e incentivo aos estudos.

Políticas públicas para questões de moradia, saúde e emprego faziam parte das reivindicações do grupo, que apresentava dez pontos fundamentais para acabar com a opressão contra o povo preto. O partido também tinha um posicionamento contra o machismo e de valorização da mulher negra.

Angela Davis, Fred Hampton, Kathleen Cleaver, Assata Shakur, Elaine Brown, Afeni Shakur (mãe do rapper 2Pac) foram membros dos Panteras Negras, que também tinha jornalistas, escritores, professores, médicos, atores e advogados nas suas fileiras.

“Recebíamos com certo romantismo e muita esperança tudo o vinha a respeito das ações e publicações dos Panteras, que associamos automaticamente ao espírito belicoso de Malcolm X. Não por acaso, Alma no Exílio (Soul on Ice) de Eldridge Cleaver (1935-1998), ministro da Informação dos Panteras, publicado em 1968, se tornou livro de cabeceira de muitos de nós”, comenta Faustino.

Os Panteras Negras se articulavam por meio de encontros, reuniões e jornais que eram vendidos nas cidades. O partido tinha comitês em 30 cidades e mais de 5 mil filiados. O governo americano fez uma intensa campanha de perseguição aos membros. Em 1969, a polícia prendeu 21 lideres do partido sob a acusação de terrorismo. O julgamento levou mais de um ano e os integrantes foram absolvidos.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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