Possíveis ações para mais representatividade nessas áreas foram temas de roda de conversa no 2º Encontro de Estudantes Negras e Negros da União Estadual dos Estudantes de São Paulo

Texto e imagem / Thalyta Martins

Em 19 de maio, jovens negros discutiram sobre comunicação e cultura no 2º Encontro de Estudantes Negras e Negros da UEE-SP (União Estadual dos Estudantes de São Paulo) com o DJ, ator-MC e pesquisador da cultura afro-diaspórica, Eugênio Lima, e com a jornalista e ativista dos direitos humanos com foco em raça e gênero, Juliana Gonçalves. A mediação foi feita por Wes Machado, coordenador geral do Circuito Universitário de Cultura e Arte de São Paulo (CUCA SP).

Ao mesmo tempo da roda, aconteciam outros painéis, entre eles, desafios para acesso e permanência no Ensino Superior e racismo religioso.

O Encontro foi organizado pela Diretoria de Combate ao Racismo da UEE-SP, em conjunto com o Ilê Axé de Iansã, localizado no Sítio Quilombo Anastácia, que por sua vez está dentro do Assentamento Rural Araras 3.

Demandas na comunicação

O documento final do encontro lido para os presentes apontava a necessidade de emancipar a população negra para se construir um projeto de nação que parta de vozes negras. O registro reivindicava representação populacional nos espaços de poder na política e na economia, e, também, condições de qualificar nossa participação.

Um ponto importante para que isso seja alcançado, é a democratização das mídias para a luta antirracista. Isso, segundo o documento, “exige uma mudança da superestrutura midiática para possibilitar que ocupemos cada vez mais espaços nessa área. É necessário estimular a criação e fomento de uma narrativa própria, onde negros e negras assumam o papel de construtores e não meros objetos. (...) Os negros e negras precisam ocupar os espaços de produção cultural e midiática.”

Thales Santos, estudante de Gestão de Políticas Públicas na USP, concorda. Segundo ele, o acesso à comunicação é a capacidade de estar em todos os palcos, ao mesmo tempo em que atrás de todos as câmeras. A intenção disso é “poder direcionar para onde ela [a câmera] aponta e o que ela mostra.”, disse.

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Thales Santos no 2º Encontro de Estudantes Negras e Negros da UEE SP (Imagem: Thalyta Martins)

De acordo com o jovem, as mídias possuem capacidade de manipulação da população e manutenção do status quo pelas informações dadas para as pessoas. “Nós temos necessidades e anseios! Dá para mudar as coisas. A mensagem que temos que passar pra pessoa do lado que fica assistindo a Globo e a Record é que existem outros pontos de vistas e que dá pra ser diferente.”, afirmou em entrevista ao Alma Preta.

Thayna Carvalho, militante da União da Juventude Rebelião e da Unidade Popular do Socialismo também participou da roda. Segundo ela, a discussão a fez refletir sobre o papel da mídia e da cultura na sociedade capitalista e como ela pode utilizar as mesmas para acabar com o sistema que lucra em cima da miséria da classe trabalhadora, em especial do povo negro.

Reivindicações na cultura

Thales falou também sobre a produção cultural. Ele acredita que precisamos ter mais reconhecimento da nossa produção cultural histórica enquanto algo nosso mesmo. Ele citou o exemplo da polêmica música que diz "rap é pra branco e pra preto".

“Eu concordo que a cultura Hip-Hop - assim como o Samba, o Jazz, o Blues, o Rock - pode ter representantes multiétnicos, mas o que essa ela não entende, e eu a uso como bode expiatório falar da branquitude como um todo, é que o rap é mais que um estilo musical e sim uma manifestação social de resistência, que tem sua forma construída por e para pessoas negras”, disse.

Segundo ele, pessoas negras precisam de mais do que acesso à cultura, mas também precisam participar efetivamente do progresso que essa produção cultural pode ter.

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Thayna Carvalho no 2º Encontro de Estudantes Negras e Negros da UEE SP (Imagem: Thalyta Martins)

Thayna, que trabalha com cultura na cidade de São Paulo, disse que tem como desafio fazer com que a arte se torne cada vez mais instrumento de luta e avanço da consciência da classe trabalhadora. “Me desafio a questionar esse sistema que destrói nossa autoestima todos os dias e que nos diz, de todas as maneiras possíveis e imagináveis que não somos capazes de transformar essa realidade tão dura e cruel contra o povo negro. Acredito que a solução está na transformação e superação desse sistema que favorece o racismo através do poder popular e do socialismo.”, disse.

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