As deputadas acreditam em mandatos coletivos como forma de democratizar o acesso à política institucional

Texto / Lucas Veloso | Edição | Pedro Borges | Imagem / Divulgação

Nas eleições do ano passado, um grupo de cinco mulheres foi eleito para ocupar uma vaga na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). A “Juntas”, grupo filiado ao PSOL, foi eleita com 39.175 votos.

Formado pela advogada Robeyoncé Lima, a primeira transexual do Norte e Nordeste do país a usar o nome social na carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), pela jornalista Carol Vergolino, pela ambulante Jô Lima, pela estudante de letras Joelma Carla e a professora Kátia Cunha, o grupo divide o gabinete e o mandato.

“É uma experiência nova pra gente, pois a Assembleia Legislativa não está preparada para nós, mas digo que eles têm de se preparar”, define Jô. “A gente faz a reparação no campo institucional, sempre ocupado por homens ligados a alguém, e ‘a gente não é filho de ninguém’. Sou filha de feirante, a Joelma, de agricultor, a Katia, de professor”, exemplifica.

Para ela, as pautas mais urgentes defendidas são as políticas públicas para as mulheres, o direito à educação e moradia. Elas se autodenominam como “mandata”, palavra adotada pelo grupo como o feminino de “mandato”.

“A gente impacta dentro da Assembleia e é desafiador por estarmos ocupando. A violência no Recife, por exemplo, é algo que preocupa demais. A Polícia é o braço para reprimir a população que mora nas periferias”, comenta Jô.

O Atlas da Violência, divulgado em agosto pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostrou que o Recife é a sétima capital brasileira com maior índice de assassinatos, em 2017. O levantamento apontou uma taxa de 58,4 homicídios para cada 100 mil habitantes.

A deputada ainda comenta sobre as dificuldades para incluir a população negra no debate, pois o Estado não tem interesse em incluir os mais pobres nas discussões. “Aqui, a gente tem dificuldade de trazer os negros pro centro pra cultura. Tem, por exemplo, os jovens do passinho, e a Polícia se reúne para acabar todas as vezes que eles se reúnem”, reconhece.

Sobre as próximas eleições, a “Juntas” pretende reunir pessoas para explicar como funciona o Estado e como os mandatos coletivos podem colaborar com sociedades mais justas.

“A gente está começando uma discussão de como vamos nos posicionar nas próximas eleições. As pessoas querem chegar junto com a mandata coletiva. Isso vai explodir”, festeja Jô. “Estamos indo nos territórios explicar cómo funciona. Vai vir muita gente nessa perspectiva”.

Uma das parcerias da mandata é com as igrejas evangélicas. A “Juntas” acredita que a Igreja é importante no sentido de mostrar à sociedade como o princípio de ‘servir os outros’ está relacionado com a política.

“Posso citar a Frente de Evangélicos pela Sociedade de Direito. Eles trouxeram uma narrativa baseada na escuta e na observação, dispostos a servir e não somente serem servidos”, observa Jô.

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