Em épocas diferentes, as três mulheres dedicaram suas vidas à luta pela libertação do povo negro

Texto: Nataly Simões | Edição: Simone Freire

Rainha Nzinga, Luísa Mahin e Josina Machel viveram em épocas diferentes e foram revolucionárias para a emancipação da comunidade negra. Suas histórias invisibilizadas pela história representam a luta das mulheres negras, reverenciadas pelo feminismo negro.

Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, celebrado no próximo dia 8 de março, o Alma Preta conta a trajetória das três heroínas.

Nzinga

Jinga, Singa, Zhinga e Ana de Souza são alguns dos outros nomes pelo qual Nzinga Mbandi Ngola Kiluanji foi chamada durante sua vida. Nascida em 1582 e herdeira do trono de Ndongo, reinou de 1623 a 1663, período em que fez a oposição mais forte contra o tráfico de escravos da Angola praticado pelos portugueses.

O interesse de Portugal inicialmente eram as riquezas do país angolano, como a prata, o cobre e a possibilidade de abertura de um caminho para chegar às minas de Zimbábue. Após mais de vinte anos de luta armada ao Sul de Luanda, os soldados portugueses encontraram amostras de chumbo em vez de prata.

O então rei de Portugal e da Espanha, Felipe III, inconformado com a descoberta, optou pelo tráfico de escravos. Estima-se que a média anual de embarque de escravos de diversas partes do continente africano pelo porto de Luanda era de 5.600. Os portugueses, no entanto, não tinham controle sobre a captura de escravos.

O rei Mbandi, irmão de Nzinga, os cobrava tributos, taxas e proibia a compra direta de escravos. Essas sanções causaram revolta entre os portugueses e levaram a uma nova guerra contra a Angola.

Em busca de paz com o rei Mbandi, Portugal enviou um novo governador para negociar um acordo em Luanda. O rei solicitou que Nzinga liderasse a negociação. Ela exigiu que os portugueses abandonassem suas instalações na África, entregassem os africanos prisioneiros e um lote de armas.

Para ganhar confiança dos portugueses e como parte de sua estratégia política, Nzinga aceitou o batismo católico, no entanto, os europeus não cumpriram o acordo. Dessa forma, a rainha passou a cobrar pelo armamento e ficou conhecida pelo terror causado entre os portugueses para proteger seu país e o povo de origem africana.

Luísa Mahin

“Uma negra, africana livre, da Costa da Mina”, é como Luiz Gama, advogado e símbolo da luta abolicionista no Brasil, descreve a mãe Luísa Mahin na carta enviada ao amigo e jornalista Lúcio de Mendonça, em 1880. A correspondência é o primeiro documento que comprova a existência da heroína da Revolta dos Malês, ocorrida em 1835, na cidade de Salvador.

Pertencente da tribo Mahin, país originário do Golfo do Benin, no noroeste da África, Luísa manteve suas tradições africanas acima da doutrinação cristã propagada pelos exploradores portugueses.

Essa mulher negra usou suas habilidades com a escrita e leitura aliada ao seu ofício de quituteira para circular pelas ruas de Salvador e se comunicar com escravos e não escravos revolucionários a respeito do levante contra o regime escravista.

Não existem registros oficiais de suas participações na Revolta dos Malês, apenas obras literárias como “O negro da Civilização Brasileira”, do antropólogo e psiquiatra alagoano Arthur Ramos. Publicado em 1956, o livro cita a casa de Luísa Mahin em Salvador como ponto de articulação de lideranças do levante.

“Não há documentos precisos a seu respeito. Sabe-se que seus pais eram reis no Continente Negro. Arrancada violentamente do seu meio e transportada para o Brasil, como escrava, Luísa Mahin foi um destacado elemento de conspiração entre os negros oprimidos. Sua casa, na Bahia, tornou-se um dos fortes redutos de chefes da grande revolta de 1835. Ninguém sabe o seu fim. Mas o seu nome permaneceu na história e na lenda como um grande símbolo do valor da Mulher Negra, no Brasil”.

Há pouco menos de um ano, em 27 de março de 2019, o Senado Federal aprovou a inclusão de Luísa Mahin e de Dandara, líder quilombola, no “Livro de heróis e heroínas da pátria”. A aprovação do projeto, de autoria da ex-deputada e então secretária nacional de Política para Mulheres, Tia Eron, tinha como objetivo fazer justiça a duas heroínas negras que atuaram na libertação dos escravos no Brasil.

Josina Machel

Em Moçambique, assim como em outros países da África colonizados por Portugal, as mulheres tiveram efetiva participação na luta pela liberdade e emancipação de seus povos. Uma das lideranças de destaque, ausente nos registros oficiais, foi Josina Abiathar Muthemba Machel.

Nascida em 1945, Josina Machel teve a oportunidade de se dedicar aos estudos, algo raro às mulheres moçambicanas da época. Em Maputo, atual capital do país, iniciou sua vida política ao se tornar membro da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), partido à frente da luta pela libertação nacional.

Ela tentou fugir de Moçambique para se juntar à luta armada articulada pela Frente duas vezes. Na primeira, foi capturada em Zimbábue e enviada para prisão. Na segunda, conseguiu alcançar o acampamento da Frente, na Tanzânia, onde foi uma das 25 mulheres que receberam treinamento militar.

Na liderança do setor feminino de treinamento militar e educação política, Josina auxiliou na construção de creches, escolas e hospitais durante a guerra contra os portugueses. A heroína lutou ainda pela participação das mulheres nas políticas de libertação.

Sua morte ocorreu de forma precoce, aos 26 anos, decorrente de complicações no fígado. Moçambique conquistou a independência sonhada por Josina quatro anos depois, em 1975. Em homenagem à sua luta, a data de sua morte, 7 de abril, é considerada Dia Nacional da Mulher no país moçambicano.

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