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“Café com Canela”, “Ilha” e “Até o fim” estarão na plataforma até 2 de julho; em entrevista, cineastas falaram sobre os longas e a decisão de disponibilizá-los online durante a pandemia

Texto: Amanda Lira e Gabriel Araújo | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/Ary Rosa

* Uma entrevista do Enquadro

“Até o fim”, filme mais recente de Ary Rosa e Glenda Nicácio, foi ovacionado de pé ao fim da sessão que marcou sua estreia na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada no início de 2020. O filme é um registro das conversas e histórias de quatro irmãs, mulheres negras, que se reencontram na iminência da morte do pai. Consagrando uma trajetória já reconhecida no cinema nacional, a obra foi eleita como melhor longa pelo júri popular.

O longa-metragem também é o terceiro trabalho da dupla desde a estreia de “Café com Canela”, em 2017. Ary e Glenda têm lançado praticamente um filme por ano. As obras, que trazem o registro afetuoso de uma vida em Cachoeira, na Bahia, chamam atenção para a iminência de um novo polo de produção cinematográfica no Recôncavo Baiano, que reúne atores e atrizes consagrados do cinema e do teatro brasileiro, como Babu Santana e Valdinéia Soriano, e novas revelações - caso da protagonista de “Café”, Aline Brunne.

Em razão do período de distanciamento social por causa da Covid-19, os diretores decidiram tornar as obras disponíveis online. Os três longas estarão disponíveis até o dia 2 de julho no canal do YouTube da Rosza Filmes.

Até a publicação deste texto, os filmes acumulavam juntos cerca de 23 mil visualizações, prova da aderência dessas narrativas num público que espera por representações mais diversas no cinema brasileiro. Em entrevista ao Enquadro, Ary e Glenda falaram sobre a decisão de disponibilizar os filmes na internet.

O que explica essa produção rápida e constante de vocês? Afinal, desde “Café com Canela”, houve praticamente um filme lançado pro ano.

Ary Rosa: “Café com Canela” e “Ilha” conseguiram fazer uma sequência interessante de parcerias, principalmente com o Estado da Bahia, que trabalha com a Ancine [Agência Nacional do Cinema]. Ambos foram financiados com esses arranjos regionais, uma linha que existia na Ancine que começou a privilegiar filmes fora do eixo Rio-São Paulo. E, mesmo na Bahia, começou a se pensar também esse cinema fora da capital, algo muito importante para a produção desses dois filmes.

No entanto, de 2017 para cá, esses recursos começaram a ficar mais escassos. Começou a ser mais difícil esse acesso aos editais, principalmente de quem está na periferia da periferia cinematográfica. Então começamos a rever nossos modos de produção. “Café com Canela” obviamente não é um filme grande, pensando em tamanho de equipe, orçamento e uma série de coisas, mas “Ilha” já é um filme mais reduzido. Apesar de ter um orçamento parecido com o do Café, já é uma equipe menor, já se propõe a ser um filme mais econômico. E “Até o Fim” é um filme que a gente fez com os recursos do “Café com Canela”. O que ganhamos do Café em sala de cinema e em venda para televisão, a gente decidiu investir no lançamento de “Até o Fim”, que é o que a gente tá se programando agora - a fazer filmes pequenos.

O que são filmes pequenos? Com orçamento baixo, com um roteiro que propõe economia e com uma divisão de lucros envolvendo as empresas parceiras nossas. Em vez de salários, a gente está trabalhando com a divisão de lucros entre um coletivo de produtoras. Eu acho que esse é o melhor caminho hoje. “Até o Fim”, por exemplo, se passa em uma só locação, em uma noite, com quatro atrizes e uma equipe de onze pessoas. Isso deixa tudo muito econômico. E é um filme, é um longa-metragem que funciona nas suas particularidades de entender o que nasce nesse “fazer roteiro”. Não dá mais pra gente ficar fazendo roteiro com nave espacial ou lobisomem, né?

Nós, do cinema independente, precisamos começar a pensar roteiros viáveis, que a gente possa fazer com a nossa turma, como a gente fazia com curtas-metragens. Começar a pensar isso para longa, entendendo que o longa tem um espaço na história e um espaço no mercado que é diferente do curta-metragem. Nós somos longa-metragistas e a gente está encontrando caminhos pra continuar fazendo. Estamos conseguindo encontrar caminhos. Eu acho que é importante não desistir, né? Pode ser que uma hora seja impossível, mas enquanto tiver possibilidade, a gente continua trabalhando.

Por que liberar os filmes agora?

Glenda Nicácio: Acho que se deve ao tumulto e ao caos do momento: é uma ação totalmente de emergência num período de emergência. Pra mim e pro Ary, ficou bastante óbvia essa necessidade de compartilhar esses filmes num momento em que parece que está todo mundo frágil.

A gente achou que o cinema que realizamos aqui no Recôncavo poderia ser uma forma de se aproximar das pessoas. De nos aproximarmos, sobretudo, dessas histórias, dessas personagens, dessas narrativas - dessa narrativa que é negra, desses corpos negros dessas mulheres e desses homens que são tão exuberantes e donos da sua própria história. Eu acho que compartilhar os filmes nesse momento é uma questão de alimento.

E todo mundo sai ganhando muito. O público consegue ter acesso e nós, enquanto realizadores, vemos a carreira e a vocação do filme sendo cumprida. Os filmes nasceram para serem vistos e eu acho que o cinema que a gente faz vai sempre ao encontro disso. Um cinema que quer se popularizar, que quer estar nas esquinas, que quer estar em todos os lugares. Nos lugares que a gente nem imagina.

Quando pensamos em questões de contrato, ineditismo e circuito de festivais, o que essa liberação implica?

Ary Rosa: O mundo já não é mais o mesmo e eu imagino que os contratos e os acordos precisam ser revistos. Não dá pra gente imaginar que, por exemplo, algum filme independente tenha hoje a sala de cinema como primeira janela. No nosso caso, por exemplo, os filmes estão prontos - o ‘Ilha’ está pronto desde 2018, quando ele estreia no Festival de Brasília.

Pela lógica, esse ano salas de cinema não devem abrir. Então imagina um filme independente que esteja pronto para estrear? Ano que vem vai estar tudo represado. Os filmes de Hollywood estão represados e vão começar a tensionar o mercado. E, pensando até no Brasil, que possui essas cotas [de ocupação das salas de cinema comerciais], os filmes da Globo Filmes também estão represados e vão querer entrar de sola assim que o cinema abrir. Então a gente vai ficar sem espaço no cinema.

Se a gente não começar a entender que existem outras janelas e que essas janelas são fundamentais para possibilitar a existência do filme, vai ficar muito difícil. Eu acho que as distribuidoras e os próprios financiadores vão ter que começar a rever esse lugar do cinema independente, porque isso não será regularizado tão cedo.

Já pararam para ver os números de visualizações e os comentários em cada filme? Como se sentem com essa repercussão?

Ary Rosa: A gente tem recebido muitos comentários. Muita gente agradecendo e muito feliz com a disponibilização dos filmes. Tocando muita gente.

Muda muito o público, afinal. Deixamos de ter aquela proteção da sala de cinema, dos festivais e da TV fechada que, claro, acaba sendo para um grupo de pessoas muito específicas, pensando na realidade brasileira. A gente tira essa proteção do mercado e abre de uma forma que as pessoas podem acessar. Questões de linguagem acabam ficando em segundo plano, às vezes, para uma perspectiva de sentimento e de discurso que eu acho muito interessante. E tem sido muito legal ver o feedback, ver as pessoas se emocionarem, compartilharem e refletirem sobre.

Só que a gente também abre espaço para um bocado de coisas que sabemos que existe e que não é bom. Coisas como o racismo e a homofobia. Desde o início a gente sabia que isso poderia gerar sensações e sentimentos que, não necessariamente, gostaríamos de confrontar. Mas eles existem e a gente precisa saber que faz parte, né?

Trabalhamos para gerar discurso e diálogos mais produtivos. Mas também entendemos que muita gente, hoje, não está querendo gerar diálogos produtivos, querem apenas atacar. Faz parte. Isso não nos amedronta nem nos intimida. Acho que o mais importante é chegar em pessoas que precisam ver esses filmes, que querem ver esses filmes e que são tocadas positivamente, afetivamente e reflexivamente por eles.

Qual a concepção de cinema de vocês?

Glenda Nicácio: Acho que não tem uma raiz só, mas, se tivesse uma fonte, um lugar de beber, de nutrição, com certeza eu falaria que é o Recôncavo [Baiano], que é um marco nas nossas vidas. O lugar onde a gente se conheceu e começou a aprender cinema junto. Ele nos ensinou a trabalhar de um jeito de grupo, de coletivo, de criação de laços, de vínculos, de irmandade. Acho que fazer cinema aqui, aprender a fazer cinema aqui, fez com que a gente amarrasse todas essas palavras nas nossas vivências.

Não dá para deixar de falar disso tudo sem pensar o processo, que é uma das coisas que a gente mais valoriza. Fazer filme é um processo muito longo que envolve várias etapas, desde a ideia, a escrita do roteiro, até o desenvolvimento do projeto, a captação… Além das etapas de realização, montagem, exibição, divulgação… existe essa celebração de poder assistir junto, de poder compartilhar o filme.

O processo está em tudo o que se passou para que a gente chegasse até aqui, considerando trajetória, pessoas, grupo, produtora, amigos, e os próprios filmes em si. Cada filme joga a gente num processo específico e eu acho que a gente mergulha muito nisso, em cada filme, para conseguir encontrar qual é o ritmo, qual é a nuance, qual é a cor, qual é o som. O que está impregnando? Qual é a energia que está impregnando o filme? Quando você está fazendo um filme, você vive um pouco essa energia, né? E com certeza é uma energia que sai do Recôncavo.

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