Com histórico de luta pelos secundaristas, Marcelo Rocha quer adentrar a Assembleia Legislativa para lutar pela educação e pelo povo negro do Estado

Texto / Thalyta Martins
Imagem / Jorge Ferreira / Mídia Ninja

A Assembleia Legislativa conta com 94 deputados estaduais para representar a população do estado de São Paulo. Desses, apenas quatro são negros. No estado, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia, o IBGE, 37% da população é negra e indígena. No Brasil, o número cresce para 54% da população.

Para representar boa parte dos moradores de São Paulo, Marcelo Rocha, estudante de ciências sociais, ativista em educação e negritude, está se candidatando ao cargo de deputado estadual pelo PSOL. Se eleito, assume o mandato de quatro anos em março de 2019. Ele conversou com a equipe de reportagem do Alma Preta sobre isso.

“Eu estou aqui porque acredito que a juventude negra tem voz e capacidade de fazer política, e eu não quero ver os meus somente dentro da vala, dentro dos cemitérios, mas eu quero ver os meus propondo e criando política”, disse.

Início da carreira política

Marcelo teve o primeiro contato com política dentro da igreja, quando foi convidado a participar do Conselho Municipal de Juventude de Mauá para levar os anseios da juventude protestante do município. Como seminarista, ele, depois do convite, entrou para o órgão como conselheiro municipal de juventude de Mauá. Nesse cargo, articulou as ocupações estudantis e tornou-se representante de educação no Conselho Nacional do Ministério Público, na Defensoria Pública e foi convidado como voz nacional dos estudantes junto com a Ana Júlia Ribeiro na Relatoria da ONU.

“A minha escola, a Estadual Maria Elena Colonia, foi a primeira escola ocupada da cidade. A gente criou uma rede e começou a circular essa potências política e ocupar outras escolas aqui de Mauá”, conta.

Depois das ocupações, em 2016, o jovem participou da ocupação do Centro Paula Souza de Mauá, uma escola modelo das ETECs e das FATECs. “Quando nós a ocupamos, conseguimos expandir essa rede de comunicação, de ativismo estudantil, e decidi que queria lutar pela educação, que eu queria muito mais do que ir pra rua e criticar, eu queria criar um novo modelo, pensar e estudar sobre isso”, explicou.

Ele é um dos fundadores do Coletivo Negro Secundarista, que fez formações sobre identidade negra com adolescentes, e compõe um pacto com o Black Lives Matter, dos EUA.

Hoje, Marcelo estuda ciências sociais na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), é fotojornalista, colunista na Revista TRENDR e na Mídia Ninja, e atua junto com a Universidade de Cambridge na elaboração da construção de projeto educacional para o país ser pensado a partir dos estudantes.

“Comecei a estar nesses espaços para aprender e levar pautas do movimento estudantil e pautas da educação.”

O jovem é um dos idealizadores do Movimento Nós, que foi criado no início de 2018 e que busca renovação política. Segundo ele, a intenção é incentivar pessoas negras, mulheres, LGBT e todas aquelas que representam 99% da população para começar a construir candidaturas, programas e políticas públicas direcionadas para esses segmentos.

Imagem: Arquivo pessoal

Se não for eu, quem eu quero ver lá?

Marcelo Rocha diz ter escolhido o PSOL como chapa por acreditar que o partido tem o melhor conjunto de renovação política do Brasil, principalmente no âmbito da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. “O conjunto de candidatos e candidatas LGBT, negros, mulheres, e principalmente pessoas que não estão conformadas com a política antiga, pessoas que estão querendo fazer uma nova política, está concentrado no PSOL hoje. Eu sei que se eu não entrar lá, vou ser representado por alguém que está na mesma chapa que eu.”, falou.

O objetivo, se for eleito, é lutar pelo ensino médio, fiscalizar o Governo do Estado de São Paulo e expandir a rede de apoio mútuo dos movimentos sociais.

“Uma das coisas que me impulsionou muito a me candidatar é porque a gente viu a realidade da Assembleia Legislativa quando estava lutando pela CPI da Merenda junto com o movimento secundarista. Eles estavam mais interessados em fazer a foto e ir embora”, desabafa. Segundo ele, a pauta relativa à educação está distante dos políticos e, na prática, é só falada em época de campanha.

O jovem atribui a isso à importância de ocupar esses espaços de poder e tomada de decisões. A candidatura é um apelo para os jovens. “A gente tem 5 milhões de eleitores de 16 a 18 anos que têm o voto optativo e não votam porque já têm descrédito na política. Minha mãe é faxineira e meu pai é caminhoneiro. Eu não estou recebendo herança política do meu pai para ganhar 100 mil votos e ser eleito.”

Referências

Marcelo conta que em visita à Ocupação Abdias do Nascimento, ele ficou impressionado ao ver um vídeo do Abdias Nascimento chamando os orixás no Senado. “Era lindo! As nossas referências estão lá, mas falta ver a juventude”, disse.

O candidato apontou também Leci Brandão e Marielle Franco como referências. “O meu povo que eu vejo nesses lugares, fazendo a diferença e mudando a sociedade, dá um gás para falar que ‘o povo negro pode!’”

“Essa não é a candidatura do Marcelo Rocha. Essa é a candidatura do povo preto e dos estudantes. Quero construir um projeto com todo esse movimento e com todas essas pessoas”, completou.

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