Três meses depois de sua morte, o filho e amigas recordam a importância da artista, com trajetória parecida com a de Carolina Maria de Jesus

Texto / Farah de Paula I Edição / Lucas Veloso I Imagem / Acervo Pessoal

Era noite em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Uma mulher andava pelas ruas da cidade e encontrou um evento com microfone aberto para que as pessoas recitassem seus poemas. Era o início de um sarau. Ela entrou ali e declamou uma poesia.

A história é real e aconteceu em meados da década de 90 com Tula Pilar, vítima de parada cardíaca, em 11 de abril deste ano.

Tula nasceu em abril de 1970, em Leopoldina, Minas Gerais. Viveu sua infância e adolescência entre Ribeirão das Neves e Belo Horizonte. Foi a segunda filha de dona Antônia Ferreira de Souza, entre sete irmãs.

Criada em casas de famílias burguesas no estado de Minas, aprendeu aos 5 anos o ofício de empregada doméstica. Aos 19, teve sua primeira filha, Samantha Pilar, época em que se mudou para São Paulo. Na cidade, teve outros dois filhos, Pedro Lucas e Dandara Pilar.

Uma mulher de frases prontas a respeito de si mesma, disposição para andar pelos eventos de São Paulo e com sorriso pronto a distribuir. Essas são algumas qualidades apontadas por aqueles que estavam mais próximos dela.

Hoje, três meses depois de sua morte a redação do Alma Preta reuniu o filho e amigas da artista para lembrar a vida dela, falecida com 48 anos e o sonho de publicar mais livros.

Claudia Souza, a Dinha da União Popular de Mulheres, destaca as dificuldades enfrentadas pela amiga para viver de arte no Brasil, um país que não valoriza a cultura negra. ”A referência da escritora Carolina Maria de Jesus, e sua perseverança nunca desanimaram”, aponta.

“Ela me ensinava muito sobre ser forte, não desistir, encarar as dificuldades e querer mais da vida. Foi uma mulher teimosa, ousada - como ela mesma se definia - e alegre, acima de tudo”, lembra, emocionada, Suzi Soares, articuladora do Sarau do Binho, onde Tula também costumava se apresentar.

Nas palavras do filho, Pedro Lucas, a mãe sempre foi interessada com as artes, prova disso é que desde muito jovem, já participava dos bailes em escola de danças de Belo Horizonte.

Muito conhecida entre artistas e poetas de São Paulo, Tula também foi vendedora da revista “Ocas”, autora dos livros “Palavras Inacadêmicas”, produzido de forma independente em 2004, e “Sensualidade de fino trato”, publicado pelo selo do Sarau do Binho em 2017. Teve participação em obras coletivas, como o “Negras de Lá, Negras Daqui”, lançado em fevereiro deste ano.

“Ela era incansável na busca pelo conhecimento. Sempre estava tendo aulas de alguma coisa e não tinha vergonha de se mostrar, de se arriscar”, conta Suzi. “Frequentava qualquer ambiente, sempre reconhecida por todos. No dia a dia, gostava de festejar, de estar com os filhos e amigos, de ir a todos os eventos quantos fossem possíveis”, completa a amiga.

Era de sua infância que Tula costumava lembrar. Várias vezes citava situações acontecidas quando criança, onde acompanhava as patroas aos clubes, mas nunca podia entrar na piscina, nem sentar à mesa para comer com eles. Fora isso, suas patroas reclamavam muito de sua lerdeza, porque só queria a companhia dos livros, lidos às escondidas.

Outra característica da poeta era sua vida parecida com a da escritora, também mineira, Carolina Maria de Jesus. O fato de serem negras, terem trabalhado como empregadas domésticas e terem o interesse pela leitura aproximou as histórias. Em São Paulo, Pilar fazia espetáculos interpretando Carolina.

Suzi concorda que as histórias de Carolina e Pilar pareciam, como a infância pobre em Minas Gerais, os maus tratos sofridos, além da luta cotidiana, a fome, a miséria, o aluguel sempre por vencer, as dificuldades na criação dos filhos, e os sonhos proporcionados pela leitura.

“Buscava colocar nos seus poemas estas situações que viveu, as dificuldades diárias, a questão do racismo e toda sua ‘Sensualidade de fino trato’, comenta.

"Uma mulher doce e frágil". É assim que Iyá Ana Rita, outra amiga de Tula, lembra da artista. Para ela, ao representar Carolina nos palcos, não era só um papel, mas a sua própria história, vista através de Carolina, e outras mulheres negras como ela.

“Eu, sendo de outra geração, muito me encantava a sua resistência e força. Ela como nós, mulheres negras, sobreviveu diante das injustiças, racismo e solidão. Inspirando outras mulheres”, analisa.

Foi unanimidade, entre os entrevistados, reconhecer a importância de Pilar à cultura brasileira e seu legado como artista.“Mesmo com todos os ‘perrengues’ diários, a luta pela sobrevivência como mãe, artista solteira, negra, ela nunca chegava triste nos lugares. Seu sorriso vinha antes”, lembra Suzi.

“É difícil acreditar que não a encontraremos mais por aí, pelas rodas, pelos saraus, pelos coquetéis”, desabafa.

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