Emmet Till tinha 14 anos quando foi brutalmente executado, em 1955, por motivo torpe resultante de racismo estrutural; nova versão de depoimento de testemunha motivou reabertura do caso

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Divulgação

As investigações sobre a execução do jovem Emmett Till, 14, foram retomadas pelo Departamento de Justiça dos EUA.

Em 1955, Till, que morava em Chicago e havia viajado ao Mississipi durante as férias de Verão – no Hemisfério Norte – para visitar parentes. Todavia, durante esse período, ele foi sequestrado e torturado até a morte por Roy Bryant e seu meio-irmão, J.W. Milan.

A reabertura do caso ocorreu em março deste ano, mas obteve destaque apenas esta semana, após a Associated Press ter noticiado o fato. Vale ressaltar que a morte de Till havia sido investigada em 2004, quando seus restos mortais foram exumados, mas o caso foi arquivado por ter prescrito.

O caso

A brutalidade dos irmãos que executaram Till teve motivação racial e teve como estopim uma mentira. Carolyn Donham, que tinha 21 anos à época, era balconista de estabelecimento ao qual Till havia ido para comprar doces. De acordo com Donham, o garoto a havia assediado em âmbitos físico e verbal – amigos e primos de Emmett o haviam desafiado a falar com ela e o garoto o fez, mas sem o caráter violento que havia sido relatado.

O episódio enfureceu Bryant, proprietário do estabelecimento e marido de Carolyn Donham, que sequestrou o garoto com o auxílio de Milan quatro dias após o fato. Os dois irmãos espancaram Till, atiraram em sua cabeça e jogaram o corpo dele no rio – o cadáver seria encontrado três dias após a tragédia.

O modo como Bryant e Milan torturaram Till deixaram o rosto do garoto desfigurado e o corpo mutilado. A morte do adolescente foi um dos estopins que motivaram o início do movimento de direitos civis nos EUA.

Julgamento e reviravolta

Os irmãos autores da execução foram indiciados pelo crime e julgados por júri composto por homens brancos – coincidência ou não, foram rapidamente absolvidos.

À época, os dois alegaram que pretendiam dar um susto em Emmett Till e “colocá-lo em seu lugar”, mas o modo insolente como ele agiu, de acordo com a dupla, foi determinante para o garoto ser executado.

J.W. Milan morreu em 1980 e Roy Bryant faleceu em 1994. Ambos viveram até o fim de seus respectivos dias com suas trajetórias ilesas apesar do crime que cometeram.

Em 2008, 53 anos após a tragédia, Carolyn Donham confessou que a sua versão para o fato era falsa. De acordo com ela, que hoje tem 83 anos e vive na Carolina do Norte, o assédio não ocorreu e “nada do que aquele menino fez jamais poderia justificar o que aconteceu.”

O depoimento de Donham foi incluído no livro “The Blood of Emmett Till” (“O Sangue de Emmett Till”, em tradução livre do inglês), escrito por Thimothy Tyson e lançado em 2017.

De acordo com familiares de Emmett Till, a reabertura do caso é "maravilhosa". Contudo, eles não deram mais declarações sobre o caso para não prejudicar a investigação.

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