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Durante o protesto, que começou por volta das 14 horas, a entrada do supermercado foi bloqueada

Texto / Pedro Borges e Simone Freire
Imagens / Matheus Machado / Mídia NINJA
Colaboração / Semayat Oliveira

Com carro de som e palavras de ordem, a comunidade negra do Rio de Janeiro realizou uma manifestação, neste domingo (17), em boicote ao supermercado Extra, da Rede Pão de Açúcar, após a morte de Pedro Gonzaga, 19, assassinado por estrangulamento na quinta-feira (14) na unidade da Barra da Tijuca.

Entre as cerca de 400 pessoas presentes, a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) resumiu o tom da manifestação. “Nós temos que montar o nosso exército. Nós estamos vendo matar nossos filhos e nossas filhas. O que significa a vida deste rapaz, pra esta mãe e pra esta família e de tantas outras que nós temos visto? Se nós não formos para a rua dar o nosso grito de liberdade eles jamais farão porque o que eles querem é silenciar a população negra, se não exterminá-la de verdade”, disse ao Alma Preta.

Durante o protesto, que começou por volta das 14 horas, a entrada do supermercado foi bloqueada. Toda a ação foi acompanhada pela Polícia Militar, que estava armada com metralhadoras.

Também presente no ato, a jornalista Luciana Barreto fez coro à fala da deputada: “pacifismo é uma bandeira nossa, mas eu digo que chegou a hora da gente ser mais ativo nesta luta porque a gente está vivendo um tempo de muita crueldade”.

Segundo ela, o que se pode tirar relativamente de positivo deste trágico episódio é a articulação em tempo recorde do movimento negro. “Nós conseguimos organizar todas as pessoas ligadas a questão étnico racial no Brasil”, disse.

As novas políticas voltadas para a área de Segurança Pública também foram criticadas durante o protesto no Rio de Janeiro. “Hoje, este desgoverno tem toda uma conivência e todo uma política voltada às questões das milícias e às questões de dar instrumento de armas nas mãos das pessoas ao invés de pensar na educação vertical”, disse o ator Ailton Graça.

Mobilização nacional

Pedro foi enterrado neste sábado (16), no Cemitério Jardim da Saudade, na Zona Oeste do Rio. Dinalva Oliveira, a mãe, que presenciou a morte do filho, não teve condições emocionais de comparecer. Davi Ricardo Moreira Amâncio, 31, o segurança que asfixiou o jovem, foi preso em flagrante e liberado logo depois. Ele pagou uma fiança de R$ 10 mil e deve responder por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.

Após a notícia da morte, pessoas se mobilizaram nas redes sociais pedindo um boicote à rede de supermercados. Manifestações simultâneas aconteceram na Barra da Tijuca, no Rio, e em outras cidades como Recife (PE), Belo Horizonte (MG) e Campo Grande (MS). Em São Paulo (SP), a concentração começou às 14h. Mais de 700 pessoas cercaram o estabelecimento provocando a interrupção das operações.

Em 2018, o GPA, grupo que controla marcas como Pão de Açúcar, Extra, Assaí e Casas Bahia, faturou R$ 53,6 bilhões. A empresa tem pelo menos 669 mercados alimentícios em funcionamento e não é a primeira vez que suas lojas são palco de violência contra pessoas negras. Em 2017, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) multou o Extra em R$ 458 mil após uma criança de 10 anos ter sido ofendida e acusada de roubo.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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