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O Brasil visto nos compartilhamentos pelas redes sociais é o da divisão pelos privilégios; nesta semana circularam na internet dois novos vídeos de casos de violência racial contra jovens negros

Texto: Juca Guimarães | Imagem: Reprodução

Dois vídeos que circulam na internet desde a noite da quinta (6) têm como protagonistas jovens que atendem pelo nome de Matheus e que são entregadores de aplicativos, uma atividade marcada pela ausência de direitos, precariedade e preconceitos. Em contraponto, nos dois vídeos estão os representantes do chamado privilégio de classe, de raça e de território.

No primeiro vídeo, o entregador Matheus ouve de um homem branco que ele tem inveja das condições de vida. A humilhação é pública e mesmo descontextualizada e sem referências é óbvio que o fundamento da fala do morador é para tentar desqualificar o rapaz. A calma e a altivez do entregador foram importantes para que a cena se evoluísse para agressões físicas.

“Você tem inveja disso daqui, das famílias daqui, você tem inveja disso aqui”, diz energeticamente o morador e aponta para o próprio braço, destacando que é um homem branco.

Aos poucos, e em meio às ameaças, o entregador conseguiu rebater algumas das agressões do morador.

Infelizmente, o segundo Matheus não teve tempo ou condições de se defender. Ele foi derrubado, arrastado e teve uma arma apontada para a cabeça. Tudo isso porque teria sido confundido com um ladrão. Ele estava dentro de uma loja de departamentos, em um shopping do Rio de Janeiro, tentando trocar o relógio que tinha comprado para o Dia dos Pais.

Os homens que agrediram Matheus dentro do Ilha Plaza Shopping não usavam uniforme ou qualquer tipo de identificação. Tanto o shopping quanto a loja afirmam que a dupla não é contratada do estabelecimento.

Em entrevista para a Globo News, Matheus disse que foi fotografado pelos dois homens antes de começarem as agressões. “Eles falaram que eu era suspeito de furto. Não entendi, daí começaram a me segurar e me balançar. Um sacou a pistola e eu achei que ia morrer”, afirmou.

Matheus teve sagacidade suficiente para fazer barulho e chamar a atenção de outros frequentadores que começaram a gravar a agressão. As cenas mostram que um segurança uniformizado do shopping assiste a tudo sem intervir.

A cena de um jovem negro imobilizado no chão sendo agredido por dois homens armados, na rua ou num shopping, não choca e nem causa, no mínimo, a estranheza que deveria gerar.

Após a viralização das imagens, a loja e o shopping disseram que vão colaborar para que sejam esclarecidos os fatos. No entanto, não se manifestaram sobre o que vão fazer para que casos como o de Matheus não se repitam.

O morador branco não foi identificado, mas com uma boa orientação de um advogado caro deverá fazer um vídeo de desculpas, se dizendo ameaçado e perseguido. Talvez ele diga que não é racista e que não tinha essa intenção. Afinal de contas, quem decide o que é racismo no Brasil nunca é a vítima. O privilégio do julgamento e da decisão é branco.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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