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Encontro contou com a participação de figuras nacionais que se debruçam sobre literatura e ilustração negras. O evento também contou com o lançamento de livro inédito de Carolina Maria de Jesus

Texto / Thalyta Martina
Imagens / Amauri Eugênio Jr., Pedro Borges e Thalyta Martina

A Mostra de Literatura Negra Ciclo Contínuo ocorreu entre os dias 16 e 18 de março, na Galeria Olido, localizada no Centro de São Paulo. O evento foi organizado pela Ciclo Contínuo Editorial, editora independente que se dedica à publicação de obras da cultura afro-brasileira.

As atividades iniciaram-se na noite do dia 16, quando Marciano Ventura, editor e organizador da Mostra, abriu o evento juntamente com o escritor Oswaldo de Camargo, que discorreu sobre a vida e obra de Paula Brito, escritor e primeiro editor brasileiro.

1oswaldodecamargoO escritor Oswaldo de Camargo fala para o público na abertura da Mostra (Foto: Equipe Alma Preta)

Antes da abertura da solenidade, na entrada do auditório, uma pessoa perguntou se seu Oswaldo estava animado para a mostra? Ele respondeu “tudo que é nosso me empolga!”. No auditório, ele falou da falta de reconhecimento e da importância de Paula Brito, que além de editar e publicar livros, fundou o “Homem de Cor”, primeiro jornal brasileiro a discutir a questão racial no país.

Na manhã do dia 17, a feira de livros aconteceu no saguão reunindo editoras com foco em questão racial e/ou escritores negros de todo Brasil, enquanto a poetisa e professora universitária Lívia Natália e o escritor, poeta e dramaturgo Cuti, discutiam no segundo andar, na Sala Vermelha sobre a escritura e a poética negra brasileira. A necessidade de o negro ser visto como escritor e como a literatura pode trazer humanidade ao ser negro no Brasil também foram abordados.

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Mesa "A escritura poética negra na literatura brasileira" com Cuti e Lívia Natália (Foto: Equipe Alma Preta)

À tarde, ocorreu o debate “Clube de Leitura Negrita convida: texto e imagem, uma conversa sobre ilustração e literatura”, com Brunata Mires, Edson Ikê, Junião e Silvana Martins, que discutiram sobre processos de criação de conteúdo; dificuldades enfrentadas no mercado editorial; e sobre dificuldades para gerenciar o trabalho e a vida pessoal. O Clube Negrita é um clube para a leitura de escritoras e escritores negros, que foi criado por Brunata em 2017. Ele acontece bimestralmente mediando leituras e um leilão de artes visuais criadas por artistas negros.

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“Clube de Leitura Negrita convida: texto e imagem, uma conversa sobre ilustração e literatura”, com Brunata Mires, Edson Ikê, Junião e Silvana Martins (Foto: Equipe Alma Preta)

Pouco depois, já às 16 horas, Heloisa Pires Lima e Fausto Antonio comandaram a mesa “As dimensões didáticas da literatura negra para infância e juventude” e falaram sobre a necessidade de olhar para as crianças negras e produzir material voltado para elas. Aqui também ocorreu uma reflexão por parte do Fausto sobre a branquitude e acerca de só o sujeito negro ser racializado.

Em seguida, os livros “No Reino da Carapinha”, de Fausto Antônio, e “As Férias Fantásticas de Lili”, de Livia Natália, foram lançados para o público presente.

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Lançamento do livro “As Férias Fantásticas de Lili”, de Livia Natália (Foto: Equipe Alma Preta)

O dia encerrou-se com a apresentação do Musical “Pelamô”, do poeta Akins Kintê e convidados, como Robsom Selectah.

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“Pelamô”, é musical baseado nas poesias do livro e CD “Muzimba, na Humildade Sem Maldade”, foi criado pelo poeta (Foto: Equipe Alma Preta)

O último dia de evento foi aberto com a Oficina “Família leitora - mediação de leitura”, com Leo Bento e Luciana Barrozo. Crianças estiveram presentes e puderam interagir com livros que foram espalhados. Houve uma discussão sobre as dificuldades de diálogo com o poder público e as escolas particulares para as pequenas editoras colocarem esses livros voltados a crianças negras em circulação nesses espaços. Aqui uma fala foi emblemática: foi relatado que as escolas costumam pedir para eles voltarem com o livro para ser trabalhado apenas em Novembro, mês em que é comemorado o dia da consciência negra.

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Oficina “Família leitora - mediação de leitura” (Foto: Equipe Alma Preta)

Logo depois teve o lançamento do livro “Mente aberta”, de Akanni Alves, no saguão da Galeria Olido, onde estavam os expositores que apoiaram o jovem escritor.

À tarde aconteceu a leitura do portfólio fotográfico de António Terra (RJ) e workshop com o fotógrafo. Terra contou sobre sua trajetória, primeiros contatos que teve com uma câmera fotográfica e o seu desenvolvimento na profissão. Foi um diálogo bastante rico;

A mesa “Carolina Maria de Jesus desatando alguns nós”, ocorreu em seguida, com a pesquisadora de autoras negras brasileiras, Fernanda Rodrigues de Miranda, e a pesquisadora da obra de Carolina Maria de Jesus desde 1999, Raffaella Fernandez. Às 18h, o lançamento do livro “Meu sonho é escrever - Contos inéditos e outros escritos”, de Carolina Maria de Jesus, contou com a presença da família da escritora. Vera Eunice, a filha, contou sobre a vida da mãe desde a vivência em Sacramento (MG), até a vinda para São Paulo, na favela do Canindé, às margens do Rio Tietê.

1livrocarolinaVera Eunice, filha de Carolina Maria de Jesus, e Cosme Alves (Foto: Equipe Alma Preta)

O encerramento do evento, no qual circularam em média 2 mil pessoas, ficou por conta de Renato Gama & As Pastoras do Rosário, que cantaram Carolina Maria de Jesus.

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Renato Gama & As Pastoras do Rosário fecharam a Mostra de Literatura Negra (Foto: Equipe Alma Preta)

 

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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