A ausência da representatividade negra por trás das câmeras

Texto / Mayara Oliveira
Imagem / Divulgação

A desigualdade racial abrange diversos setores do mercado de trabalho e é no cinema que enxergamos essa disparidade com mais clareza, em especial no Brasil. Onde estão os negros no cenário audiovisual? Quantos deles participam desde o início do processo à atuação nos filmes? Como é, hoje, a representatividade negra por trás das câmeras?

Por décadas, os negros foram representados na mídia e na arte – cinema, televisão, rádio e teatro – de maneira estereotipada. Lembremos do blackface, prática teatral em que atores brancos pintavam as faces com carvão de cortiça para representar personagens afro-americanos de maneira exagerada, exótica e, muitas vezes, jocosa, fazendo apenas reforçar o racismo. A prática pode ter sido extinta dos palcos, mas os negros continuaram a ser alvo de discriminação nas novas mídias, tanto por sua imagem, quanto por sua posição social.

O sociólogo e historiador Carlos Machado é mestre em História Social pela USP (Universidade de São Paulo), estudioso do movimento negro e da cultura africana e autor do livro Gênios da Humanidade: Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente. De acordo com ele, o artista branco não é capaz de representar o negro, como esclarece: “É muito complexa a situação de um branco contar a história de um negro, sem estar no seu lugar. É basicamente falar sobre uma cultura que não é a sua”.

Em 1930, com a ascensão dos movimentos sociais e consequente visibilidade ao povo marginalizado, é que se iniciou a inserção do negro como representante do povo brasileiro nas mídias. No entanto, o problema fundamental permanecia: homens brancos escreviam sobre a cultura e a história de homens negros sem a terem vivenciado. Somente a partir da década de 1960, com o chamado cinema novo, o mercado cinematográfico brasileiro passou a ter cineastas negros, como Zózimo Bulbul, Cajado Filho e Agenor Alves.

A pesquisa intitulada "A cara do cinema nacional", publicada pelo Instituto Gemma (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa), sobre a produção audiovisual no Brasil, mostra que 74% dos roteiristas são homens e, desse total, apenas 4% são negros. Em contrapartida, apenas 26% são do gênero feminino e, dessa porcentagem, não há nenhuma mulher negra. Na direção, o cenário se mostra ainda pior: 84% dos diretores são do gênero masculino e de cor branca, enquanto que 13% são mulheres brancas. Apenas 2% dos diretores são homens negros e, novamente, não há nenhuma porcentagem de mulheres negras na categoria.

Mesmo com mais da metade da população composta por pessoas que se declaram negras e um crescente protagonismo negro dentro do audiovisual brasileiro, ainda podemos perceber a alarmante desigualdade de gênero dentro desse mercado. Poucas mulheres dirigem filmes no Brasil, reforçando a ideia de que o cinema foi, desde seu início, produzido por homens e para homens.

Lygia Pereira, 25 anos, é graduada em Midialogia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e atualmente realiza o seu mestrado pela ECA/ USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo). Ela afirma que os problemas de representatividade começam no currículo tradicional do curso de audiovisual: “As referências acabam sendo sempre homens e brancos. Então, para você estudar algo diferente, é preciso correr atrás. Percebo que as referências ainda estão carregadas por essa tradição que por muito tempo não foi contestada”.

Na opinião da mestranda, apostar em histórias reais, escritas por pessoas que sentem na pele as situações retratadas, é o caminho ideal para acertar na visibilidade e na representação da população negra.

Além do problema da desigualdade de gênero, ainda percebemos a questão do déficit de políticas públicas e financiamentos de projetos que fomentem as produções audiovisuais pelos negros. A Apan (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro), fundada em 2016, é uma das únicas instituições brasileiras voltadas à fomentação da produção audiovisual negra. Além da valorização e divulgação de suas realizações, fazem também a promoção de profissionais negros dentro do mercado audiovisual brasileiro. A principal ideia da Apan é combater estereótipos da imagem de negros e negras nas produções audiovisuais, para isso buscam construir pilares políticos de valorização da negritude e da defesa desses interesses de maneira inclusiva.

A roteirista e diretora Carol Rodrigues, premiada pelo edital Curta-Afirmativo, feito para possibilitar a realização do curta-metragem "A Boneca e o Silêncio", é a criadora do site Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro, página que, de acordo com a sua fundadora, tem por objetivo dar mais visibilidade às mulheres dentro do cenário do audiovisual, combatendo assim a desigualdade de gênero no nicho.

Outra iniciativa que caminha no sentido da representatividade dentro do mercado audiovisual é o AFROFLIX. A plataforma disponibiliza conteúdos audiovisuais online e garante que todas as suas produções tenham ao menos uma pessoa negra como responsável pela área de atuação artística ou técnica, possibilitando que o usuário encontre filmes, séries, web séries, clipes, vlogs e programas diversos produzidos, escritos, dirigidos e/ou protagonizados por pessoas negras. Além da experiência como espectador, a plataforma permite que produtores e diretores disponibilizem seu conteúdo ou indiquem outras produções que possam fazer parte do catálogo.

Apesar dos problemas de desigualdade e falta de incentivo público, é através de iniciativas privadas como essas que o cenário audiovisual passa a se diversificar, seguindo o ritmo de evolução da sociedade rumo à equidade em todos os níveis.

A reportagem foi originalmente publicada na Revista AFROCULT. Criada como trabalho de conclusão de curso das jornalistas Giovanna Monteiro, Marina Sá, Mayara Oliveira e Thais Morelli na Universidade Anhembi Morumbi, a revista visa ser um instrumento didático para o auxílio do combate ao racismo no país.

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