A atriz e bailarina Mona Rikumbi acredita no pertencimento das pessoas com deficiência física dentro do carnaval

Texto e imagem: Pedro Borges

“Eu simplesmente sou enlouquecida pelo Camisa Verde e Branco”. É assim que Mona Rikumbi define a sua relação com o carnaval e com a escola de samba ao qual faz parte. Ela desfilará neste ano na Ala Recanto da escola, que homenageará o músico Carlinhos Brown.

Com deficiência a 12 anos, vítima da Síndrome de Devic, doença neurológica e progressiva, Mona Rikumbi exige o pertencimento, e não a inclusão, de pessoas com deficiências físicas ou mentais na festa do carnaval.

“Eu não gosto de falar inclusão, eu gosto de falar pertencimento. No caso do Camisa, eu faço parte dessa comunidade, faço parte dessa história. Eu posso participar de qualquer ala dessa escola, não só onde ficam lá confinadas as pessoas com deficiência. Quando se fala inclusão é porque você está fora e tem que botar dentro”, explica.

Mona Rikumbi acompanha todos os ensaios da escola, sempre junto da “lascada da moléstia”, nome dado a sua cadeira de rodas motorizada.

“Eu acho que a minha alegria é essa, eu fui, desfilei no Camisa quando andava, e depois da deficiência, o carinho, a amizade, essa relação gostosa que o Camisa Verde e Branco tem, e é do Camisa Verde e Branco, persiste. Não tenho nada contra as outras co-irmãs, mas é uma forma diferente de receber”.

A acessibilidade dentro do carnaval

Mona tem duas experiências para contar sobre o Anhembi, avenida do samba na cidade de São Paulo. Uma delas é em primeira pessoa, quando foi sozinha assistir a um desfile da escola de coração, no ano passado.

“Fui bem assistida, não fiquei perdida, ou com a necessidade de alguém me tutelar. Estava tudo bem sinalizado, dava para saber onde tinha piso baixo, rampa, como se conseguia chegar no banheiro, as instalações eram tranquilas, mas o fato de ter entrado sozinha impactou muito as pessoas que estavam lá para me receber”.

Ela afirma que a independência das pessoas cadeirantes ou com alguma deficiência causa impacto em todos. “Eu sei que é preocupação, cuidado, zelo, mas nós somos seres humanos normais, passíveis de tudo”, conta.

A outra experiência não tão positiva foi da amiga, que não pôde estacionar o carro na dispersão do Anhembi, e teve de parar o veículo na concentração. Por conta disso, depois do ensaio técnico da escola, teve de retornar ao início do polo cultural para voltar para casa.

“E tinham muitos carros de pessoas sem deficiência, na dispersão do ensaio técnico. Ou foi por falta de informação, entendendimento, bom senso. Ela teve de deixar o carro na concentração, desfilar, e contar com a ajuda de outras pessoas para chegar onde estava o carro dela para ir embora. Eu entendo que tudo isso é despreparo”, afirma.

Por isso, ela pede que a Liga das Escolas de Samba e o Anhembi dialoguem com pessoas deficientes, físicas ou mentais, para ajustar o ambiente e torná-lo mais apropriado para todos.

“O recado que eu tenho para quem pensa política é nada de nós, sem nós. Não dá para adivinhar quais são as nossas necessidades sem perguntar para a gente”.

Ela acredita que o diálogo seria importante para que as escolas de samba não sejam penalizadas nos quesitos Harmonia e Evolução, por conta da presença de cadeirantes ou outras pessoas com deficiência.

A Harmonia conta se os integrantes da escola desfilam sobre a avenida com o mesmo ritmo e cantam o samba enredo junto do time de intérpretes da escola. A Evolução avalia a dança, as coreografias da escola e o desenvolvimento da agremiação durante o desfile no Anhembi.

Ela também lamenta o fato de precisar ir acompanhada de uma pessoa durante o desfile, mesmo com uma cadeira motorizada.

“Eu realmente não consegui entender ainda do porquê dessa resolução. Ou ela é muito antiga, do tempo onde não tinha cadeira de roda motorizada, ou ainda é aquele pensamento de que a pessoa com deficiência não responde por ela sozinha”.

O Alma Preta entrou em contato com a Liga das Escolas de Samba de São Paulo. Até o fechamento desta reportagem, nenhuma resposta havia sido enviada.

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(Foto: Pedro Borges)

A relação com o carnaval

Aos 49 anos, Mona diz que a paixão pelo carnaval faz parte da história da família. Ela se recorda o quanto a mãe adorava a festa e diz que inclusive nasceu durante o desfile.

“Eu mesma nasci no dia 5 de Fevereiro, e ela disse que era carnaval, e ela só não desfilou no Vai-Vai porque eu estava nascendo. Foi a 1h da tarde, naquela época em que as escolas de samba ficavam até quase 2h da tarde nas ruas. Eu nasci quase 1h da tarde do dia 5 de Fevereiro de 1971, e era carnaval”, recorda.

Entre os 6 e 7 anos, Mona acompanhava a mãe não mais no Vai-Vai, mas na Gaviões da Fiel, antiga ala de dentro da escola de samba do Bixiga com ligação ao Corinthians. Ela se recorda dos ensaios da Gaviões da Fiel e também do gosto que ela e as duas irmãs tinham pelo festejo.

“O nosso presente de final de ano era poder sair no carnaval. A gente nem sabia que a ala das crianças era paga, mas a minha mãe fazia uma pressão danada, pedia para a gente ter nota boa. Aí ela ia para a escola, pegava a fantasia, chegava em casa, e era uma festa”.

Na adolescência, Mona se envolveu no ativismo negro e foi convidada para compor o departamento cultural da Vai-Vai. As divergências dentro da agremiação, os desafetos que acumulou, logo a afastaram da Bela Vista.

Mona então foi chamada para compor uma escola do grupo de acesso, bastante ligado com o Camisa Verde e Branco.

“E aí foi uma paixão. Eu pisei nessa quadra e me apaixonei muito. Sempre gostei dos temas, essa escola sempre foi pioneira em muitas coisas”.

A paixão segue até os dias de hoje e no dia 23 de fevereiro, domingo, às 3h da manhã, Mona Rikumbi entrará na Avenida do Samba junto da comunidade do trevo da Barra Funda, como é carinhosamente chamado o Camisa Verde e Branco.

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