Taina Aparecida Silva Santos, militante dos movimentos negro e de mulheres negras, e graduanda em história pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, aborda aspectos por trás dos episódios recentes de racismo ocorridos na instituição

Texto / Taina Aparecida Silva Santos
Imagem / Reprodução

O histórico da atuação de coletivos de negras e negros na Universidade Estadual de Campinas é de longa data. Contudo, entre os caminhos e descaminhos que tem tomado a implementação de políticas públicas que visam democratizar aas universidades estatais brasileiras, a presença majoritariamente branca tem sido comprometida, fato que gera incômodo e, infelizmente, mobiliza manifestações de ódio.

Nos últimos cinco anos, foram notáveis as repercussões que o aumento do número de gente negra pode significar em um espaço como a Unicamp. Entre todas elas, o efeito-dominó que perpassou o movimento de aprovação das cotas raciais é um dos mais evidentes.

Em 2015, após exaustivos debates e acirradas disputas, alguns cursos do programa de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, passaram a adotar a política no sistema de ingresso, reservando vagas para estudantes negros e indígenas. Em seguida, a Faculdade de Educação, um dos maiores programas de pós-graduação existentes no Brasil na área, também adotou as cotas raciais, seguida pelo Instituto de Economia que, após muita pressão, reconheceu também a necessidade desse tipo de ação afirmativa para matizar o perfil de estudantes de uma das “melhores universidades da América Latina”.

Em 2017, aconteceu a tão esperada implementação da reserva de vagas para negras, negros e indígenas nos cursos de graduação. Com a consolidação dessa conquista, as narrativas sobre esses processos e embates têm assumido um tom, no mínimo, curioso por parte da administração da universidade que, ao se posicionar da forma como vem se manifestando, omite a responsabilidade da instituição nos últimos fatos ocorridos na Unicamp.

Estes relatos, obviamente, não revelam o tom dos conflitos que vêm ocorrendo nos últimos tempos e que apagam o histórico de posturas que viabilizam a formação de ambiente permissível para grupos e indivíduos agirem como aqueles que proferiram as ameaças com as quais nos deparamos na última quarta-feira (15) em diferentes locais da universidade.

As dependências do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), Instituto de Geociências (IG), Biblioteca Central (BC) e Ciclo Básico (CB) foram pichadas com manifestações de ódio, racismo e símbolos que fazem alusão a grupos neonazistas, além de ameaças de massacre. Tudo isso em locais de grande circulação e em horário de funcionamento.

Como alguém teria coragem de empreender uma ação como esta de forma tão despreocupada? Acredito que o histórico de posturas da administração da universidade dá luz em direção a uma resposta possível para a Unicamp ter se tornado um lugar em que grupos como esses não se sintam intimidados.

Antes de retomar alguns fatos, vale a pena a leitura de um dos pronunciamentos mais recentes da reitoria sobre o ocorrido:

A Reitoria da Unicamp condena com veemência o ato de vandalismo e tomará todas as providências para apurar o fato e garantir que o autor seja identificado e devidamente processado dentro e fora da Universidade. Mais graves do que os danos causados ao patrimônio público são o simbolismo dos desenhos e o teor das mensagens, totalmente incompatíveis com os valores da Unicamp e absolutamente inaceitáveis no âmbito de uma comunidade acadêmica que preza a democracia, a paz e a diversidade.

Sonho! Fato que está longe de ser a realidade de Campinas, da própria Unicamp e do nosso país, como afirmou a professora Ana Flávia Magalhães Pinto em palestra recente. Sendo assim, frente a essa lacuna entre o histórico de tensões que têm se materializado em mudanças bruscas na política universitária e as violentas respostas de quem se sente ameaçado por elas, quais histórias foram silenciadas e precisam ser relembradas nesse momento?

De um ambiente onde era extremamente confortável a mobilização da hipocrisia por boa parte dos professores, professoras, gestores e outros membros da comunidade acadêmica que se utilizam de todos os argumentos possíveis para alegar a inexistência de desigualdades e violências raciais, as lutas antirracistas ascendem dentro e fora dos muros da universidade em um Brasil de avanço dos setores reacionários e conservadores.

No mesmo lugar onde “ninguém era racista” temos, pelo menos, a atuação de três coletivos negros (Núcleo de Consciência Negra da Unicamp, Coletivo de Estudantes Negros e Negras do IA e Coletivo de Estudantes Negros e Negras do IB) e mais alguns que reúnem pessoas de diferente grupos etnicorraciais interessadas nas lutas antirracistas, como é o caso da Frente Pró-Cotas da Unicamp, Grupo de Estudos de Filosofias Africanas, Grupo de Estudos de Feminismos Negros.

Além de comissões institucionais de combate às opressões resultantes de reivindicações e lutas, evidenciadas em momentos semelhantes com os que vivemos na última semana. O lugar dos problemas causados pelo racismo tem mudado no âmbito da política universitária, devido a essas mobilizações que têm emergido cada vez com mais força.

O que essas narrativas “bem intencionadas” não revelam são as tensões e as violências que diversos estudantes negros, negras e da comunidade LGBTQI+ têm sido submetidos nos últimos cinco anos, além das omissões ou medidas risíveis da reitoria da Universidade quando cobrada postura frente a esse tipo de conflito.

Vale a pena resgatar aqui, as primeiras respostas em relação à implementação das cotas raciais nos programas de pós-graduação que citei anteriormente. Após o ingresso dos primeiros optantes pela política em alguns cursos de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, um belo dia, chegamos à universidade e nos deparamos com dizeres nas paredes que sugeriam que “os negros tinham que voltar para as senzalas”. Fomos também violentados pela inscrição suásticas e outros símbolos que fazem alusão a grupos neonazistas e de supremacia branca.

Esta prática foi tão preocupante para a administração que diz fala sobre os valores da Unicamp serem os mais democráticos, que ações como essas se tornaram recorrentes na universidade.

Após este ato nas dependências do IFCH, alguns banheiros amanheceram com pichações transfóbicas e mais manifestações de racismo e intolerância. Lembro-me de um dia ter ido para uma aula e ter me deparado com uma folha de caderno pendurada em um mural e que continha o desenho de um membro da Klu Klux Klan.

Estes eventos têm sido pautados pelo movimento de negras e negros dentro e fora da universidade. Mas, até então, não foram tratados de maneira adequada, pois nenhuma resposta foi suficiente para intimidar um sujeito que reivindica o massacre de Columbine transitando e olhando tranquilamente para câmeras de segurança enquanto age.

Outra histórias que valem a pena ser resgatadas são as que dizem respeito a professores e uma professora que se utilizaram de manifestações racistas, sem vergonha alguma, para atacar ou deslegitimar ações dos movimentos pró-cotas. Em 2016, um professor do Instituto de Economia chamou estudantes envolvidos com a greve estudantil de “primatas” e uma professora do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica fez publicação em suas redes sociais na qual chamou manifestantes que marchavam na universidade de “um monte de pomba gira no terreiro de macumba”.

A cereja desse bolo foi colocada pelo famoso professor da Faculdade de Medicina, que se manifestou publicamente de forma extremamente racista quando as cotas raciais foram aprovadas. Segundo o docente, com a implementação da política, a universidade trocaria “cérebro por nádegas”. O caso tomou certa repercussão, mas a lentidão com a qual a burocracia acadêmica o tratou foi um elemento importante para cair no esquecimento.

A administração da universidade, tão comprometida com uma paz muito branca, autorizou o deslocamento do sujeito para fora do país durante o processo administrativo, não por suspensão, mas para representá-la internacionalmente. As apurações seguiram e o processo foi concluído no meio deste ano. O professor ganhou de presente dez dias de suspensão durante o mês de julho, ao longo das tão esperadas férias. Em contrapartida, uma série de estudantes, em especial aqueles e aquelas de pele escura, têm sido processados por fazerem parte das mobilizações que resultaram na aprovação das cotas raciais em 2017.

A balança da “justiça” que a Unicamp utiliza tem mostrado duas medidas. O caso que nos deparamos na última quarta-feira não é uma exceção nesse sentido. O jovem que foi identificado pelas câmeras está sendo autuado por dano ao patrimônio público e não por racismo. Vide a repercussão que o caso tomou, a punição pela “depredação” de algumas mesas e computadores tem importado mais do que ameaças às vidas negras.

Vale lembrar que autor das pichações, que não agiu sozinho, foi aluno da universidade. Esse fato, somado ao outros que relatei aqui, brevemente suscitam a seguinte pergunta: quais são os esforços que a instituição tem empreendido para qualificar a formação humana de seus estudantes, professores e funcionários nesse sentido? A despeito das ações de indivíduos comprometidos com as lutas dos condenados da terra, a administração da universidade tem se movido a empurrões em direção a esses valores que ela tanto reivindica.

Na última sexta-feira (17), estudantes negros se reuniram na Universidade Estadual de Campinas para a realização de uma plenária na qual o principal tema era relativo às possíveis respostas às manifestações racistas que ocorreram nas dependências da universidade.

Entre todos os pontos levantados e questões levantadas, foi marcada uma manifestação na Unicamp, na próxima quarta-feira (22), às 12h, para continuarmos a empurrar a universidade rumo à democracia, diversidade e ao reconhecimento da necessidade de ampliação das políticas de combate ao racismo. Enquanto isso, parece que a administração da instituição está mais preocupada com o nome da universidade do que com a vida de seus estudantes.

 

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