Com a baixa presença de jovens afrodescendentes no ensino superior e os desafios socioculturais encontrados em serviços básicos, meninos negros veem o esporte como uma chance de ter um futuro melhor. Quais são as razões e qual é o panorama dentro desse cenário?

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / AFP / Getty Images

Apesar da expectativa gerada durante a campanha da seleção brasileira, muito por causa do oba-oba gerado sobre o time comandado por Tite e os poucos momentos de brilhantismo que os atletas mostraram em campo, o hexa não veio - a Copa do Mundo ficou com os negros maravilhosos franceses. Ainda assim, o Brasil continua a ser o país do futebol - a começar pelo fato de ser pentacampeão mundial.

Outro ponto relativo à seleção brasileira diz respeito à composição étnica: ao levar-se em conta a percepção visual sobre cada um dos jogadores, 14 dos 23 atletas eram negros. E se boa parte tinha posição de destaque, esse não é o mesmo caso se considerarmos a desigualdade sociorracial no Brasil.

Para início de conversa, deve-se levar em conta que cerca de 54% da população é negra de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Todavia, equidade não é o artigo mais abundante quando se fala em igualdade socioeconômica e cultural.

De acordo com o Atlas da Violência 2018, 76,2% das vítimas fatais em eventos violentos eram compostas por jovens negros. Ainda, segundo dados divulgados em 2017 pelo IBGE, 9,9% da população afro-brasileira é analfabeta, ao passo que esse indicador abrange 4,2% da população branca – a média nacional é de analfabetismo presente em 7,2% da população. Em contrapartida, segundo outra pesquisa do mesmo instituto, 12,8% dos jovens negros estão na universidade – para efeito de comparação, 26,5% de jovens brancos estão no ensino superior.

Estes dados mostram que as chances de um jovem negro evoluir socioeconomicamente são significativamente menores se comparadas com as de pessoas brancas – isso quando há possibilidade para tal, inclusive.

Deste modo, não é absurdo pensar que o esporte, em particular o futebol, é considerado, sim, como um signo de ascensão social.

“Temos na atividade esportiva em geral, sobretudo na de alto rendimento, um caminho que não é o melhor, mas é um caminho – para se superar uma situação muito difícil na sociedade, que é o genocídio de jovens e adolescentes negros, sobretudo em situação subalterna e na periferia”, explica Flávio de Campos, professor do departamento de história da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador científico do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas), da mesma instituição.

Olhar racista

Para Flávio, o olhar social sobre o jovem negro o influencia a ver o esporte como um caminho para superar as adversidades sociais. “O corpo do jovem negro está associado à inferiorização do ponto de vista social e é criminalizado. O outro olhar, que parte também pelo estereótipo, é o de possibilidade de atuação no esporte, pois esse corpo é visto como robusto, forte, talhado e apto para a prática esportiva, sobretudo em alto rendimento.”

Todavia, ainda há um ponto paradoxal, que abrange a valorização do corpo negro para o trabalho e, pontualmente, para o esporte. Mas não é exatamente qualquer esporte de alto rendimento. “Em determinados esportes, sobretudo o futebol, o olhar social vê com naturalidade a presença de negros. Contudo, a presença deles em modalidades como tênis, esportes náuticos, automobilismo ou até mesmo o vôlei terá fronteira racista e de classe, pois o racismo no Brasil é estrutural e a gente tem [isso] no esporte”, pondera Campos.

De acordo com Carlos Thiengo, doutorando em pedagogia do esporte na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o futebol é visto como símbolo para evoluir socialmente, em especial por jovens negros e/ou periféricos, pela escassez de condições para haver melhorias no estilo de vida.

“Penso que isso ocorre motivado pelo futebol ser um dos poucos meios de mobilidade social em locais onde existe pouco acesso a outras formas de ascensão, ou melhor dizendo, de transformação pessoal e social. Além disso, por se tratar de uma manifestação da cultura corporal, ele pode ser aprendido de forma incidental e prazerosa”, descreve, ao mostrar o lado lúdico do esporte: "não é gostoso brincar com a bola e jogar futebol? Imagine esse prazer também poder ajudar a ‘levar’ as pessoas para lugares ‘tão distantes’. Eu me pergunto: o que seria do mundo se não fosse o futebol?”


Neymar Jr. (Imagem: Getty Images)

Efeito colateral

Pode-se ver, com certa frequência, casos de atletas jovens que parecem não saber lidar com os ganhos financeiros provenientes da prática esportiva, o que induz a uma série de questionamentos relativos à própria vida. Todavia, é importante levar-se em conta que são poucos os que obtêm êxito na vida profissional.

De acordo com relatório divulgado em 2016 pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol), cerca de 82% dos atletas profissionais no país recebiam até R$ 1.000 – 23.238 jogadores no total. Em contrapartida, 35 atletas – ou 0,12% do total – ganhavam entre R$ 100 mil e R$ 500 mil naquele ano.

Além das expectativas elevadas em relação ao esporte, outro efeito colateral relativo ao futebol ser visto como signo de ascensão social está relacionado à autonegação enquanto indivíduo negro: caso o jovem rompesse a barreira social, a autonegação da origem sociorracial era um fator constante.

Outro efeito colateral desta premissa está no consumo desenfreado, seja por meio de aquisição de bens – carros, casas, joias – e estilo de vida desenfreado, o que contrasta até mesmo com a estrutura do esporte. De acordo com Flávio de Campos, é o ensino de conteúdos relativos à cultura afro-brasileira e africana na educação escolar – o que foi garantido por meio da Lei 10.639, o que pode ajudar no aumento da formação de consciência de classe sociorracial e, como consequência, no combate ao racismo.

“É necessário haver tomada de consciência e de formação, pois essas são alternativas para os jogadores não serem meras peças [de engrenagem da estrutura social vigente] e para terem atitude transformadora, assim como para poderem contribuir com êxito e sucesso social e ajudarem [o combate] contra a dominação racista e classista”, pontua o coordenador científico do Ludens.

Carlos Thiengo considera que o futebol é consequência do que a sociedade faz com ele e como o vê.

“Como diz [o professor] Pierre Parlebas*, o esporte não é socializante ou antissocializante: ele é aquilo que fazemos dele. Com o futebol e outros esportes são, em muitas vezes, os únicos meios de esperança da vida, atribuímos a eles papel que está muito além da sua capacidade. O futebol pode ajudar, sim, mas temos de dar o devido espaço e responsabilidade a cada prática social e obrigatoriedade de humanizar a formação esportiva”, completa o doutorando em pedagogia do esporte.

*Nota da redação: Pierre Parlebas, sociólogo, professor de educação física, psicólogo, linguista e matemático, é criador da praxiologia motrix, teoria voltada à melhora na compreensão do cenário da educação física, esportes, jogos e atividades físicas.

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