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Historicamente considerada como uma estrada ruim ou péssima, a BA-160 é a via de acesso de comunidades quilombolas que estão ainda mais isoladas no período de pandemia da Covid-19

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/De Olho nos Ruralistas

Pelo menos 5 mil famílias quilombolas são diretamente prejudicadas pelas más condições da rodovia BA-160, na região oeste da Bahia. De acordo com as pesquisas realizadas pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), a via está entre as 10 piores do Brasil.

Vários acidentes com mortes já aconteceram no local. A pandemia da Covid-19, o novo coronavírus, agravou a situação, pois as famílias não conseguem se deslocar na busca por serviços de saúde, educação e para escoar produção de alimentos.

A rodovia atravessa os municípios de Iuiú, Malhada, Carinhanha, Bom Jesus da Lapa, Paratinga, Ibotirama, Xique-Xique e Barra, e chegou a ser asfaltada em 1990. “A estrada foi construída há mais de 20 anos, época em que existiam muitas fazendas aqui. Quando houve a desapropriação de algumas, que foram reconhecidas, ela foi esquecida. Então, já são por volta de 20 anos sem manutenção entre Bom Jesus da Lapa e Malhada”, comenta Ton da Purificação, articulador social do Conselho Estadual das Comunidades e Associações Quilombolas da Bahia (Ceaq-BA).

Purificação conta que há cerca de 15 anos apenas a operação tapa buracos é realizada entre Ibotirama e Bom Jesus da Lapa, passando por Paratinga. “A luta é para a reconstrução. Agora, estão recuperando de Bom Jesus a Ibotirama, mas o governo se nega a fazer a reforma em toda a extensão da estrada”, explica o articulador. Na semana passada, moradores do trecho fizeram um protesto no local reivindicando melhorias.

As populações mais afetadas pelas más condições da rodovia BA-150 são as das comunidades quilombolas de Lagoa do Peixe, Araçá Cariacá, Bebedouro, Nova Batalhinha, Rio das Rãs, Pau D’arco e Parateca, além de três assentamentos de reforma agraria. “Há um racismo institucional, porque na visão deles [dos governos], nós, quilombolas, não temos necessidade de ter uma estrada com condições de tráfego. Várias pessoas já se acidentaram e morreram. Várias precisaram de serviço de saúde e morreram na estrada. Fora a situação de escoamento de produtos, como da agricultura familiar, em que precisam enfrentar a estrada em péssimas condições”, enfatiza Purificação.

O Quilombo Rio das Rãs, por exemplo, que reúne 12 comunidades e foi titulado em 1999 conta com uma unidade de saúde, o que é considerado um problema diante da pandemia. “O médico que ia duas vezes por semana, nem sempre vai. Quem estiver com sintomas da doença ou com outro problema, precisa se deslocar para Bom Jesus, e ainda precisa enfrentar as barreiras sanitárias e os decretos municipais. No caso de Bom Jesus, a prefeitura proibiu o transporte coletivo. As famílias precisam procurar algum familiar com carro particular ou pagar alguém que tenha e aceite fazer o transporte”, detalha o articulador.

Outro problema é a situação da educação na região. A maioria dos professores e servidores do município se desloca de outros locais e precisam fazer esse trajeto também. Os profissionais precisavam sair no domingo à noite ou na segunda-feira bem cedo. Com fechamento das escolas, os estudantes precisam que alguém vá até a cidade para buscar o material do estudo, imprimir e distribuir para as famílias. “Além disso, as comunidades vinham de uma a duas vezes por semana para comercializar seus produtos com os supermercados e em feiras livres. Sabemos da necessidade das barreiras sanitárias e somos a favor, mas deveria ter sido pensado uma condição diferenciada para essas comunidades”, considera Purificação.

O Alma Preta procurou o Governo  do Estado da Bahia para saber se existe previsão de asfaltamento no trecho entre Bom Jesus da Lapa e Malhada. A Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) informou apenas que os “serviços de manutenção” na BA-160, no trecho citado, serão retomados até o mês de setembro, sem especificar quais seriam os serviços de manutenção.

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