Vencedor do prêmio Jabuti na categoria Literatura com a obra “Angola Janga: uma história de Palmares”, Marcelo D’Salete participou de debate sobre “Revoluções Invisíveis” com Ana Maria Gonçalves, autora do livro “Um defeito de cor”

Texto / Pedro Borges
Imagem / Francisco Costa

O quadrinista Marcelo D’Salete, autor da obra “Angola Janga: uma história de Palmares”, e a escritora Ana Maria Gonçalves, responsável pelo título “Um defeito de cor” participaram do debate “Revoluções invisíveis”, na 7° edição da Festa Literária das Periferias (FLUP), na Biblioteca Parque Estadual, Rio de Janeiro.

O interesse sobre histórias passadas, com personagens míticos da comunidade negra, como o Quilombo dos Palmares e a Revolta dos Malês têm despertado o interesse do público, no momento em que o Brasil vê aflorar a discussão sobre raça e racismo na sociedade.

A obra de Marcelo D’Salete trata sobre Palmares e suas grandes lideranças, como Zumbi e Dandara. Resultado de uma pesquisa de anos, Marcelo D’Salete foi um dos autores a receber o prêmio Jabuti na categoria Literatura no dia 8 de Novembro, a principal conquista para um escritor nacional. Em julho de 2018, o escritor também recebeu o prêmio Eisner Awards com o livro de HQ “Cumbe”, principal homenagem no mundo na categoria.

“Trazer esse tipo de história para as HQs é uma forma de tornar essa narrativa mais acessível. Infelizmente ainda hoje, quando a gente fala da participação negra na história do Brasil, a versão não está de fato bem colocada, seja nos livros didáticos, seja na educação de uma forma acessível”.

Ele acredita no potencial das histórias em quadrinho, como uma ferramenta de contato e diálogo com adolescentes, jovens e adultos. O autor tentou inclusive fazer o exercício de pensar nos anseios e desejos dos personagens, algo que relatos históricos não demonstram, para melhor desenvolver o enredo.

“O quadrinho é um formato com um potencial incrível, porque lida com imagem, texto. Não por ser algo mais simples e fácil do que o livro de prosa, texto, mas por ser uma outra forma para acessar a narrativa e ter experiências interessantes e complexas de leitura. Hoje os quadrinhos assumem um papel importante tanto para o público de crianças, quanto para jovens e adultos”.

Ana Maria Gonçalves optou por contar a história de Luiza Mahin e a Revolta dos Malês, um dos principais levantes e atos de resistência durante o regime escravista. A obra foi construída a partir do relato de Luiz Gama sobre os feitos e as lutas da mãe, Luiza Mahin.

Ela ainda acredita que a história brasileira sobre o fim da abolição esteja associada à suposta bondade da princesa Isabel.

Para romper com essa versão oficial, Ana Maria Gonçalves acredita que as artes têm um grande potencial por dialogar com outros públicos.

“As artes em geral facilitam o entendimento de determinados temas que a ciência dura pode afastar. É extremamente importante que isso aconteça, que a gente traga essas referências”.

Ana Maria acredita ser fundamental construir novas narrativas sobre a história brasileira e as rebeliões escravas por meio de todas linguagens possíveis. Para ela, o que não é solucionado, volta a ser colocado em questão.

“A gente tem essa ideia de tempo horizontal, que é uma ideia ocidental. Se você for pensar nas culturas africanas, por exemplo, o tempo é cíclico, tudo é roda, vai e volta. Eu acho importante a gente pensar na história como algo assim também. Precisamos nos preparar para a volta do que nós não lidamos bem”.

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