Elaine Mineiro, coordenadora de Núcleo da Uneafro Brasil, escreveu para o Alma Preta sobre a importância do 25 de Julho para a luta e a resistência das mulheres negras na diáspora africana

Texto / Elaine Mineiro | Imagem / Ana Laura /Alma Preta

Hoje em toda a América Latina e Caribe, mulheres negras celebram suas lutas históricas e se reúnem para continuar construindo uma trajetória de resistências em torno de demandas de raça, gênero e classe.

Esta data é mais um momento em que mulheres negras podem trazer luz a vetores que por todo continente atingem mais intensamente essas mulheres em diáspora. No Brasil indicadores recentes como o mapa da violência de 2016 apontam que enquanto a violência cai ente mulheres brancas, em torno de 10%, entre as mulheres negras cresce, com registrado de aumento de 54%.

Ainda sofremos com maior violência obstétrica, menores salários, mais dificuldade de acesso à formação acadêmica etc. Este cenário acaba se repetindo com muitas semelhanças entre mulheres negras e pobres de todo continente apesar de cada particularidade em cada pais.

Para nós mulheres periféricas existe ainda mais um elemento importante a ser destacado, a própria cidade. As cidades brasileiras centralizam recursos e oportunidades enquanto distribui pacotes de maldades nas periferias. São estruturas precárias nos serviços públicos, ônibus lotados, falta de creche, e onde a violência de estado parece não conhecer o fim da ditadura cívil/Militar da década de 1960, levando as vidas de nossos filhos, de nossos pais.

Tudo que o capitalismo pode oferecer de pior fica mais intenso a cada quilômetro rodado. Conforme se vai no sentido oposto ao do centro, a cidade estampa pelo vidro do ônibus, lentamente no trânsito, uma estrutura que se esvai e uma precaridade que aumenta.

Quando chega em casa a jornada dupla continua, homens e mulheres ainda não dividem de forma igualitária o trabalho doméstico. Isso quando a mulher negra consegue constituir uma família. Infelizmente, são fartos os artigos e pesquisas que apontam para a chamada solidão da mulher negra.

Para muitas dessas trabalhadoras ainda se soma o peso de ter que prover mães e pais idosos que carregam um histórico de trabalho duro e precarizado. As domésticas por exemplo só passaram a ter garantido o direito a registro em carteira em 2015, e nessa categoria embora nas, últimas décadas tenham apresentado uma mudança significativa, a grande maioria das trabalhadoras ainda são mulheres negras. Profissão passada de geração em geração.

As perspectivas dentro do campo das políticas públicas hoje no Brasil não apontam para uma melhora nesse cenário, ao contrário, medidas de alterações de políticas de Estado, como as reformas trabalhistas e da previdência vão atingir negativamente e com mais vitalidade essas mulheres que estão nas camadas mais prejudicadas da sociedade.

As pautas conservadoras de costumes, defendidas com entusiasmo pelo governo federal, versam intensamente em torno de debates de gênero e tendem a culpabilizar e criminalizar o corpo feminino, especialmente o corpo negro e LGBTQI+. Hoje a expectativa de vida para uma mulher transgênero é vergonhosamente de apenas 35 anos.

Então, por que comemorar essa data? Em 1992, no primeiro Encontro de mulheres Afro Latino americanas e caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana, adotamos o 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e caribenha. No Brasil, aproveitamos a data para trazer viva a memória da lutadora Tereza de Benguela, importante liderança que dirigiu durante duas décadas a resistência do povo preto do Quilombo do Quiteré. Lá, ela fez frente à opressão colonialista, criando um parlamentar, organizando o plantio e a colheita além das necessárias armas. Liderança nata, Tereza mostrou que os espaços de luta podem e devem ser ocupados por mulheres.

Ainda hoje mulheres símbolo de resistência para mulheres negras permanecem invizibilizadas, mesmo as que seguem em luta, ou as que foram assassinadas, caso de Marielle Franco, parlamentar carioca morta em um atentado junto com seu motorista Anderson Gomes, em um crime brutal que chocou o mundo todo e segue sem solução. Marielle, nossas mães, tias e mais velhas seguem em luta e representam toda a sabedoria ancestral.

Hoje é dia de recordar nossas bibliotecas humanas, como Mariana Granjeiros, mulher preta cubana que lutou e orientou seus filhos para luta contra a colonização espanhola. Ela inspirou as jovens mulheres combatentes da revolução cubana a se batizaram como o Batalhão das Marianas. Que sejamos muitos batalhões, diversos e pulsantes como a própria América Latina.

Hoje pelas ruas de varias cidades desse continente mulheres se levantam para gritar a plenos pulmões por seus direitos. Mulheres por todo continente traçam planos e projetos para um outro mundo. Mulheres se organizam e junto com outras mulheres se protegem das opressões cotidianas, da violência que chega rasteira de onde não se espera, das indelicadezas que forçam a mudança em seus corpos em seus comportamentos. Mulheres de todo continente seguem estudando, abrindo portas dentre os muros das universidades, exigindo postos de trabalhos condizentes com sua formação, dedicação e capacidade.

Hoje mulheres negras lutam para que nossas perspectivas de vida não sejam reduzidas até o ponto em que não possamos mais falar de amor. Hoje mulheres Afro latino-americana e caribenhas caminham ao lado de homens aliados e aliadas não negras para construir resistência popular. Hoje Nos centros das grandes cidades, nas periferias, no campo, levantaremos nossas bandeiras, carregaremos nossas crianças e diremos que não existe espaço onde não possamos estar. Hoje mulheres vão cantar nas praças, vão recitar suas poesias em vielas. Hoje mulheres pavimentarão o solo pra receber outras mulheres no congresso, nos altos postos de trabalho, nas capas de revistas e nas produções cinematográficas.

25 de julho é uma data das mulheres negras desse continente carregado de Banzo, é uma data de luta e de protagonismo negro.

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