Atriz foi uma das convidadas do Fórum de Performances Negras, no Rio de Janeiro, e falou sobre desafios e barreiras que enfrenta diariamente no ramo artístico

Texto / Emanuelle Oliveira | Imagem / Divulgação / TV Globo | Edição / Simone Freire

Com o tema sobre transversalidades artísticas, a última mesa de debates do Fórum de Performance Negra contou com relatos importantes para entender o cenário do ramo das artes no país.

Participaram da atividade Danielle Anatólio, Jade Zimbra, Spartakus Santiago e a atriz Juliana Alves, que, especificamente, abordou a temática da mulher preta neste cenário, comentando sobre desafios e barreiras que enfrenta diariamente.

No início de sua fala, ela relatou sobre uma experiência na qual se viu obrigada a interpretar um papel que vai contra sua militância e de quem ela é. Tento recusado o papel, ela se viu obrigada a fazê-lo, uma vez que tinha um contrato a cumprir.

Para ela, esta foi uma das piores experiências que teve enquanto artista. “As pessoas não devem ter noção do quanto isso foi violento e o quanto que eu chorei”, contou. No entanto, ela afirma que esta experiência fez despertar algo que jamais abriria mão, que foi a sede de lutar pela causa do movimento negro.

De acordo com a atriz, há um rótulo que é imposto sobre ela enquanto mulher negra e, por conta disso, recusa certos papeis que vão contra sua própria existência. ‘’A experiência de ter sido chamada para estar aqui com vocês, para mim, é perto do que eu digo ser a maior vitória numa carreira, eu não me vejo nesses espaços de poder, sem poder ter voz. Mesmo que isso me retire algumas campanhas e papeis, esse é o preço maravilhoso que se paga. ‘’ declarou a atriz.

Confira a entrevista com a atriz:

Alma Preta: Como é a jornada da mulher preta nas artes?

Juliana Alves: Como eu falei aqui no Fórum, é uma responsabilidade muito grande. Não dá para esquecer em momento algum quem somos e de onde viemos. Por mais que meu grande objetivo artisticamente seja a versatilidade, a gente sabe que ainda somos muito subordinados por rótulos e, além deles, muitas vezes existem discursos que não são nossos. Eu tenho diversas experiências diferentes nas quais eu amadureci muito, desde frustrações, situações das quais eu me senti muito limitada, até os momentos em que eu utilizei esses sentimentos para me mobilizar e construir novas narrativas.

E falando sobre o mercado de trabalho, como é que foi lidar com a falta de reconhecimento da mulher preta, tendo em vista a enorme desigualdade de gênero que vivemos?

O que mais me indignava era a limitação. Eu era vista como “a negra”. Eu percebia que entre eu e minhas outras amigas atrizes negras, a gente tinha um silêncio sobre os testes. É isso que o racismo faz com a gente, faz a gente achar que só uma poderia estar ali, gerando uma competição. E é proposital mesmo, para a gente não se unir e não sermos as potências que sabemos que somos. Então, essa falta de vagas, de quantitativo, essa limitação como se muitas de nós fosse corromper o que o mercado pretende vender sempre me deixou muito indignada. É um lugar de resistência e de militância, eu não vou me negar a falar coisas que eu sei que são fundamentais para mim, vou continuar buscando através da minha militância, tenho esse espaço que me foi concedido e eu vou ocupar.

Qual a dica e mensagem que você poderia dar às mulheres pretas que desejam ingressar na carreira artística?

O mais importante é não acreditar no que o mercado manda para gente como mensagem, não acreditar na mensagem da limitação de espaço, não acreditar que temos menos valor, não acreditar que a gente se expressar na nossa potência e na nossa essência é algo ruim. Não deixarem menosprezar e tornarem piada a nossa cultura ou dizer que algum comportamento nosso possa ser vulgar. Se permitir estudar muito e pesquisar. Estar junto dos artistas negros. Estar junto é fundamental, a gente se ouvindo, se fortalece. Seguir da sua maneira, sempre buscando se fortalecer e resgatar suas raízes e nunca se permitir se limitar, o lugar que você pensa que pode estar vai um pouco além. Quando conseguir vislumbrar esse espaço, pode acreditar que esse é o seu lugar.

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