Ramon Luz lançou seu primeiro documentário na Europa, onde vive desde 2017 e já passou por diversas situações racistas

Texto / Lucas Veloso | Edição / Nataly Simões | Imagem / Reprodução

O cineasta Ramon Luz, de 27 anos, vive na Alemanha desde 2017. Certo dia, quando ainda não sabia falar alemão, ele estava sozinho no trem e observou um grupo de idosos conversando na língua enquanto o olhavam fixamente. Uma senhora deixou o grupo e se aproximou dele com um sorriso no rosto. Em seguida, ela esticou o braço e puxou o cabelo dele com força. Ramon acredita que ela e seu grupo imaginaram que fosse uma peruca. Naquele dia ele chorou.

Esse foi um dos episódios de discriminação racial enfrentados pelo cineasta, que é negro e gay, durante o tempo que vive no país europeu.

Levantamento do Datafolha divulgado em junho de 2018 mostra que 62% dos brasileiros entre 16 e 24 anos gostariam de morar no exterior. Segundo o Relatório Internacional de Migração do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Secretaria das Nações Unidas (Desa), 1,6 milhão de brasileiros viviam fora do país no primeiro semestre de 2017. A maioria na Europa.

De acordo com estudo publicado pela Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung neste ano, aproximadamente 7% da população alemã tem opiniões racistas e que desvalorizam pessoas com base em sua cor de pele ou ancestralidade. Quase 19% são xenofóbicos.

Somente no ano passado, o Ministério do Interior da Alemanha (BMI) registrou 7.701 casos de racismo no país que possui 83 milhões de habitantes. Por conta do passado ligado à violência por segregação, o censo alemão não contabiliza pessoas pela cor da pele.

Ser negro e gay na Europa

Ao chegar na cidade de Bonn, em 2017, Ramon percebeu que se sentia mais relaxado em seu dia a dia. Sentia menos medo. Mas logo notou que a vida no país não seria tão fácil como parecia. O cineasta conta que ser homossexual não impacta tanto na sua rotina quanto o cabelo black power.

“As reações vão do sorriso simpático de estranhos a até puxões de cabelo no metrô. É muito evidente que as pessoas não estão acostumadas a ver essa estética na rua por aqui”, observa.

Ele relembra o caso em uma piscina pública, quando crianças se aglomeraram para observar como seu cabelo se comportaria ao ser molhado. Apesar de curiosas, respeitaram o espaço e depois pediram para tirar foto.

“Não me incomodei ou me senti mal por isso. Talvez eu fosse a primeira pessoa negra que elas viam dividindo aquele espaço com elas e suas famílias. Com as crianças tento sempre ter paciência e compreensão. Quero que tenham uma memória positiva e educativa do nosso encontro”, comenta.

Em outra ocasião, em Berlim, quando estava a caminho de um supermercado, Ramon percebeu que estava sendo seguido por uma mulher. Foram cerca de 20 minutos até que ele a abordou dentro do supermercado. Ela disse que seu cabelo era incrível e que tinha o sonho de tocá-lo. Mesmo contrariado, escolheu ver onde isso ia dar e permitiu que ela o tocasse. A moça pegou em uma pequena mecha, soltou após alguns segundos, se virou e foi embora. Sem nenhuma palavra.

Há alguns meses, depois de alcançar o nível avançado nos estudos da língua alemã e cortar parte do cabelo, a frequência que o cineasta passa por situações discriminatórias diminuiu. Ramon acredita que ter domínio do idioma alemão o protege de abordagens racistas.

“O que me ajuda a manter sanidade e tranquilidade é lembrar de separar atitudes conscientemente discriminatórias e xenófobas de reações comuns ao novo, como a das crianças na piscina”, conta.

“É impossível esperar que ninguém olhe para mim com alguma curiosidade em um país majoritariamente branco. Não posso simplesmente repelir as pessoas que têm pouca informação. Elas vão ter que se acostumar com a minha presença ali”, acrescenta.

Para o imigrante, o mais importante é ter seu direito de ser visto como ser humano respeitado. “Minhas reações diante de abordagens racistas vão desde um sorriso e um sim para um pedido de foto a respostas em tom mais agressivo e ameaças de chamar a polícia”, completa.

Governo brasileiro

Ramon Luz acredita que o Brasil é marcado por retrocessos nas políticas públicas para minorias. Como exemplo, ele cita o corte de investimentos da Ancine para produções audiovisuais com a temática LGBT e a suspensão do vestibular para pessoas trans. As medidas foram anunciadas pelo presidente Jair Bolsonaro em julho e agosto.

“A expectativa de vida de travestis e transexuais no Brasil é de 35 anos. Essas pessoas perdem oportunidades, são julgadas e estigmatizadas por terminarem na rua, sobrevivendo da prostituição”, destaca o cineasta. “O que o Brasil perde ao tentar trazer esse grupo mais frágil de volta sistema educacional?”, questiona.

Segundo Ramon, a conjuntura política brasileira é considerada trágica pela população alemã. “A perda de direitos não começou com o atual governo, mas é gritante a identidade opressora e perseguidora dele. Aqui na Alemanha, os brasileiros são observados com olhar de pena a cada fala do presidente, mas também recebem solidariedade”, relata.

Segurança na Alemanha

Outro fator considerado importante pelo cineasta no país europeu é a segurança de pessoas negras, especialmente com o aumento da popularidade do partido de extrema direita AFD.

Segundo Ramon, é visível a identificação de grupos neo-nazistas com a legenda. Contudo, a popularidade do partido da oposição, Grüne, também vem crescendo nos últimos anos. O imigrante brasileiro torce para que o sucessor da chanceler Angela Merkel seja desse partido.
“Também me conforta a forte reação de grande parte da sociedade contra os movimentos ultraconservadores alemães. Em Berlim, vemos protestos e a arte de rua deixa claro quem é maioria por aqui”, pontua.

“Não é a toa que Ciro Gomes foi o candidato mais votado nas eleições presidenciais brasileiras em Berlim, diferente do que aconteceu em Munique e Frankfurt, por exemplo, que votaram Bolsonaro”, relembra.

Trajetória

O jovem cineasta nasceu no extremo norte do Espírito Santo, em Montanha, cidade que faz divisa com Minas Gerais e Bahia. Aos 16 anos, ele deixou o município para estudar comunicação social. Para a graduação, mudou para Linhares, onde morava sua tia.

Inicialmente, ele queria estudar jornalismo, mas o curso havia sido cancelado na instituição que ele passou e no lugar foi oferecida uma vaga em publicidade e propaganda. “Aceitei na hora, pois era a minha chance de sair de uma realidade onde não tinha qualquer perspectiva e me via forçado a ser quem não era para ter amigos e não decepcionar meus familiares”, conta o cineasta.

Em 2016, escreveu um projeto para concorrer à bolsa German Chancellor Fellowship, da fundação alemã Alexander von Humboldt. A proposta era realizar um documentário ou uma série de vídeos que abordasse criticamente o processo de integração de refugiados na Alemanha, levando em conta principalmente o ponto de vista dessas pessoas.

Em julho do ano seguinte, Ramon se mudou para Bonn para participar da primeira fase do programa que foi um curso intensivo da língua alemã com duração de três meses. Depois, foi para a capital Berlim onde colocou o projeto em prática.

O resultado do trabalho foi lançado em abril de 2019. O primeiro documentário chamado “Familiar Face” foi selecionado para a sessão de novos talentos no festival de cinema Visions du Réel, em Nyon, na Suíça.

O longa tem 45 minutos e conta a história de dois homossexuais que têm suas vidas unidades de forma inesperada. Habibti é um sírio que tenta imaginar seu futuro em meio as incertezas da vida de refugiado na Alemanha; e Markus é um alemão que busca entender sua parte nesse processo de troca com os novos moradores do país.

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