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Texto: Ana Cláudia Correa, Leonardo Assumpção, Nayara dos Santos, Pedro Borges  / Edição de Imagem: Vinicius de Almeida

As mensagens prometiam repressão aos estudantes negros, aos LGBTs, às mulheres e aos cotistas

Na última noite de sábado, 2 de julho, um estudante negro e LGBTT+ da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi encontrado morto com sinais de espancamento no Campus Fundão, zona norte da cidade. O jovem, nascido em Belém (PA), morava no alojamento da UFRJ e cursava Letras.

Amigos próximos dizem que o jovem reclamava de ameaças dentro e fora do campus e que provavelmente o crime não foi praticado por uma única pessoa. O corpo do estudante foi encontro às margens da Baia de Guanabara.

Em nota publicada nas redes sociais, o Coletivo Negro Carolina de Jesus da UFRJ destacou o clima de insegurança geral a que os universitários negros estão submetidos. A mensagem recorda os números do mapa da violência publicado pela UNESCO no ano de 2011. De acordo com os dados, no ano de 1997, o índice de homicídios era de 30 em 100 mil jovens; no ano de 2011 o número cresceu para 52. O mapa traça ainda o perfil racial desses jovens assassinados, demonstrando que os homicídios de jovens negros são 250% maior do que o de jovens brancos.

A violência e o clima de insegurança também estão presentes na universidade. Em 20 de maio de 2016, o Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (SIGA), canal em que a universidade envia questionários e mensagens institucionais aos alunos, foi hackeado. Dele partiu um e-mail com ameaças e um aviso de caça a alunos cotistas e bolsistas da UFRJ. “Sabemos a vida que vocês levam de baladas, drogas e promiscuidade. Tomem cuidado, observamos tudo e vamos contar tudo. Vamos começar por um alun@ que se diz minoria e oprimido por ser homossexual. (…) Sabem de quem eu estou falando? (…), denigre a sua própria família e amigos, se acha afrodescendente e renega a sua educação cristã (…). Não vamos ficar sustentando vocês para que vocês fumem seus baseadinhos”.

No dia 11 de maio, outra mensagem com identificação anônima. Jovens que diziam conhecer os estudantes envolvidos em movimentos sociais fizeram a seguinte ameaça. “Conhecemos vocês, estamos nos CAs, DCEs e instituições de Ensino e Pesquisa. Nós somos seus amigos, crunch, peguetes, ficantes, good vibes. Estamos infiltrados!”.

Reitoria

Em nota publicada, a UFRJ se compromete a prestar solidariedade à família, aos estudantes e a colaborar com as investigações. “Com profundo pesar, comunicamos a morte de Diego Vieira Machado, estudante do curso de letras da UFRJ. A Reitoria se junta aos amigos e familiares do estudante neste momento de dor, e informa que acompanhará de perto as investigações sobre o caso junto às autoridades policiais”.

Em resposta, o Coletivo exigiu um dia de luto oficial e que esse momento “seja aproveitado para a formulação de ações concretas em direção à plena segurança de todos os perfis que compõe a comunidade universitária”. No mesmo dia, a universidade decretou 3 dias de luto, mas sem a suspensão de suas atividades.

“Apesar do reconhecimento público, as ações da universidade diante do ocorrido não podem limitar-se ao simbolismo de 3 dias de luto. Medidas efetivas e ações concretas são necessárias para que casos como esse e tantas outras violações permeadas pelo racismo e reduzidas a meras opressões deixem de fazer parte do cotidiano negro dentro da universidade, afim de que outros casos de violação física, emocional e psicológica a corpos negros não sejam naturalizados nem esquecidos”, comentou o Coletivo.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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