A cobertura jornalística e as pesquisas de opinião dificultam a construção de uma cultura política racial na medida em que omitem ou pouco destaque dão ao que pensa a população negra sobre o cenário nacional

Texto/Pedro Borges

Imagem/Fotos Públicas

As pesquisas de intenção de voto ganham peso e são cada vez mais aguardadas conforme se aproxima o dia das eleições de 2018, datada para 7 de outubro, quando o País decidirá seus representantes do Executivo e Legislativo.

Diante dos resultados, políticos pautam as estratégias que adotarão diante de seus adversários e as equipes de comunicação das campanhas desenvolvem os planos de ação dos postulantes a um cargo político no país. O crescimento de Paulo Skaf (MDB) na corrida para o governo do estado em São Paulo fez a campanha de João Dória (PSDB) adotar um discurso mais agressivo e crítico ao presidente da FIESP. Antes, isolado na liderança, Dória dizia fazer uma campanha “propositiva”, sem ataques aos adversários.

Dados específicos, também obtidos pelas pesquisas de opinião, têm também sido cada vez mais importantes para o desenvolvimento dessas táticas eleitorais. Lula (PT), por exemplo, era costumeiramente demarcado como a figura que representa as regiões Norte e Nordeste, e os cidadãos de menor escolaridade e renda.

Nesse contexto, encaixam-se também as divisões por idade, áreas rurais e urbanas e cada vez mais, mesmo que ainda de maneira tímida, dados segmentados por gênero. O jornalismo nacional, porém, segue a dar pouco destaque para o fator raça, mesmo os afrodescendentes representando 54% da população nacional.

Durante a cobertura jornalística da corrida presidencial, governamental e mesmo legislativa, foram poucas as pesquisas e mesmo as manchetes de grandes portais que dessem ênfase para as intenções de voto da população negra.

No fim de 2017, o Painel Bap desenvolveu uma pesquisa sobre o que pensavam pretos e pardos acerca do período eleitoral do país. Mesmo que os números não sejam atuais, há uma nítida constatação de que o eleitorado negro tem um posicionamento diferente daquilo que é colocado como geral.

Os números apontavam, por um lado, uma alta rejeição a candidaturas como a de Jair Bolsonaro (PSL) e Geraldo Alckmin (PSDB), e por outro, uma inclinação para os nomes de Lula (PT), hoje representado por Fernando Haddad (PT), e também do ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, que naquele momento ventilava a possibilidade de concorrer pelo PSB.

Essas são informações que não vem à tona ou vem com pouco destaque nas páginas da mídia tradicional, detentora de parte significativa dos institutos de pesquisa. Pela cobertura apresentada, fica a impressão de que raça não é um elemento que estrutura a sociedade e, portanto, pode alterar a perspectiva de visualizar a realidade em países como o Brasil.

Construir uma cultura política que carregue consigo o fator racial parece algo preocupante para as elites brasileiras. Entender a negritude como um determinante político é construir mais um grupo, e com peso demográfico gigantesco, para rivalizar o sistema vigente.

No dia 29 de setembro, por exemplo, uma manifestação organizada por mulheres deve reunir centenas de milhares de pessoas para se posicionarem contra a possibilidade de Jair Bolsonaro ser eleito presidente no Brasil. Mais articulada e divulgada, a pauta da negritude poderia mobilizar outra manifestação, de igual peso e força, em defesa da democracia e contra o avanço do fascismo e neoliberalismo.

A construção do determinante gênero como fator político é resultado de uma amarração histórica do movimento feminista. A repercussão da pauta e das afinidades políticas das mulheres na mídia também contribuiu para a construção dessa identidade como combustível de enfrentamento.

No Brasil, mesmo que Bolsonaro insulte quilombolas, se posicione de maneira contrária às cotas e tenha colocações ofensivas para a comunidade negra, o determinante racial não aparece como pauta central nas pesquisas patrocinadas pela grande mídia.

A principal justificativa para isso está imbricada na existência do mito da democracia racial, ainda muito forte, apesar de abalado pelos golpes dados pelo movimento negro há mais de 100 anos.

No Brasil, o que ouvimos é que a questão não é de raça, mas sim de classe. A pobreza, dizem os especialistas do senso comum, atinge a todos de maneira igual, brancos e negros. Diz-se isso mesmo diante de números que apresentam a discrepância existente entre esses grupos raciais em todas as esferas do cotidiano.

Desde a Revolução Haitiana (1791), quando os africanos escravizados mataram seus senhores europeus, há um medo nas elites brasileiras, majoritariamente brancas, de que a população negra assuma seu papel de maioria e exija reparação histórica.

A superação das desigualdades sociais e mesmo a formulação de uma política que promova o crescimento do país, o que passa obrigatoriamente pela inclusão do maior segmento social brasileiro, o negro, no debate nacional, depende do entendimento de que raça é também categoria política.

Mesmo que apresentar propostas de candidaturas negras e do movimento negro organizado vá de encontro com a linha editorial dos grandes veículos, é necessário que o jornalismo respeite seu compromisso como a objetividade e não desconsidere a opinião de 54% da população brasileira, como aponta o IBGE.

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