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Primeira mulher negra eleita deputada estadual da Bahia, pelo PCdoB, busca agora o maior cargo do poder executivo da capital

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Amanda Oliveira/Divulgação

Olívia Santana foi a primeira mulher negra eleita deputada estadual da Bahia, em 2018, pelo PCdoB. Agora, pelo mesmo partido, tenta ser a primeira pessoa negra a se eleger prefeita de Salvador. A candidata se apresenta como uma mulher nascida e criada na capital baiana, onde mais de 80% da população se declara negra, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Na disputa pelo governo municipal também está outra mulher negra, a Major Denice, candidata pelo PT.

Na infância, Olívia morou em uma ocupação no bairro de Ondina até a família ser despejada. “O prefeito de Salvador era o avô do atual prefeito. Ele jogou a gente em um terreno sem casa, sem luz, sem nada. Deu prazo para desocupar o terreno em 24 horas. Minha mãe, minha irmã e eu vivemos os piores dramas da vida”, recorda.

Na adolescência, Olívia começou a atuar em trabalhos sociais, comunitários e filantrópicos. Foi presidente do diretório acadêmico de pedagogia, do diretório central de estudantes e ainda no período da universidade ingressou no PCdoB.

A candidata diz se sentir preparada para ocupar o cargo de prefeita por carregar uma trajetória de militância nos movimentos sociais, além de experiência legislativa como vereadora por 10 anos. “Conheço bem toda a relação com a Câmara. Fui secretária de Educação de Salvador e deixei marca positiva”, afirma.

Em sua trajetória política, Olívia conta ter sido responsável pela informatização do sistema municipal de matrícula, que evitou que pessoas dormissem na porta das escolas para conseguir vaga para os filhos. Ela também chama para si a criação da Ronda Maria da Penha, quando foi secretária de políticas para mulheres em parceria com a Secretaria Estadual de Segurança Pública.

Caso seja eleita, à frente da Prefeitura de Salvador, ela diz que o primeiro desafio será “arrumar a casa” por meio de um plano emergencial de retomada do desenvolvimento econômico da cidade, com implantação de um grande programa de microcrédito, chamado Cred Salvador, que vai injetar dinheiro nos microempreendimentos. A candidata também afirma que pretende investir na qualificação de mão de obra para aumentar as condições de empregabilidade, além de incentivar que cerca de 450 mil pessoas sem ensino fundamental completo voltem às aulas.

Segundo Olívia, o ensino para jovens e adultos (EJA) deve ser também profissionalizante. Ela diz que a educação infantil terá como prioridade 15 creches regionalizadas em regiões que hoje não são assistidas como bairros do Subúrbio Ferroviário e Cajazeiras. Olívia cita ainda um programa de urbanização de favelas. “Hoje 33% da população negra vive em moradias subnormais, sem saneamento básico. Vivi em favela boa parte da vida, sei o perrengue que as pessoas passam. Não aguento mais ver pessoas negras soterradas em época de chuva. Isso nunca foi prioridade dos sucessivos gestores”, ressalta.

Segurança pública

A chapa de Olívia é composta por Joca Soares (PP) e representa uma dissidência do PCdoB com o PT, do governador Rui Costa, de quem Olívia foi secretária de Política para as Mulheres e do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, e também candidata à vice-prefeita na chapa de João Pelegrino (PT), em 2012.

O governo de Costa é alvo de críticas do movimento negro especialmente pela alta letalidade policial no estado e a falta de transparência na divulgação de dados sobre segurança pública. A Bahia é o segundo estado que mais registrou mortes em operações policiais entre junho de 2019 e maio de 2020, de acordo com uma pesquisa realizada pela Rede de Observatórios da Segurança, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com base em casos noticiados pela imprensa. No período foram contabilizados 984 mortos, o que corresponde a ao menos um óbito em uma de cada sete operações monitoradas.

A candidata diz que a situação de violência exige da gestão municipal iniciativas de auxílio às comunidades para melhoria da segurança local. Segundo Olívia, o município deve empreender ações transversais e interdisciplinares em segurança pública que auxiliem a sociedade diante da pressão da violência urbana para permitir a interação e mobilidade das pessoas, bem como a atuação de órgãos municipais.

“O fomento à construção de uma segurança pública municipal, além de inovador, permite evitar omissões e implementar estratégias inteligentes para coibir vulnerabilidades de segurança pública e social. Deve incluir ações preventivas a partir de um olhar multidisciplinar, estabelecer aos agentes municipais um modelo de trabalho que se paute no respeito à igualdade e na postura garantidora, além de dar continuidade às sinergias e cooperação existentes com os entes estaduais e federais, que também são fundamentais para a prevenção da criminalidade em Salvador”, diz a candidata, em seu plano de governo.

‘Império carlista’

Segundo pesquisa Ibope divulgada pela TV Bahia, em 30 de otubro, Bruno Reis (DEM) tem 61% das intenções de voto em Salvador, seguido por Major Denice (PT), com 13%, e Olívia Santana, com 7%.

Para vencer a eleição, a candidata do PCdoB diz que precisa vencer o “império carlista” representado pelo atual vice-prefeito Reis, que tenta suceder seu padrinho político, Antônio Carlos Magalhães Neto. ACM Neto deixa a prefeitura da capital baiana após dois mandatos e deve concorrer ao governo do estado, em 2022.

Segundo Olívia, o grupo que pretende eleger o candidato do Democratas sempre esteve no poder. “Tenho uma diferença não apenas por ser negra, numa cidade de 471 anos que nunca elegeu uma pessoa negra. Penso a base da estrutura da cidade. Enfrentar a desigualdade social econômica e o racismo estrutural faz parte da minha formação política. Estou militando diuturnamente para que as pessoas se reconheçam em mim, girando a roda da história”, pontua.

Apoio do movimento negro

A candidata classifica a eleição como “dura e desafiadora”, uma vez que enfrenta o que chama de “império com grande estrutura financeira e conglomerados de comunicação na mão desde a escravidão”. Olívia ressalta que as pessoas negras sempre concorreram defendendo sonhos em situação de desigualdade. “Isso não me intimida, me encoraja a levantar da cama e saber qual é minha missão, que é lutar para ganhar essa eleição. É possível acreditar e mudar a história”, salienta.

Olívia cobra ainda que os movimentos antirracistas apoiem mulheres negras na disputa pelo governo de Salvador. “O empoderamento negro não pode ser apenas uma hashtag nas redes sociais, as pessoas que tem influência online precisam emprestar o seu poder para essas candidaturas. O Brasil ainda não criou atuação coletiva frente a responsabilização de candidaturas negras. Não dá pra falar de empoderamento e deixar a gente sozinha”, pondera.

A candidata lembra ainda da participação de outras intelectuais negras em eleições históricas como Antonieta de Barros, Lélia González e Benedita da Silva. Esta última, deputada federal e candidata à prefeita no Rio de Janeiro pelo PT. “Vamos derrubando muros e caminhando. Alterar condições e desenho de poder. O espaço político precisa da participação de homens e mulheres negras”, acredita.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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