No cenário político brasileiro, Leci, cantora, compositora e deputada estadual, ressalta conquistas de sua legislatura e promete continuar lutando por seu povo

Texto e imagem / Thalyta Martins

A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) está de cara nova. São 51 deputados novos eleitos, entre eles Erica Malunguinho. No entanto, a maior bancada da Alesp é representada pelo Partido Social Liberal (PSL), partido do candidato Jair Bolsonaro. Também nove eleitos são de origem militar/segurança pública. Neste ano, dos 75 deputados estaduais que tentaram reeleição, apenas 43 conseguiram, e entre eles Leci Brandão, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

A favor do povo e da cultura popular

Filha de Antônio Francisco da Silva, já falecido, dona Leci de Souza Brandão (94), de Ogum e de Iansã, Leci (74) tem 43 anos de carreira artística e foi eleita deputada estadual pela terceira vez em São Paulo.

Quando recebeu a notícia, ela conta que ligou chorando pra mãe, moradora do Rio de Janeiro e para quem ela leva boletins do que faz na Alesp, e disse que conseguiu mais uma vez. “Ah minha filha, eu sabia que você ia conseguir porque você faz um trabalho muito direitinho. Deus vai te ajudar”, foi a resposta.

E tem ajudado. A deputada relembra que em 2010, quando ganhou a sua primeira eleição, ficou assustada por não saber bem o que fazer na casa.

“No momento que eu fui eleita, eu fiquei apavorada, porque todo mundo tinha curso de direito, sociologia, economia… Mas eu sabia o que era certo e o que era errado. Eu sabia o que era direito e o que era injusto.”, conta.

Sem curso superior, mas munida do diploma da “universidade da vida”, perguntas e pedidos de explicação, Leci se orgulha das conquistas no cargo e na carreira. Conhecida como “cantora de protesto”, por falar da periferia, dos negros e LGBT’s, diz que cantar é como transe, mas que ela faz naturalmente.

“Eu não me preparo pra fazer música. Ela vem pra mim como se fosse transe e tudo tem um recado social. Eu tenho muita convicção que eles [Ogum e Iansã principalmente] estão juntos de mim. A partir dos anos 80, quando eu conheci a religião, a minha vida foi outra.”, explica.

Nesses anos de legislatura, Leci já conseguiu fazer o Dia de Ogum, Dia de Iemanjá, o Dia das Tias Baianas, o Dia Estadual da Umbanda, Dia do Orgulho Crespo, Semana do Hip Hop, além do guia com todas as comunidades de samba de São Paulo. Ela explica que é muita coisa ligada à juventude negra e acredita estar cumprindo a sua missão dentro da Comissão de Educação e Cultura, da qual faz parte. Ela também transita pela Comissão de Direitos Humanos.

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Leci Brandão durante o Encontro de Estudantes Negros da UEE, que ocorreu este ano no Sítio Quilombo Anastacia, em Araras (Imagem: Thalyta Martins)

“Se você olhar, todos os meus projetos, tudo tem conexão com o nosso povo! A favor da cultura popular”, diz.

Balanço dos mandatos anteriores

Atuante em Igualdade Racial, Inclusão Social e criação de Políticas Culturais, Sociais e Educativas, Leci Brandão é uma das deputadas mais atuantes. “Estou apenas cumprindo a missão que vocês confiaram pra mim”, diz.

Em vídeos publicados no seu canal no YouTube com a hastag #AlôComunidade, Leci faz Balanço de Mandato e também explica mais sobre sua função, o que ela pode fazer e o que não. Confira:

 

“Coletivo é sempre bom, fortalece”

Quando questionada sobre o futuro, Leci afirma que segurança pública e intolerância religiosa serão debatidos por ela, assim como moradia, saúde e genocídio da juventude negra.

Dentro do contexto político de avanço do conservadorismo e da extrema direita em diversas instâncias, e entre elas a Alesp, Leci se mostra feliz pela legislatura de Erica Malunguinho, “coletivo é sempre bom, fortalece”, mas também firme e preparada para enfrentar o que está por vir.

“Em 2019 eu vou ter que ter um colete pra poder enfrentar essa gente da maior bancada da casa. Uma coisa eu posso garantir: eu sempre respeitei e respeitarei os deputados, mas eu exijo respeito de volta. Eu não vou ficar escondida e acuada. Filha de Ogum e de Iansã tem bravura também. Não posso deixar de ter coragem, de chamar meu povo pra poder enfrentar essas coisas.”, ressalta.

Em esfera nacional, a deputada e cantora acredita que as mulheres estão cmo protagonistas. E faz um apelo também para votar por dignidade de vida, e não o contrário.

“A hora é nossa, a gente que tá com a bola. Tá na hora de chutar para ter dignidade de vida. Basta de ataques, preconceito, intolerância, basta de tanta coisa ruim. Essa é a eleição de nossas vidas. Ainda dá tempo de mudar esse panorama horroroso que está aí. Eu tenho um lado!”, diz.

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