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Novo chefe do  Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-brasileiro (DPA) também é contrário ao sistema de cotas e membro de uma associação de professores de direita que pretende ter mais influência sobre o governo

Texto / Nataly Simões I Edição / Pedro Borges I Imagem / Reprodução

O novo diretor da Fundação Cultural Palmares (FCP), Laércio Fidelis Dias, classifica os estudos sobre raça, classe e gênero como uma “trindade maldita”. Pesquisador e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), ele é o nome escolhido por Sérgio Camargo para a direção do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-brasileiro (DPA).

Segundo Dias, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, os estudos acerca da temática de raça, classe e gênero fazem parte de uma “hegemonia da esquerda” dentro do ambiente acadêmico que precisa ser “rompida”.

O novo diretor do órgão vinculado à Secretaria Especial da Cultura também é crítico da forma como as pesquisas sobre desigualdade racial são conduzidas. Dias defende que os estudos sobre desigualdade racial não tratem questões complexas como pobreza, nível educacional e disparidade salarial. Para ele, a “abordagem é reducionista” e contribui para a “manipulação de políticas públicas, como a criação de cotas raciais”.

Laércio Fidelis Dias chegou à Fundação Cultural Palmares para chefiar o setor responsável pela proteção às pessoas de religiões de matriz africana, como o candomblé, e pela identificação e certificação das comunidades remanescentes de quilombos, documento necessário para que os quilombolas acessem políticas públicas.

Sua nomeação é resultado da ideia do presidente Sérgio Camargo de construir uma direção alinhada à extrema-direita. O departamento era coordenado por Sionei Ricardo Leão, demitido em fevereiro junto a outros três diretores com trajetória em políticas públicas em prol da cultura negra.

Dias afirmou, em publicação no site da Fundação, que “não será fácil proteger” o patrimônio histórico e cultural “sem dissolver a unidade por causa de rixas, rivalidades e ideologias, sem ruptura e em continuidade com a nossa rica e estimável trajetória histórica”.

Além do cargo de diretor no órgão público, Laércio Fidelis Dias é secretário-geral da Associação Docentes Pela Liberdade (DPL), grupo criado em 2019 por professores autodeclarados como de direita a fim de discutir e elaborar planos para aumentar sua influência sobre a universidade e o governo.

À frente da associação, a ação mais recente de Dias foi a assinatura de uma carta aberta enviada ao presidente Jair Bolsonaro (Sem partido), em 6 de maio, onde é pedida a liberação do uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não indica o medicamento como um dos possíveis tratamentos benéficos para a Covid-19. A maior pesquisa sobre o uso da cloroquina, realizada pelo American Medical Association com 1.438 pessoas nos Estados Unidos, mostrou que o medicamento não gerou redução de mortes de pacientes infectados pelo novo coronavírus.

O Alma Preta procurou a Fundação Cultural Palmares (FCP) e o Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-brasileiro (DPA) em busca de um posicionamento sobre as declarações do diretor Laércio Fidelis Dias citadas na reportagem. Até a publicação deste texto, os questionamentos feitos pela equipe não foram respondidos.

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Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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