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Em entrevista para uma pesquisadora, Pedro Borges, um dos fundadores do portal de notícias negro fala sobre a história do site, objetivos, estrutura humana, também sobre conceitos como mídia radical. Segundo ele, o veículo é núcleo de convergência da militância negra brasileira

Entrevista / Thalyta Martins
Foto / Thinkstock

O Alma Preta está sendo tema de uma monografia que será apresentada para conclusão de um curso de jornalismo no final deste ano. No meio do ano passado Pedro Borges, representando o site, concedeu entrevista por Skype à pesquisadora Thalyta Martins. Confira na íntegra.

Thalyta Martins: Você pode me contar o que é o Alma Preta?

Pedro Borges: O Alma Preta é um portal de mídia negra criado em Bauru, em 2015. Define-se como portal de mídia radical, propondo uma comunicação horizontal, ou seja, dando espaço a vários atores sociais, seguindo pensamento de Downing (2002), que teoriza sobre este assunto que vem tomando força nos últimos anos. O pesquisador acredita ser uma mídia radical aquele veículo que permite pluralidade, trazendo referências cada vez mais próximas da realidade daquele público popular.

Thalyta: Qual é a estrutura humana do portal?

Pedro: A estrutura pessoal do site é composta atualmente por oito pessoas negras com posicionamento político contrário ao status quo e à mídia hegemônica convencional. Além dos seus principais articuladores, há colaboradores por todo o país. Todos os integrantes do conselho editorial e colaboradores pertencem a grupos políticos que questionam o racismo na sociedade brasileira e, por isso, são assumidamente parciais. Algumas opiniões são diferentes, mas não consideramos isso negativo.

A criação do site se deu com os estudantes de jornalismo na época Pedro Borges, Vinícius Martins e Solon Neto, todos membros fundadores do Coletivo Negro Kimpa da Unesp de Bauru. Também nesse começo, o grupo contou com a ajuda do designer Vinicius de Araújo para desenvolver a identidade visual.

Thalyta: Como o Alma Preta foi criado?

Pedro: As conversas iniciaram-se no início de 2015 com o objetivo de criar um portal de mídia negra. A primeira apresentação oficial do portal ao público foi por meio da página do Facebook, criada em 27 de abril de 2015. Deste ponto em diante, a formatação do site, a articulação das suas mídias sociais, a identidade visual, assim como a política editorial passaram a ser debatidos.

Nesse ponto nós decidimos fazer a divisão das editorias de forma diferente da adotada pela mídia tradicional, ou seja, não se separou assuntos como cultura de política, ou economia do esporte. Para esses temas, o conselho deu o nome de “Realidade”; os textos opinativos ganham espaço na editoria “O Quilombo”, espaço para opiniões de pessoas das mais diversas áreas; outra editoria é a “Da Ponte pra Cá”, nome que referencia uma música do grupo de rap Racionais Mc’s, com o mesmo nome. Aqui há a descrição do universo periférico e das diferenças desta realidade para o mundo das elites. Nessa parte, é explorado conteúdo das periferias do Brasil, suas produções, seus problemas, entre outros, com as colaborações de outros sites com essa temática, por exemplo, o “Nós, Mulheres da Periferia”, o “Bocada Forte”, a “Ponte Jornalismo” e o “Periferia em Movimento”; a última editoria é a “Mama África”, que referencia a música de Chico César com o mesmo nome. Esta editoria tem produções jornalísticas sobre o continente africano com o objetivo de se construir orgulho das origens africanas, além de conhecimentos sobre cultura, política e economia do continente berço dos negros brasileiros.

Thalyta: Como se dá o contato com o público? E entre vocês?

Pedro: As formas de interação com o público são: o site (almapreta.com), onde publicamos matérias, fotos e eventualmente veiculamos propaganda; o Twitter, utilizado para a divulgação dos textos produzidos, assim como o Facebook; o Instagram, usado para divulgar fotos com as manchetes de textos publicados no site, além de replicar postagens de outras páginas com a mesma temática; e o Youtube, onde o veículo possui um canal, onde posta entrevistas e reportagens com frequência.

O conselho editorial não possui espaço físico. A redação virtual utiliza um grupo secreto no Facebook, um grupo de conversa no Whatsapp e, também, o Google Drive, onde o Alma Preta tem uma série de informações armazenadas, como descrições e textos dos colaboradores do site, banco de dados com contatos de possíveis fontes negras e uma agenda com a programação de textos a serem publicados. As reuniões acontecem semanalmente pelo aplicativo do Gmail, Hangouts.

Thalyta: Qual é o objetivo? Ele tem sido alcançado?

Pedro: Atuar na construção de referenciais positivos para o povo negro, buscando a autoafirmação dos afrodescendentes e posicionamento no campo político da questão racial no Brasil e no mundo. Outros objetivos do portal são: publicar textos opinativos e reportagens fundamentadas do ponto de vista étnico-racial; apresentar conteúdo audiovisual com destaque aos atores sociais; participar da organização de eventos e grupos políticos que debatam a questão racial, entre outros.

O Alma Preta, posso afirmar, tornou-se um núcleo de convergência da militância negra brasileira.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

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