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Conquista da sul-africana Zozibini Tunzi movimentou as redes sociais e o debate sobre representatividade entre a comunidade negra brasileira; Alma Preta ouviu duas modelos negras sobre o resultado do concurso

Texto / Pedro Borges | Edição / Simone Freire | Imagem / Alex Mertz/Miss Universe Organization

A vitória da sul-africana Zozibini Tunzi na disputa da 68° do Miss Universo movimentou o debate sobre representatividade e autoestima, sobretudo de mulheres negras, nas redes sociais.

Após a vitória no torneio realizado em Atlanta (EUA), na noite de domingo (8), Zozibini Tunzi criticou os padrões de beleza na sociedade e apontou para a importância da conquista para a autoestima da comunidade negra.

"Eu cresci em um mundo em que uma mulher com a minha pele, a minha aparência e o meu cabelo não era considerada bonita. Isso acaba hoje! Quero que as crianças enxerguem o reflexo dos seus rostos no meu", diz.

Suellen Massena tem uma família constituída por modelos e trabalha para a Hutu, uma agência de casting exclusivo para negros. Em entrevista ao Alma Preta, ela destacou a conquista de Tunzi.

“Eu fiquei muito feliz, muito contente. Eu não consigo colocar dimensão nisso. Ela está ecoando a nossa voz dizendo para muitos outros que não conseguem ter pessoas próximas, conscientes, que nós também somos bonitos, inteligentes e também podemos alcançar lugares de destaque, não somente o espaço que pessoas brancas determinam que a gente ocupe. A gente consegue chegar muito além e tem potencial para isso”, diz.

Zozibini Tunzi é a primeira negra a vencer o concurso desde 2011, quando a angolana Leila Lopes faturou o trunfo. A sul-africana superou outras 89 concorrentes e viu as companheiras de profissão Madison Anderson, de Porto Rico, e Sofía Aragón, do México, ficaram em segundo e terceiro lugar respectivamente.

Questionamentos

Daniela Izabel, modelo da agência Silvia, produtora com casting de modelos de periferia, e graduanda em Ciências Sociais, questiona a existência de concursos como o de Miss Universo.

“O que eu penso sobre esse assunto é uma crítica acerca do porquê e para quê um concurso de beleza em pleno 2019. [É] virada de década e a gente ainda se preocupando em julgar ou trazer algum conceito de beleza específica”, critica.

Os julgamentos existentes durante um concurso de beleza e a seletividade racial existentes no Brasil afastaram a modelo Suellen de competições como essa durante a vida.

“Eu nunca fui ligada a concursos de beleza, sempre detestei por motivos óbvios. A minha beleza nunca foi um padrão. Eu nunca era considerada bonita. Pessoas com os mesmos traços que os meus nunca eram consideradas bonitas, com o mesmo tom de pele, tipo de cabelo… Esse não era o padrão de beleza”, relembra.

Apesar das críticas a competições como essas, as duas modelos reconhecem a importância da vitória de Zozibini Tunzi no Miss Universo.

“Mais importante do que essa representatividade que ela traz, é o que ela tem, o que ela é de fato. É uma mulher negra, retinta, e tem o seu cabelo crespo em um corte baixo, com traços expressivos, que é sul-africana. Ela traz muita informação consigo, e, quando ganha, ela ainda ganha colocando todo um discurso político em jogo, falando sobre racismo, sobre todas as mulheres negras da vida dela, que não se veem”, afirma Daniela Izabel.

Suellen prefere destacar a importância que uma conquista como essa pode ter para o fortalecimento da autoestima do povo negro. Para ela, esse é um fator fundamental para alterar as dinâmicas sociais.

“Se a gente tem consciência do que a gente é, ninguém vai dizer o que a gente é ou não é. Eu acredito que o movimento tem acontecido de uma outra perspectiva, a gente tem feito o trabalho de casa, [tem] voltado a nossa descoberta, estamos voltados para nós cada vez mais e estamos ensinando aos nossos que estão próximos a também se voltarem para si. A gente vem empoderando os nossos para preencherem esses lugares que também são nossos”, diz.

Daniela, contudo, ressalva as limitações da conquista e acredita que outras exigências e atenções são necessárias.

“As estruturas a gente sabe que ainda precisam ser muito balançadas. A gente sabe que não é só a cara que estampa que tem que ser preta. A gente sabe que dentro de qualquer estrutura, na parte off, precisam ter pessoas pretas fazendo”, pondera.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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