Ativistas da luta antirracista reafirmam o apoio ao Vai-Vai e a importância da instituição, independente da divisão no carnaval paulista

Texto / Pedro Borges
Imagem / Divulgação

O rebaixamento da Vai-Vai para a divisão de acesso do carnaval de São Paulo, com a última posição no grupo especial, gerou revolta e dor em parte da comunidade negra e do samba paulista.

Um grupo de intelectuais negros publicou uma carta em apoio à escola, destacando o importante papel da agremiação para a continuidade das tradições da comunidade negra em São Paulo.

“Em seus 89 anos de existência, o Vai-Vai sagrou-se como a grande campeã do carnaval de São Paulo, tendo conquistado o título por 15 vezes. Mas o Vai-Vai é, acima de tudo, uma escola de samba no sentido mais nobre da palavra: lá se aprende o samba; lá o samba é disciplina, é respeito, é capoeira e é culto aos Orixás e à ancestralidade africana”, diz o texto.

Maior campeã do carnaval paulista, a Vai-Vai apresentou na avenida do samba o enredo “Quilombo do Futuro”, com exaltação à luta do povo negro brasileiro e com um discurso afrofuturista.

Na carta, os ativistas ressaltam o amor à escola e a afirmam continuar próximos à agremiação independente da divisão ocupada. O texto também destaca importantes nomes da história da escola.

“Onde o Vai-Vai estiver, nós estaremos. Onde o Vai-Vai desfilar nós desfilaremos. Quando os componentes cantarem o samba nós cantaremos também. Se toparmos com a tristeza, não deixaremos de chorar; mas na alegria, não haverá lugar em que nossa folia não será ouvida. Cantaremos e dançaremos para saudar nossos(as) ancentrais: Benedito Sardinha, Livinho, Lorito, Fredericão, Pé Rachado, Chiclé, Dona China, Dona Odete, Olímpia, Sandrinha, Cleusa Rossi, Cleuzi Penteado, Geraldo Filme e tantos(as) outros(as). Saudaremos, também cantando e dançando, aqueles e aquelas que ainda virão”.

Assinam o manifesto nomes como Silvio Almeida, presidente do Instituto Luiz Gama, Djamila Ribeiro, filósofa, Erica Malunguinho, deputada estadual (PSOL-SP), entre outros.

Leia o texto na integra:

O Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Vai-Vai (Escola de Samba Vai-Vai )foi fundado em primeiro de Janeiro de 1930. Desde então tem sido importante símbolo de resistência, luta, inovação e altivez do povo negro paulista.

Em seus 89 anos de existência, o Vai-Vai sagrou-se como a grande campeã do carnaval de São Paulo, tendo conquistado o título por 15 vezes. Mas o Vai-Vai é, acima de tudo, uma escola de samba no sentido mais nobre da palavra: lá se aprende o samba; lá o samba é disciplina, é respeito, é capoeira e é culto aos Orixás e à ancestralidade africana.

Neste momento reafirmamos nosso respeito e nosso amor pelo Vai-Vai. Assim como a escravidão e o racismo não conseguiram definir a nossa humanidade, um concurso, por mais respeitável e marcado pela lisura que seja, não define uma instituição com o peso histórico e a tradição do Vai-Vai. Um resultado adverso não apaga o fato de que se trata de uma escola de samba que, localizada no coração de São Paulo, genuinamente se mantém conectada com sua identidade negra, não apenas na escolha dos enredos, mas nos processos de decisão sobre os rumos da escola.

Onde o Vai-Vai estiver, nós estaremos. Onde o Vai-Vai desfilar nós desfilaremos. Quando os componentes cantarem o samba nós cantaremos também. Se toparmos com a tristeza, não deixaremos de chorar; mas na alegria, não haverá lugar em que nossa folia não será ouvida. Cantaremos e dançaremos para saudar nossos(as) ancentrais: Benedito Sardinha, Livinho, Lorito, Fredericão, Pé Rachado, Chiclé, Dona China, Dona Odete, Olímpia, Sandrinha, Cleusa Rossi, Cleuzi Penteado, Geraldo Filme e tantos(as) outros(as). Saudaremos, também cantando e dançando, aqueles e aquelas que ainda virão.

O Quilombo do Futuro já existe! Com o Vai-Vai, o samba sempre vai amanhecer, porque o território do Bixiga é nosso quilombo, não importa o que aconteça. Quem duvida, vai no Bixiga pra ver. E pode ter certeza que estaremos lá!

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