Mesmo associados à criminalidade, negros estão fora dos principais casos de corrupção no país. Para pesquisadores e ativistas, enegrecer a política é necessário, mas não resolve o problema da corrupção

Texto / Pedro Borges
Imagem / Campagnato / Agência Brasil

O noticiário brasileiro tem sido tomado pelo tema da corrupção há anos. Alguns casos, de grandes proporções como o Mensalão e a operação Lava Jato, repercutiram inclusive a nível internacional.

Mais recentes, outros casos também têm tomado espaço na opinião pública. Um deles se refere ao futuro ministro da Casa Civil, o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), quem admitiu ter recebido R$ 100 mil de caixa dois da JBS.

O outro trata-se do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), cujo motorista movimentou R$ 1,2 milhão em sua conta bancária durante um ano e depositou cheque de 24 mil reais para a esposa do presidente eleito, Michele Bolsonaro.

Entre as muitas semelhanças e as inúmeras diferenças entre os vários casos de corrupção, algo chama atenção: a ausência de negros.

Negritude, branquitude e criminalidade

Mesmo com notícias em série, a corrupção e um possível desvio de caráter não fazem parte do imaginário sobre o sujeito branco no país. Para Valéria Alves, doutora em Antropologia pela USP, pessoas brancas sempre foram postas como modelos de padrão de beleza, inteligência e conduta moral, fatores que permitem outra abordagem e avaliação social quando cometem um erro.

“Quando falha ou comete um crime, este é visto como algo individual e geralmente é amenizado. A população branca construiu e carrega o estigma da brancura, da pureza e do bom caratismo”, enfatiza.

Para o negro, cabe o oposto, diz a pesquisadora. Ela recorda as teorias eugenistas de Césare Lombroso e Nina Rodrigues, que descrevem o sujeito negro como propenso ao crime.

“Quando um membro da população negra comete um crime ou uma falha grave, automaticamente esse erro é posto como algo inerente a esse grupo. Quando um erra, no geral, é a população negra que erra”, explica.

Apesar dos diferentes juízos de valor, outra constatação é importante para entender a ausência de negros em casos de corrupção: a falta de negros na política.

No estado de São Paulo, por exemplo, dos 94 parlamentares eleitos para a Assembleia Legislativa para iniciar o mandato em 2019, apenas dez são negros.

Juninho Junior, presidente estadual do PSOL e integrante do Círculo Palmarino, diz que a ausência de políticos negros em cargos públicos é um reflexo das desigualdades históricas brasileiras e que os poderes executivo e legislativo representam as elites do país.

“Você tem um parlamento que é formato em 80% por homens brancos, representantes das elites, seja do agronegócio, do setor financeiro, da indústria ou de qualquer outro segmento. Os demais grupos - mulheres, negros, indígenas, trabalhadoras, trabalhadores - são sub-representados nesses espaços”, diz.

Para resolver o problema, é só enegrecer a política?

Para a cientista social Jaqueline Conceição, não. Apesar do Estado defender os interesses da branquitude, ela pensa que a corrupção faz parte do atual modelo político ocidental inserido em uma sociedade capitalista.

“O Estado, balcão de negócios da burguesia, sempre negociará com muito mais tranquilidade com esse grupo social [branco]. Os negros que lá chegarem terão que negociar com a burguesia em virtude do modelo de organização política que temos”, explica Conceição.

Um dos exemplos citados por ela é o caso de Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo. “Um homem negro, casado com uma mulher negra e pai de filhos negros é um dos maiores corruptos que se tem conhecimento na história da cidade de São Paulo”, afirma.

Pitta acumulou alguns casos de corrupção ao longo da sua vida. Os dois principais são os escândalos dos precatórios e a operação Satiagraha.

Na época em que foi condenado e julgado, foi também vítima de perseguições racistas, como disse o próprio ex-prefeito e ativistas do movimento negro daquele período.

“Por ser da comunidade negra, reaviva-se o sentimento que é esquecido, escamoteado e sempre deixado em segundo plano, que é a discriminação neste país'', disse o prefeito à época.

Manifestações foram feitas naquele período em repúdio aos ataques racistas sofridos pelo ex-prefeito, inclusive com a presença de militantes do movimento negro.

Quem perde com a corrupção?

O desvio de dinheiro público ou o não pagamento de tributos para o Estado impactam na qualidade dos serviços no país nas mais diversas áreas.

Em 2014, o governo de São Paulo fechou uma parceria público-privada (PPP) para a construção de três hospitais com 646 leitos e mil atendimentos ambulatoriais por dia, cujo orçamento era de R$ 772 milhões. Ou seja, o valor aproximado de um hospital, de acordo com os números do governo paulista, é de R$ 257 milhões.

A operação Lava Jato, processo que investiga crimes de corrupção há aproximadamente 4 anos, diz já ter recuperado 13,4 bilhões de reais, o equivalente a 52 hospitais.

Os impactos de uma saúde pouco estruturada caem de maneira desigual sobre a comunidade negra, quem mais utiliza o Sistema Único de Saúde (SUS). Dados oficiais mostram que quase 80% dos usuários da saúde pública no país são pretos ou pardos.

Negros também estão mais vulneráveis aos problemas na área. O Ministério da Saúde apresentou que, em 2016, 58% das mortes causadas por AIDS atingiram pessoas negras, enquanto esse número chegou a 40% entre os brancos. A disparidade se repete entre as mulheres, na medida em que 59% das mulheres diagnosticadas com sífilis eram negras, enquanto esse dado caia para 30% entre as brancas.

Vale recordar que a corrupção não se restringe ao mundo político, como aponta o estudo da Tax Justice Network, que descreve como em 2010 os brasileiros mais ricos tinham quantia depositada em paraísos fiscais da ordem dos US$ 520 bilhões, o equivalente a mais de R$ 1 trilhão. O valor equivale à construção de 3.891 hospitais.

 

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