fbpx

Texto: João Victor Belline / Edição de Imagem: Pedro Borges

“Ontem durante o jogo contra o Minas, um senhor disparava uma metralhadora de insultos racistas em minha direção. Era macaca quer banana, macaca joga banana, entre outras ofensas. Esse tipo de ignorância me atingiu especialmente, porque meus familiares estavam assistindo à partida. Ele foi prontamente retirado do ginásio pela direção do Minas Tênis Clube e encaminhado à delegacia. Agradeço à atitude do Minas, em não ser conivente com esse absurdo. Clube este, onde comecei a minha história e onde até hoje tenho pessoas queridas. Refleti muito sobre divulgar ou não, mas penso que falar sobre o racismo ajuda a colocar em discussão o mundo em que vivemos e queremos para nossos filhos. Eu não preciso ser respeitada por ser bicampeã olímpica ou por títulos que conquistei, isso é besteira! Eu exijo respeito por ser Fabiana Marcelino Claudino, cidadã, um ser humano. A realidade me mostra que não fui a primeira e nem serei a última a sofrer atos racistas, mas jamais poderia me omitir. Não cabe mais tolerarmos preconceitos em pleno século XXI. A esse senhor, lamento profundamente que ache que as chicotadas que nossos antepassados levaram há séculos, não serviriam hoje para que nunca mais um negro se subjugue à mão pesada de qualquer outra cor de pele.”

Apenas por essas palavras, divulgadas no dia 28 de janeiro de 2015 através de sua página oficial no Facebook, Fabiana já merece mais do que todo o nosso respeito e admiração. Como ela mesma diz, não só pelos títulos conquistados com muito trabalho no esporte, mas principalmente por fazer o que muitos atletas brasileiros não fazem: combater o racismo. Ela é mulher, é negra e é neta de índia. Antes de desenvolver qualquer ponto sobre você, capitã: digo que tem todo meu apoio e respeito.

Talvez uma jovem Maria do Carmo até sonhasse em conhecer um príncipe vindo à cavalo, como a mesma citou em entrevista ao Jornal Nacional no mês de julho. Fato é que o seu príncipe Vital não veio de cavalo, muito menos de moto. Maria encontrava Vital na condução coletiva, já que ele era o motorista, no pequeno e tradicional “reinado” de Santa Luzia. Desta união, no dia 24 de janeiro de 1985, resultava uma bebê: Fabiana Marcelino Claudino.

Logo aos 13 anos, a menina foi induzida a praticar voleibol. Se na idade adulta Fabiana mede 1,93m, na infância, a menina já era alta e a mãe insistia para que começasse a jogar. Mesmo sem saber o mínimo dos fundamentos, ela começou a treinar vôlei no Minas Tênis Clube e rapidamente fez duas grandes amigas: Yara Ribas e a parede. Yara foi a primeira treinadora e a pessoa que ensinou Fabiana a se tornar uma atleta. Desde a forma de correr, as primeiras manchetes, até os levantamentos. Tudo passava pela mão da treinadora. Entretanto, outra companhia também sempre se fez presente. Fabiana, sob a tutela de Ribas, passava horas treinando os fundamentos rebatendo contra a parede. Assim, nada impediria a jovem de aperfeiçoar-se o quanto pudesse.

Apenas três anos depois, em 2001, Fabiana já tinha sido convocada para as seleções de base e sido alçada ao time profissional do Minas. Quer começo melhor do que ser campeã da Superliga com apenas 16 anos? Talvez, uma estreia com a Seleção aos 18? Pois bem, tudo isso aconteceu com a atleta mineira. Entre as passagens pelos clubes Minas Tênis Clube, Rio de Janeiro, Vôlei Futuro, Fenerbahçe e Sesi-SP, a atleta foi campeã da Superliga, do Carioca, da Salonpas Cup, da Copa do Brasil, do Top Volley, dos Jogos Abertos do Interior do paulista, da Liga dos Campeões da Europa, do Sul americano, e alguns desses títulos mais de uma vez.

Inegavelmente, o grande destaque da carreira da mineira está nos momentos vestindo as cores verde e amarela. Em 2002, Fabiana já estreava na Seleção Principal depois de já ter conquistados títulos na base. Prata na Copa do Mundo, Ouro no Grand Prix, o caminho levava à Atenas, a terra natal das Olimpíadas. Mas a primeira experiência nos Jogos não foi como esperado: o Brasil teve seis chances de vencer o jogo semifinal contra a Rússia, mas tomou a virada e ficou fora da final.

Mesmo com o esforço de Fabiana e o restante do time, a equipe chinesa superou as brasileiras

Depois da competição na Grécia, Fabiana começou a ganhar espaço e figurar entre as titulares do time brasileiro. Apesar do resultado negativo em 2004, os anos seguintes foram de chegadas: título de Copa dos Campeões, de Grand Prix, prata no Mundial, no Pan-americano e na Copa do Mundo. Mais uma vez, o caminho olímpico chamava, dessa vez em Pequim.

Em território chinês, em 2008, a esperança era apenas uma: apagar a má impressão da última participação e conquistar o inédito ouro olímpico. No mesmo ano, mas antes dos Jogos, o Brasil se sagraria tricampeão do Grand Prix. O cenário era extremamente favorável e tudo deu certo. As meninas do Brasil venceram o time estadunidense por 3 a 1 na final de conquistaram a sonhada medalha dourada. A Rússia, antigo fantasma, caiu nas quartas.

No período entre as Olimpíadas, o primeiro dos fantasmas foi exorcizado: depois do ouro pan-americano escapar em território brasileiro, a conquista veio em Guadalajara, em 2011. Também nesse período, mais um ouro e três pratas no Grand Prix, prata no Mundial e também na Copa dos Campeões. Chegava a hora de buscar mais um ouro olímpico. E em Londres, em 2012, o cenário não poderia ser melhor. Antes de buscar a medalha, o Brasil enfrentou o seu velho fantasma, a Rússia, nas quartas de final. Dessa vez, foram as Russas que perderam seis chances e ficaram pra trás. Quem matou o ponto decisivo? Fabiana. Bicampeã olímpica na Inglaterra, fantasma exorcizado do sul-americano e também dos Jogos Olímpicos.

Fabiana Claudino, capitã da Seleção Brasileira Feminina de vôlei, escolhida de forma unânime entre as atletas, tentou no Brasil o inédito tricampeonato olímpico. Em sua quarta olímpiada, a atleta foi a primeira a receber a tocha, símbolo de toda a tradição da maior competição esportiva da atualidade.

A inesperada derrota nas quartas para a China, depois de passar pela primeira fase sem sequer perder um único set, não diminui em nada a representatividade desse símbolo esportivo, dos seus títulos conquistados, nem os anos levando as cores do país mundo à fora. Que Fabiana continue provando que o nosso lugar é onde quisermos, mesmo que alguns ainda achem o contrário. “Não há preconceito que me impeça de conquistar tudo que mereço”.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com