A seleção de futebol da França é um termômetro da relação entre o país e os imigrantes. A presença de sujeitos negros e árabes, hoje problematizada, já foi descrita como a vitória do multiculturalismo na edição de 1998

Texto / Márcio Farias e Pedro Borges
Imagem / CNN

A seleção francesa, atual campeã mundial, tem como seus destaques os jogadores Kylian Mbappé, Paul Pogba, Antoine Griezmann, Blaise Matuidi, N'Golo Kanté, Samuel Umtiti e o goleiro e capitão Hugo Lloris. Entre os sete, apenas Lloris é branco e nasceu na França, assim como os pais. Griezmann é branco, nascido na França e tem ascendência portuguesa e alemã, enquanto os demais são negros, filhos de imigrantes ou são eles mesmos imigrantes.

As redes sociais e a opinião pública foram tomadas por debates sobre o caráter “francês” da atual campeã mundial, as políticas de imigração adotadas pelo governo de Emmanuel Macron, a violência sofrida pela comunidade negra no país e o oportunismo da branquitude e do capitalismo. Outros questionaram também a própria seleção brasileira, composta por maioria afrodescendente.

Para compreender este cenário, faz-se necessário retomar o processo de colonização francês no território africano e as características dos fluxos migratórios moderno, do eixo Sul do mundo para o Norte, em especial para a França após a década de 1970.

Apesar de menos destacada do que Portugal e Espanha, a França também teve presença significativa em ilhas da América Central, como o Haiti, Guiana Francesa e Martinica, países que, como o Brasil, utilizaram força de trabalho negra e escravizada para a produção agrária.

A França foi também um dos principais agentes no processo de colonização do continente africano. A presença mais intensa no continente ocorre depois da Conferência de Berlim, entre 1894 e 1895, quando as nações europeias partilharam o continente africano. O pedaço destinado aos franceses foi tão grande que hoje engloba os seguintes países e parte deles: Senegal, Mali, Burkina Faso, Níger, Costa do Marfim, Congo, Gabão, Chade, Camarões, Ubangui-Char e Madagascar.

A imigração para a Europa já acontecia destas colônias e ex-colônias, em menor grau, para países como a França, já nas primeiras décadas do século XX. Uma das causas, permanente para se explicar um processo de imigração, é o histórico desigual de desenvolvimento do capitalismo, que constrói países sem uma acumulação própria e com mercados internos frágeis.

Este intercâmbio a médio prazo entre França, África e América Central levou ao país três jovens fundamentais para compreender o processo: Aimé Césare, da Martinica, Léopold Sédar Senghor, de Senegal, e Léon Damas, da Guiana Francesa.

São estes jovens que, na posição de estudantes na França, fundam em 1935 o movimento estético, cultural e político chamado de “Négritude”, para construir identidade negra positiva e questionar os valores depositados sobre os diferentes grupos raciais. É interessante refletir que um dos mais relevantes movimentos de negros no enfrentamento ao racismo no século XX surge justamente do processo de migração.

Anos mais tarde, entre 1950 e 1970, o capitalismo viveu o seu período de ouro e, pressionado pela disputa com o socialismo, criou o Estado de Bem-Estar Social, que garantiu melhorias nas condições de vida dos trabalhadores do centro do capitalismo.

Na França, porém, o racismo e a xenofobia transformaram-se na principal barreira a ser enfrentada pelos imigrantes negros para conquistarem a cidadania francesa e acessarem os serviços públicos, ou seja, alcançarem o Estado de Bem-Estar Social

Estes são alguns elementos que instigam a tensão entre os “cidadãos natos”, os sujeitos brancos que ocupam os melhores postos de emprego, pautados na ideia de “supremacia nacional”, e os trabalhadores imigrantes, de maioria negra ou árabe, que assumem os postos mais precarizados.

Após as duas gerações campeãs do mundo, a melhor seleção francesa, que é uma das mais badaladas da história, é a semifinalista de 1986, com craques como Michel Platini. O perfil daquela equipe condizia com o momento da época, de barreiras aos imigrantes, e que gerou um time composto majoritariamente por brancos.

A tensão se arrasta e ganha um importante episódio em 1997, quando estudantes franceses se rebelam e passam a exigir a cidadania plena para os imigrantes em um país que carrega no seu histórico a ideia da negritude.

Na Copa de 1998, sediada na França, a equipe já é composta por uma maioria de imigrantes. Esses eram os casos de Zinédine Zidane, descendente de argelinos, e Patrick Vieira, nascido em Senegal. A seleção assume naquele momento o tom de país “multicultural”.

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(Foto: Associated Press)

A França daquela época precisava de imigrantes para cumprir com funções trabalhistas que os europeus não queriam exercer. Acrescenta-se, para essa situação, uma população europeia cada vez mais idosa e com taxa de natalidade muito baixa, o que torna ainda mais latente a necessidade por imigrantes.

A crise de 2008 abala o mundo e, principalmente, as economias estadunidense e europeia. Diante de maior disputa por empregos, os franceses passam a almejar, por necessidade, as profissões que antes eram desempenhadas pelos imigrantes. O imigrante volta a ser visto como problema.

A tensão segue e em 2010 ocorrem ataques promovidos por fundamentalistas islâmicos na França, como resposta à maior repressão sobre os imigrantes árabes e africanos. A nova direita ganha força na Europa e figuras como Marine Le Pen, com discursos contra a imigração, crescem.

Na Copa de 2010, na África do Sul, a equipe passou por uma série de problemas internos envolvendo alguns dos principais atletas do time, como o lateral e capitão Patrice Evra, de origem senegalesa. A equipe foi eliminada de maneira precoce e após o episódio, cerca de 30 torcedores invadiram a sede da Federação Francesa de Futebol (FFF) e pediram a não convocação de atletas “pretos e muçulmanos”.

Mesmo ainda sob os reflexos da crise econômica, a vitória na Copa de 2018 não gerará manifestações de ódio contra a população negra e árabe. A conquista abre a possibilidade de descrever todos como “franceses”, mesmo que perdurem o cotidiano de violência nas comunidades negras da França e o pedido por política anti-imigratória, racista e xenófoba.

Se derrotados, de maneira também precoce, como ocorreu em 2010, provavelmente não seriam amados e idolatrados.

Mesmo com diferentes formas de tratamentos para a solicitação de um passaporte, quando se compara um jogador de alto nível ou empresário a um trabalhador sem formação, esse é o limite de adoração do negro em sociedades marcadas pelo racismo.

Apesar de todas as singularidades, vale recordar a frase de Romelu Lukaku, atacante da Bélgica: “quando as coisas vão bem, eles me chamam de atacante belga. Quando não correm bem, sou o atacante belga descendente de congoleses."

A discussão vale também para os atletas brasileiros. Neymar, idolatrado e amado antes do torneio, rapidamente se tornou chacota, piada e odiado em âmbitos nacional e mundial. Gabriel Jesus, exaltado como craque do Jardim Peri, zona Norte de São Paulo, hoje é ordenado, em rede nacional, a voltar de onde veio. Fernandinho, astro do Manchester City (ING), não ficou atrás e depois da derrota recebeu ofensas racistas.

Todas estas são demonstrações de que, independente do país ou da condição social, nenhum negro está protegido do racismo.

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