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Dados do Ministério da Saúde mostram que negras são 66,4% das mulheres que morreram em 2019 por causas obstétricas diretas; doutora em Saúde Pública diz que racismo faz com que a violência aconteça de forma mais profunda em mulheres negras, pois é uma intersecção do racismo com o sexismo

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Ilustração: Alma Preta 

Licyane Almeida havia acabado de sair de uma consulta médica. Estava triste porque com 37 semanas de gravidez, hipertensa e em meio à pandemia de Covid-19, o novo coronavírus, não havia conseguido um atestado médico para repousar no fim da gravidez. Chorando, ela gravou um vídeo e nunca imaginou que teria a dimensão que ganhou.

O Alma Preta optou por não mostrar as imagens de uma mulher que acabou de passar por uma violência para que ela não seja ainda mais exposta nessa condição. Em vez disso, a reportagem traz a imagem da família da gestante: sua mãe, seu filho e a Emanuelly, que está a caminho, no ensaio fotográfico que ela ganhou (ver mais a baixo).

Até chegar ao momento das fotos com a família, a demonstradora de cosméticos do Rio de Janeiro teve que passar por muitas situações difíceis. A verdade é que ela não tinha que passar, mas esse tipo de situação, caracterizada como violência obstétrica é rotina no Brasil. Segundo o estudo “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, realizado pela Fundação Perseu Abramo, uma em cada quatro mulheres já foi vítima.

Neste caso, trabalhar de segunda a sábado, em pé durante horas e se deslocar de transporte público por mais algumas horas, nas últimas semanas de gravidez e com complicações como hipertensão estava bastante difícil para Licyane. Ela conta que já havia passado por situações desagradáveis com o médico no pré-natal.

Quando relatou uma crise de pressão, o médico disse que não receitaria remédio porque a pressão estava normal durante a consulta. “Passei mal a segunda vez e fui para a maternidade. A médica de lá foi quem deu a receita de remédio para hipertensão”, comenta.

A médica da maternidade insistiu que Licyane deveria ser tratada no local em função do risco. “Quando tive consulta, mostrei a receita e ele disse que não era preciso ter atendimento na maternidade porque eu já estava sendo medicada. No mesmo dia eu passei mal e fui para a maternidade novamente. Relatei para a médica o que havia acontecido e ela fez uma carta de próprio punho ao pré-natal para ele entender a necessidade do meu tratamento”, lembra a gestante, afirmando que ainda assim, o médico não a encaminhou para o tratamento na maternidade.

Nesse período, Licyane teve um problema de pele e não sabia o que era. Ela passou mal, relatou e foi atendida na maternidade. O remédio não estava fazendo efeito e pediram que ela solicitasse do médico um encaminhamento para uma dermatologista. O obstetra disse que não daria porque ela estava medicada, alegando que, às vezes, a pele demorar a reagir. Ela saiu da consulta e ficou chorando. Um rapaz do guichê de atendimento do posto a viu chorando, perguntou a razão, pediu a ficha de atendimento dela e a levou para a dermatologista que resolveu atendê-la, mesmo sem o encaminhamento. Ela foi medicada e os problemas na pele melhoraram. Foi a dermatologista quem viu que o remédio receitado na maternidade para a hipertensão era distribuído gratuitamente no posto onde ela estava fazendo o pré-natal. Licyane estava comprando o medicamento porque o médico não deu a requisição para a retirada.

O dia da última consulta, que resultou no vídeo que viralizou nas redes sociais, foi o pior para ela. A gestante havia apresentado sintomas de Covid-19 e estava de repouso. Como o atestado ia acabar e ela estava com dores, a hipertensão e os incômodos do fim de gravidez, solicitou outro atestado. “Ele sempre teve falas racistas, mas nesse dia percebi que ele estava sendo racista de verdade. Ele ria e debochava de mim falando: se olha, se enxerga, você aguenta! Só está fazendo dramazinho, mas a dor que está sentindo é normal. Nem papel de atestado eu tenho. Eu nem sou obrigado a dar”, relembra Licyane.

Neste dia, ela pediu que ele receitasse de novo os remédios que ela estava tomando para controle da hipertensão e para a pele. “Foi quando ele pediu as receitas, ou seja, eu estou tomando remédios e o meu obstetra sequer havia anotado essas informações. Eu tinha tentado mostrar, mas ele não quis ver”, explica.

A demonstradora tem a vida marcada pela violência obstétrica. Além da hipertensão ter interrompido duas gestações e o filho mais velho ter nascido aos sete meses, uma irmã dela morreu durante o parto. “Minha irmã tinha sonhos, mas foi maltratada no momento do seu parto e morreu. Muitos médicos acham que como a gente é negra, a gente é parideira, que a nossa raça aguenta mais. Quando veem que não é o primeiro filho, aí que maltratam mesmo”, desabafa.

Depois que o vídeo foi postado em uma rede social, várias pessoas se mobilizaram. Uma campanha foi feita, por meio de perfis com grande alcance, como o do engenheiro civil Levi Kaique. “Como era um vídeo dela chorando, a gente achou melhor criar uma nova campanha. Explicando o caso e não a expondo tanto naquela situação de vulnerabilidade”, comenta Kaique.

“Eu fiquei indignado porque ela estava claramente mal, sabe? É uma mulher grávida com pressão alta e durante uma pandemia tendo que ir trabalhar mesmo assim, tendo que apelar para internet para ter um direito básico. Tudo isso por conta do racismo”, acrescenta.

Com o dinheiro arrecadado, Licyane conseguiu providenciar fraldas e outros objetos para a bebê. Ela ainda ganhou ensaio de fotografia e muita ajuda, mas o melhor mesmo foi poder contar com uma médica que a atenda de maneira respeitosa. “Muitas coisas boas aconteceram depois daquele vídeo. Consegui uma médica maravilhosa. Pediu exames que o outro médico nem havia pedido. Ela disse que trataria de mim até depois do parto. Dá até felicidade de ir para a consulta, coisa que antes eu não tinha. Deus realmente me surpreendeu”, conta Licyane, à espera de Emanuelly que deve nascer entre o fim de julho e começo de agosto.

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Licyane, sua mãe, seu filho e, Emanuelly, a bebê que está a caminho. (Foto: Arquivo pessoal)

Violência obstétrica e o viés racial

As violências, sejam físicas, psicológicas ou morais, sofridas pelas mulheres durante o período da gestação, parto, puerpério e também em casos de aborto são definidas como violência obstétrica. Emanuelle Góes, doutora em Saúde Pública e pesquisadora do Centro de Integração de Dados da Fundação Oswaldo Cruz (CIdacs/Fiocruz), na Bahia, afirma que o racismo faz com que a violência obstétrica aconteça de forma mais profunda em mulheres negras, pois é uma intersecção do racismo com o sexismo.

Dados da campanha SUS Sem Racismo, do Ministério da Saúde, de 2014, mostraram que 60% das vítimas de mortalidade materna no país são negras. “As negras são vistas como as que suportam mais dor. As que resistem. Isso faz com que haja uma negligência na atuação profissional, na tomada de decisão em relação à mulher. Muitas vezes, questões que precisam da atuação profissional, seja com médico, enfermeiro ou outro profissional, não ocorre por conta da leitura racista que ocorre com o corpo negro feminino”, explica Emanuelle.

“Boa parte dos estudos mostram impactos diferenciados em relação à violência obstétrica. As negras recebem menos consultas, menos remédio para dor quando necessário, enquanto há uma discussão de excesso de medicalização para as mulheres brancas. As negras experimentam a ausência da intervenção profissional”, complementa a pesquisadora.

O Painel de Monitoramento da Mortalidade Materna, da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, mostra que a situação ao longo dos anos piorou ainda mais. Em 2019, o pais teve o registro de 1.025 óbitos maternos por causas obstétricas diretas, entre mulheres de 10 a 49 anos. Destas, 681 eram negras (563 pardas e 118 pretas), o que representa 66,4% do total.

Houve a morte ainda de 298 brancas, 18 indígenas, uma amarela e 27 óbitos sem informação racial. “As mulheres brancas estão mais expostas às cesáreas, as negras estão expostas a outros tipos de violência que podem levar até mesmo à morte materna”, diz Emanuelle.

Ginecologia e racismo

A história mostra como o racismo pode ter influenciado na Ginecologia. Considerado como o “Pai da Ginecologia”, James Marion Sims foi pioneiro ao realizar a técnica cirúrgica da fístula vesicovaginal. Por seu trabalho, ele teve seu nome nos anais da Medicina e chegou a ter uma estátua, no Central Park, em Nova York.

No entanto, há alguns anos veio à tona que Sims realizava os procedimentos cirúrgicos em mulheres negras escravizadas e sem uso de anestesia. Sua estátua foi retirada em 2018 e deve ser substituída pela da artista Vinnie Bagwell.

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