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Texto: João Victor Belline / Foto: Wikimapa / Edição de imagem: Vinicius Martins

Na estreia da série de textos de atletas negros e negras que marcaram os esportes olímpicos,
a história da ala do basquete, Janeth Arcain

“Democratizar o acesso ao esporte de qualidade, preconizando a prática esportiva baseada nos valores, de forma a promover o basquetebol como fator de desenvolvimento global dos alunos e utilizando-o como ferramenta transformadora da sociedade e exercício da cidadania”. Essa citação, vinda da página de seu Instituto, sintetiza o trabalho exercido por uma das maiores atletas que já representaram o Brasil através do esporte. A maior detentora de títulos no basquetebol brasileiro, a primeira a jogar na liga americana, vencendo-a quatro vezes consecutivas. Esses ainda são poucos predicados para mensurar o tamanho dessa mulher. Chegou a hora de conhecer um pouco de Janeth Arcain.

No ano de 1983, começa uma linda história de amor entre uma menina de infância simples e uma bola alaranjada com listras pretas. Com então catorze anos, Janeth foi levada pela professora de educação física à Catanduva, onde ela começou sua carreira no Clube Atlético Higienópolis. A menina, nascida no dia 11 de abril de 1969, registrada em Carapicuíba, precisou de apenas três meses no time para conquistar o seu primeiro título: campeã estadual na categoria mirim, sendo a melhor jogadora da competição.

A garota do bairro do Bom Retiro, e que sempre amou participar das aulas de educação física, começava a trilhar o seu vitorioso caminho. As primeiras cestas com a Seleção Brasileira vieram mesmo antes da profissionalização, na categoria juvenil. Em 1986, apenas três anos após começar a jogar, Janeth já se tornava campeã sul-americana juvenil, em campeonato disputado na Colômbia. Apesar da pouca idade, ela também começou a figurar na seleção principal no ano de 1987. Tanto é que naquele ano, Janeth conquistou um vice campeonato continental na Argentina, pela equipe juvenil, e a medalha de prata nos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, no time adulto. Alguns anos depois, em 1991, a medalha de ouro viria no Pan-americano de Havana.

Entre os clubes brasileiros, ela atuou por BCN (SP), Jundiaí (SP), Constecca Sedox (SP), Sorocaba (SP), Santo André (SP), Vasco da Gama (RJ), São Paulo (SP) e Ourinhos (SP), conquistando 27 títulos entre os anos de 1986 e 2004, entre Jogos Abertos do Interior, Jogos Regionais, Campeonato Paulista, Estadual do Rio, Taça Brasil, Campeonato Nacional e Campeonato Sul-americano de clubes. Apesar da infinidade de glórias com agremiações nacionais, os maiores feitos da atleta paulista foram com a camisa do Brasil e na liga americana, a WNBA (Women’s National Basketball Association).

No ano de 1994, Janeth ajudou a compor o mais notável trio que a Seleção Brasileira de Basquete já viu. Ao lado de Paula e Hortência, ela conquistou um dos seus dois maiores títulos da carreira, palavras da mesma: o Título Mundial de Seleções, na Austrália. Dois anos depois, nos Jogos Olímpicos de 1996, o trio fez história mais uma vez e conquistou a medalha de prata, em Atlanta, perdendo para a equipe americana nas finais. A competição marcou a despedida de Hortência das quadras e deu início à história de Janeth em solo estadunidense. No ano seguinte, a brasileira foi contratada pelo Houston Comets para atuar no mais competitivo campeonato feminino de basquete, a WNBA.

Durante os sete primeiros anos no Houston, Janeth mostrou toda sua regularidade e comprometimento. Ela atuou em todas as partidas da equipe entre 1997 e 2003, algo notável no esporte de alto rendimento. Mas a brasileira fez algo ainda mais incrível: conquistou o tetracampeonato da liga e, junto ao Houston Comets, estabeleceu a primeira dinastia da WNBA. Segundo a própria Janeth, o tetra representa um dos seus dois mais importantes títulos da carreira. Somando os números da primeira com os da segunda passagem, no ano de 2005, Arcain – já que nos Estados Unidos existe o hábito do uso do sobrenome no uniforme – teve média de 10,4 pontos e 30,1 minutos por partida, fazendo história com a camisa nove.

Após os quatros títulos consecutivos pelo Houston, ela voltou a fazer história com a camisa verde e amarela. Após Hortência e Paula terem se aposentado da Seleção Brasileira, Janeth tornou-se a referência da equipe. Ela virou a capitã em 1998 e passou a ser a jogadora mais importante do selecionado brasileiro. E não decepcionou. Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, liderou a Seleção que garantiu a medalha de bronze para o Brasil e ainda foi a cestinha, jogadora que mais anotou pontos.

Dois anos depois, em 2002, no dia 5 de fevereiro, a camisa nove fazia uma das suas maiores cestas. Dessa vez, fora de quadra. Fundou o Instituto Janeth Arcain, que atende jovens e ajuda no desenvolvimento físico e mental através da prática esportiva. Hoje, o Instituo atua em cinco cidades, Atibaia (SP), Bragança Paulista (SP), Cubatão (SP), Santo André (SP), onde fica a sede, e João pessoa (PB).

Após 24 anos de carreira, em 2007, Janeth teve o seu último ato como jogadora de basquete. Ela levou o Brasil a conquistar a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos realizados no Rio de Janeiro. Ela se despediu da Seleção Brasileira como a terceira maior cestinha, tendo participado de 138 jogos oficiais e anotado 2247 pontos. Mas a sua relação com o basquete não acabou ali. Além de ajudar crianças através do basquete, ela foi contratada em 2009 para ser assistente da Seleção Brasileira e também comandar as categorias de base.

Em 2015, ela entrou para o Hall da Fama e se tornou a terceira brasileira a arquivar o feito. Antes dela, Hortência e Paula haviam recebido a homenagem em 2006. Janeth foi um exemplo e demonstra exatamente o comprometimento que o esporte exige. Como a mesma declara, “para vencer é preciso muita seriedade, dedicação e amor”. Sem dúvidas, Janeth é tudo isso. E mais um pouco.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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