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De acordo com o boletim “Curva das Periferias”, distritos da cidade de São Paulo com maior população negra registraram em quatro meses avanço nos casos de Covid-19 superior aos distritos de maioria branca

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: DiCampana Foto Coletivo

Desde o início da pandemia da Covid-19, o novo coronavírus, o número de infectados na cidade de São Paulo aumentou significamente nos distritos com mais de 40% da população declarada negra, conforme apontam dados compilados pelo Boletim “Curva das Periferias”, dos portais Alma Preta e Nós, Mulheres da Periferia.

Em toda a capital, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, houve um crescimento de 157 vezes no número de casos, passando de 1.438 em 31 de março para 225.587 no último dia de julho. Nos distritos onde a maioria a população é negra, segundo a análise do “Curva das Periferias”, o total de casos confirmados cresceu em média 339 vezes. Por outro lado, nos distritos em que menos de 50% da população se declara negra, a média de alta foi de 64 vezes.

A dinâmica do exploração da força de trabalho e o auxílio emergencial, no valor de R$ 600, com burocracias e entraves ao acesso, segundo a médica Denize Ornelas, membro do  Grupo de Trabalho da Saúde da População Negra da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade), são dois fatores que contribuíram para que a Covid-19 tivesse uma performance mais grave entre a população negra das periferias.

“A necessidade das pessoas ultrapassava o tempo político da liberação do auxílio emergencial. Além disso, o valor foi insuficiente para que as famílias pudessem fazer o isolamento. Faltou medidas para garantir a segurança alimentar de crianças e perfis socialmente vulneráveis. Os trabalhadores das áreas de limpeza, de transportes, terceirizados e em cargos de nível médio em setores essenciais não podiam correr o risco de perder o emprego na pandemia. Por continuarem no trabalho, eles levaram para as suas comunidades o risco maior de contaminação”, explica.

No Grajaú, na Zona Sul, onde 57% da população é negra, havia três pessoas infectadas em 31 de março. O número aumentou para 104 contaminados em 17 de abril e saltou para 1.038 em 31 de julho, um crescimento de 346 vezes de março a julho.

No Capão Redondo, distrito também da Zona Sul e com 54% da população formada por negros, não havia nenhum caso confirmado em abril. No fim de julho, no entanto, o número de infectados era de 977. No Jardim ngela, o total de casos confirmados cresceu 242 vezes, passando de quatro em março para 970 em julho. No distrito, 60% da população se declara como negra.

“A pandemia atualiza e joga luz sobre a desigualdade que já cultivamos no nosso país há séculos. Soma-se a isto maiores índices de desemprego, informalidade, moradias precárias, maior densidade demográfica, saneamento básico insuficiente, que são compartilhados pelas periferias do Brasil”, afirma o médico Yuri Alencar, vice-presidente do Instituto Luiza Mahin.

Segundo Alencar, as medidas possíveis de controle da pandemia são inviáveis nas periferias e o governo falhou em não considerar o recorte racial na construção de políticas de combate à pandemia. “No Brasil o Estado adotou políticas de combate à pandemia que só os ricos conseguem seguir com tranquilidade, sem considerar as particularidades e carências históricas das periferias”, pontua.

No decorrer dos primeiros quatro meses da pandemia, a disseminação do novo coronavírus nos bairros mais ricos e majoritariamente brancos foi diferente. A exemplo da Barra Funda, região central, onde 16% da população é negra. Até abril o distrito não tinha nenhum caso confirmado e em julho a taxa subiu para 87 pessoas infectadas. Já no Socorro, Zona Sul, com 21% de negros, eram três infectados em março, 24 em abril e 123 casos até o dia 31 de julho, um crescimento de 41 vezes.

A distância entre os distritos de Socorro e Grajaú é de menos de 11 quilômetros. O comportamento do vírus, porém, não é definido por questões geográficas. É o que explica a enfermeira Bruna Luana Farias, integrante do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de São Carlos (NEAB).

“As periferias são resultado da operacionalização do necroliberalismo em nossa sociedade. São nestes espaços que ocorrem a intersecção entre diversos fatores sociais e econômicos, que expõem diretamente a população negra ao coronavírus”, salienta.

Para a profissional de saúde, as políticas públicas também não podem descartar o impacto do racismo estrutural. “O acesso universal ao saneamento básico, à moradia e à renda mínima são urgentes para a manutenção do direito à uma vida com dignidade”, avalia a enfermeira.

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