Sargento Neri, deputado estadual (PSL-SP), disse que a resposta para um policial assassinado são “dez ladrões mortos”; Uneafro protocolou questionamentos ao governador do estado, João Dória, com pedido de retratação pública e investigação dos crimes confessados pelo deputado

Texto / Pedro Borges I Imagem / Tânia Rego / Agência Brasil

“Nós não faríamos o velório do policial enquanto não estivesse no necrotério o corpo do ladrão”, afirmou o deputado estadual do PSL, Sargento Neri, durante sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) no dia 1 de Julho. Em resposta à afirmação, a Uneafro Brasil, rede de cursinhos populares, protocolou pedido de resposta por parte do governo do Estado e investigação por parte ALESP sobre o caso.

A declaração dada, em reunião da Comissão de Segurança Pública e Assuntos Penitenciários, segundo documento protocolado pela Uneafro, confessa crimes cometidos pelo deputado estadual durante a carreira como policial.

O texto enviado reafirma a não existência de pena de morte na legislação brasileira e questiona o governador do estado, João Dória, sobre os impactos da declaração dada pelo deputado estadual sobre a ação dos policiais militares.

“[Exigimos] Posicionamento da Secretaria de Segurança Pública e do gabinete do governador em relação à política de formação dos agentes policiais e o quanto há de verdade na afirmação proferida pelo ex-sargento de que há uma formação dirigida e orientada para a prática da vingança e de execuções sumárias extrajudiciais; orientações e procedimentos adotados pela PM paulista e seu comando, em sua atribuição ordinária e cotidiana”, diz o texto.

Os ativistas da Uneafro também recordam o Artigo 286 do Decreto de Lei nº 2.848 da constituição brasileira, em que prevê pena de prisão de três a seis meses ou multa para quem incita publicamente a prática de crime.

O documento também faz menção ao Método Giraldi, criado pela polícia militar para evitar a morte de pessoas em confronto com a corporação. A doutrina, adotada pela Polícia Militar do estado de São Paulo desde 2002, instrui o agente a praticar o “Tiro Defensivo na Preservação da Vida”. Os ativistas da Uneafro questionam o governo do estado se declarações dadas pelo deputado estadual Sargento Neri não vão de encontro com o Método Giraldi e incitam a truculência policial.

Em relatório divulgado em Agosto de 2018, a Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo identificou que houve excessos em 74% das ocorrências policiais com civis mortos. A letalidade policial em 2017 foi a maior da série histórica, com 940 pessoas executadas por agentes de segurança pública.

Leia o documento na íntegra.

Entenda o caso

O deputado estadual do AVANTE, Sargento Neri criticou a atuação e o comando da polícia militar do estado em sessão da Comissão de Segurança Pública e Assuntos Penitenciários da Assembleia Legislativa.

“É uma vergonha nós perdermos três policiais, um garoto alvejado na cabeça, e não fazermos uma operação para matar dez. A resposta por um policial morto são dez ladrões mortos. É o mínimo. Da Policia Militar que eu venho, nós não entregávamos uma viatura para a outra equipe enquanto não se pegasse o ladrão. Nós não faríamos o velório do policial enquanto não estivesse no necrotério o corpo do ladrão. Isso é fato, isso é guerra.”

A sessão ocorreu no dia 25 de Junho e foi presidida pelo Delegado Olin (PP). Diante dos demais membros da equipe, Sargento Neri fez mais críticas à Secretaria de Segurança Pública e ao comando da corporação militar.

“Eu dei aula para formação de soldados por quase 12 anos. Quando eu comecei a perder meus alunos, eu parei de dar aulas. Eu não formei aluno para morrer, eu formei aluno para matar e sobreviver. Hoje, o que nós temos é um comandamento (sic) fraco e um secretário de segurança fraco, nós precisamos de homens na Polícia Militar, Polícia Civil e secretaria que entendam de segurança pública”.

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