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Isolamento social fez com que consumo por postagens na internet aumentasse e mais pessoas passassem a produzir conteúdos

Texto / Guilherme Soares Dias | Edição / Simone Freire | Imagem /Divulgação

Os influenciadores digitais estão trabalhando como nunca nesse período de isolamento social diante da pandemia da Covid-19, o novo coronavírus. Com mais gente em casa, as pessoas têm mais tempo de consumir. Mas há também mais profissionais investindo em conteúdo para internet. Entre as marcas, no entanto, a garantia é de continuidade dos contratos que já estavam assinados, mais especulação, maior tempo para pagar as campanhas e redução dos contratos – sinais do baque econômico vivido pelo momento atual.

A criadora de conteúdo, empresária e apresentadora de TV Ana Paula Xongani conta que a primeira reação foi ficar em silêncio nas redes por que achou que não tinha nada mais importante do que as mortes provocadas pela Covid-19. “Não sou médica e não tinha o que compartilhar. Além disso, tenho um perfil de sumir quando as coisas estão ruins. Tenho dificuldades de compartilhar problemas. Quem me segue sabe disso”, afirma.

Quando o marido precisou ir para Moçambique para acompanhar o enterro do pai e quase não conseguiu retornar, ela precisou passar por um período de isolamento intrafamiliar. “Passei a produzir conteúdo sobre isso”, diz. Depois fiz uma única live com uma biomédica para entender como ficar em casa. Com o passar dos dias, voltei a produzir conteúdos sobre os temas que costumo falar que, em geral, são família, empreendedorismo e autocuidado.

 
 
 
 
 
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Uma publicação compartilhada por Ana Paula Xongani (@anapaulaxongani) em A dificuldade hoje, segundo ela, é lidar com as várias ideias que possui, uma vez que criadores de conteúdo profissionais já trabalham em casa, utilizando as tecnologias que têm em mãos. “Ficar em casa é o menos doloroso. Já estou no meu ambiente de trabalho e tenho mais tempo para produzir”, considera.

Xongani conta que os contratos que tinha assinado eram anuais e não foram interrompidos, precisou apenas adaptar os conteúdos para o momento. Mas ela afirma que aumentou a especulação no mercado. “As marcas tiveram que se reinventar e criar cenários diferentes. Tivemos que produzir muitos orçamentos de diferentes cenários, mas com baixa aprovação”, afirma.

Além disso, apesar da orientação do Youpix - plataforma digital focada em discutir a cultura da internet - de que os produtores de conteúdo mantivessem o valor dos trabalhos, os preços praticados no mercado passaram a ser menores. “Isso gera abalo no ecossistema na produção de conteúdo”, afirma a empreendedora, mesmo constatando que a internet, plataforma que usam para divulgar os trabalhos, não parou e ganhou impulso com o momento.

“As marcas direcionaram seus conteúdos para a internet. Há pessoas novas que entraram para o mundo da criação digital: professores, atores, cantores, médicos, enfermeiras, que passam a ver isso como uma alternativa de trabalho. Isso faz com que haja também divisão de orçamento para novas áreas”, afirma.

Mais trabalho

O cenário com mais produtores de conteúdo provoca maior reconhecimento de quem já estava no mercado, mas também sobrecarragamento das mídias, gerando, por exemplo, queda de lives. “Em meio a tudo isso, há aumento da base de seguidores porque as pessoas tão consumindo mais”, afirma. Em três meses, Xongani ganhou 14% a mais de seguidores no Instagram. “É um percentual mais alto que períodos normais. Isso provoca novas conexões, novas marcas, novas experiências e mais criação”, considera.

Já o modelo e criador de conteúdo Matheus Pasquarelli afirma que a responsabilidade durante a quarentena é maior, uma vez que o público está mais livre. “As pessoas querem consumir mais conteúdo, de uma forma leve. É tanta informação ruim, que temos essa necessidade”, ressalta. A produção ocorre em meio ao autocuidado, uma vez que a pressão desse momento também atinge quem está do outro lado da tela. “Temos que cuidar do nosso emocional, da nossa saúde mental. As pessoas querem absorver o que a gente produz”, afirma.

 
 
 
 
 
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Isso significa que Matheus alterna as postagens com períodos de descanso em que fica off das redes. “Esse equilíbrio é importante para me sentir saudável e respirar. Dentro da internet a gente se cobra bastante de produzir conteúdo, mas é preciso descansar para passar uma mensagem legal”, considera.

De acordo com ele, os conteúdos que produzia já eram 100% digitais e passou a investir mais nos conteúdos, ajustando a iluminação das fotos e pensando na qualidade do que posta. “Tem surgido oportunidades que tem me deixado feliz, mas os prazos de pagamento aumentaram demais. Antes era de 30 dias e agora é de 60 dias para cima. Tem que se reformular e entrar em estratégia para se organizar nos pagamentos que chegaram. Se você não tem contrato com marca", pondera.

Cenário

Exige responsabilidade no conteúdo, na forma que fala... está todo mundo muito afetado. Não tem ciclo maior, as oportunidades foram reduzidas, marcas suspenderam contrato, projetos que iriam ser lançados foram interrompidos. Há dificuldade de fechar novas parcerias.

Mas quem vê likes, não visualiza a conta bancária ou a real situação de quem está do outro lado da tela. Foi o que tentou alertar a cantora Bia Ferreira, que postou um vídeo no fim de semana no Instagram em que conta a situação pela qual passa.

Ela é autora do vídeo “Cota não é esmola”, que tem mais de 10 milhões de visualizações no Youtube e conta que ela e companheira Doralyce, também cantora, estão passando por um momento delicado. “As pessoas vêm me pedir doação, para ajudar e não perguntam se eu tenho o que comer. Precisamos parar com essa mania de gostar de famoso e gostar de artista”, afirma no vídeo.

 
 
 
 
 
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Uma publicação compartilhada por BIA FERREIRA (@igrejalesbiteriana) em

Bia lembra que até dois anos atrás era uma artista de rua e que não enriqueceu com a música. O fato de ser uma artista com posicionado político, faz com que muitas marcas não a contratem, além de fazer muitas apresentações “pela causa”.

O começo da pandemia agravou a situação. Os shows passaram a não ocorrer e a artista ficou isolada no interior de São Paulo, sem dinheiro para voltar ao Rio. “Preciso fechar o apartamento que morava e trazer minha mudança. Não sei como fazer algo dessa magnitude nesse momento”, afirma.

O apelo rendeu uma mobilização de outras pessoas. Ela ganhou um computador e nesta quarta-feira (20), às 20h, a cantora vai fazer uma live no Instagram do Potências Negras. Bia começa a tentar contornar a situação adversa. “Tenho dificuldade de me expor, mas foi preciso. Quero poder continuar fazendo meu trabalho e receber por ele”, afirma.

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Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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