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A 17ª edição da Marcha da Consciência Negra foi marcada pela revolta com a morte de João Alberto, agredido e asfixiado por dois seguranças do supermercado Carrefour; manifestantes também repudiaram fala do vice-presidente do país sobre o caso

Texto: Juca Guimarães e Pedro Borges I Edição: Nataly Simões I Imagem: Yago Rodrigues

Neste 20 de novembro, cerca de 2.500 pessoas foram até a frente do Masp (Museu de Arte de São Paulo), na Avenida Paulista, para participar da 17ª edição da Marcha da Consciência Negra. O início do ato pacífico foi marcado por demonstrações de indignação contra o racismo e a morte do soldador João Alberto Silveira Silveira Freitas, o Beto, de 40 anos, na noite passada, em Porto Alegre (RS), agredido e asfixiado por dois seguranças da rede de supermercados Carrefour.

“São os nossos corpos que continuam a ser executados pelo Estado genocida e pelas empresas privadas de segurança, como foi o caso do Beto, morto no Carrefour”, diz Julio Cesar de Andrade, do mandato coletivo Quilombo Periférico.

Andrade, que toma posse no dia 1º de janeiro com os outros quatro integrantes do mandato coletivo, salienta que o caso do Carrefour não é isolado, pois o racismo faz vítimas diariamente.

“O tempo todo a gente é morto. Quando não é na bala, é no epistemicídio [apagamento da história e da ancestralidade]. É na ausência de investimento educacional, na falta de hospital nas periferias. É um momento de indignação”, comenta.

As imagens do Beto sendo morto, com as pessoas filmando, sem que ninguém ajudar a socorrê-lo, causaram revolta e foram relembradas desde o início da marcha. “Moramos em um país racista e é impossível não se comover com as situações que acontecem. Se a gente não sair de casa para protestar, a coisa não vai melhorar”, avalia a empresária Daiane Cristina Souza, 27 anos, moradora de Itapecerica da Serra, na região metropolitana de São Paulo.

Fala do vice-presidente Mourão

Outro ponto de indignação entre os manifestantes foi a declaração dada mais cedo pelo vice-presidente da República, Hamilton Mourão. Ao comentar sobre o crime, Mourão disse que não era racismo porque “isso não existe no Brasil”.

“As palavras do vice-presidente negando a existência do racismo, em um 20 de novembro, após a morte brutal de um homem negro que sensibilzou todo país, é a senha para que o povo negro vá às ruas e deixe de responder só com palavras. Nós nos organizamos politicamente, conquistamos avanços institucionais, mas este assassinato brutal é a prova concreta de que os limites são muitos”, pontua Douglas Belchior, da Uneafro Brasil e da Coalizão Negra por Direitos.

Os efeitos da pandemia da Covid-19 também foram lembrados pelos manifestantes. “A maioria das mortes na pandemia do coronavírus no Brasil são de pessoas negras. E são mortes fruto do descaso de um governo conservador de extrema direita”, considera Flávio Jorge, integrante da CONEN (Coordenação Nacional de Entidades Negras).

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Manifestantes em frente ao Masp. Foto: Yago Rodrigues/Alma Preta

Pela primeira em 17 anos de Marcha da Consciência Negra, não foi possível a concentração de manifestantes no vão livre do MASP. O acesso ao local estava bloqueado por grades.

Questionada pelo Alma Preta, a administração do museu afirmou que é necessário fechar o vão livre em dias de grande concentração de pessoas por conta da estrutura do museu.

“O vão é uma laje e por conta das constantes aglomerações que acontecem por lá, começamos a nos deparar com problemas de estrutura que comprometem a segurança do museu e de quem está dentro dele ou em cima do vão. Por conta disso, a própria GCM [Guarda Civil Municipal] auxilia no fechamento do vão que, infelizmente, não pode mais receber muitas pessoas de uma só vez. Isso tem acontecido em todos os grandes eventos e manifestações”, diz comunicado enviado à reportagem.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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